Discursos Sobre a Cidade - Por Gil Santos

O Trinca Espinhas
Os companheiros de escola umas vezes chamam-lhe Estarrincas e outras Trinca Espinhas.
Amâncio Sanfrósio Carrapiço, de facto, não tinha nome que se recomendasse! Se até para se ser cão é preciso sorte, muito mais para se ter nome decente. Chego até a pensar que a gente não devia ter nome(s), próprio(s), nem apelido(s), antes um número, ou até, quiçá, uma matrícula como as dos carros. Mesmo com a conotação negativa que algumas combinações de algarismos possam ter, ainda assim, acho preferível, a ter de levar com uma Urraca Carmelinda, um Terebentino Maçapão, ou até com um Jagolino Carranhoso!
Amâncio era filho da crujidade, o mesmo é dizer nascido de uma aventura de ocasião, talvez motivada por alguma febre n(d)os fenos! Foi feito na forma da Heloísa Arrebita, na acarreta do feno do Ti Moreiras do Carregal.
Até hoje ninguém lhe (re)conheceu o pai, pese embora a lograda ter feito uma acusa ao Inácio Fintador. Diz que a apanhou ó por baixo, no palheiro da eira na pisa do feno! Chegou mesmo a dar parte dele à GNR do Vidago. Contudo, quando a autoridade o procurou, já se tinha espantado, p’rá Galiza, segundo a prosmeira da Tia Cândida que a queria casada com o neto Catrapisca!
A estória é boa de contar. Atentemos:
No Planalto, depois de se segar o feno, à gadanha, espargia-se pelo lameiro. Virava-se com as forquilhas de carvalho, durante uns dias, para que secasse e não ardesse no palheiro por ter sido empalheirado com lentura. O do Ti Moreiras já estava pronto para ser guardado, por isso pôs dia para a acarreta. O Carregal despejou-se à ajuda. Eram para mais de vinte almas, entre homens, mulheres e crianças. Algumas iam, tão-somente, pelo cibo, bem no sei, que o trabalho não era ele assim tanto!.. O rancho seguiu, de madrugada, para o lameiro do Belão que havia sido guardado para feno pelo S. Brás. O Ti Moreiras jungiu a sua parelha de bois galegos, atrelou-a ao carro, sem ladranhos e armado de estadulhos da acarreta. Juntaram-se-lhe mais duas juntas, também à ajuda, a do Gripino e a do Patalão. Sobre o tabuado do carro do Ti Moreiras seguia uma cesta vindima com uma dezena de bolas de trigo de quatro cantos, figos secos e nozes. Era para o mata-bicho. Enfiado num estadulho um pipo de dez litros de tinto de Cova do Ladrão, noutro uma lingureta de bagaceira e noutro ainda uma corda carral para espartilho da carga.

A manhã mostrava-se límpida, fazendo adivinhar forte canícula e estava destinada ao ajuntamento do feno, à limpeza do lameiro e ao carregamento dos carros. A tarde à acarreta e a encafuá-lo no palheiro.
O jantar chegaria pelo meio-dia em duas jigas que a patroa Carolina e a sua criada levariam à cabeça, costa abaixo, até ao Belão. O Ti Moreiras, nestas coisas dos morfes, não costumava deixar o crédito por mãos alheias. Quem trabucasse manducava! Desta feita, cozinhou-se um apurado guisado de cordeiro, que havia de ser degustado na fresca da carvalhada da Galgueira, no chão, sobre alvas toalhas de linho, estendidas numa esteira do próprio feno. Quatro fundos assadores de barro negro de Nantes, atacados do guisado, foram espalhados pela mesa improvisada. A cada trabalhador distribuído um carolo de pão e um garfo de ferro para espetar um cibo do cordeiro. A Galgueira, por esta ocasião, estava pejada de saltões e muitos deles afogavam-se no molho do guisado. Ninguém se incomodava, pois bem se sabia que saltão não gosta de cordeiro guisado!.. Para beber, o tal tinto de Cova do Ladrão, refrescado no rego do lameiro e cujo pipo passava de boca em boca.
A mim, nestes trabalhos da lavoura (segada do pão, arranque das batatas e sega do feno) cabiam-me quase sempre duas tarefas que eu cumpria com grande alegria: passar o pipo aos trabalhadores e ir a Adães pelo cordeiro para a refeição. Na véspera da empreitada o paizinho selava-me a Matriosca, sua égua de estimação, botava-lhe os alforges e mandava-me ao peliqueiro de Adães por um cordeiro. Como eu gostava deste trabalho! Cavalgando à toda, dava-me um gozo imenso chegar ao destino com a cavalgadura esbaforida a fumegar. Depois, o peliqueiro ia-se ao rebanho, apanhava o melhor cordeiro por uma perna e ali mesmo o sangrava e esquartejava para que eu o levasse preparadinho, até à cozinha da maezinha. E eu, de cima dos meus seis anos, fazia aquilo com uma vaidade imensa, por me sentir útil na azáfama das colheitas!

Carregal
Retomemos:
Despois da janta, atrelavam-se os bois, fartos por uma manhã descansada de pasto, aos carros, carregados como ouriços-cacheiros, que transportariam o feno até ao palheiro onde se calcava-se para que ficasse bem apertado e capaz de ser ripado às gabelas para alimentar o gado nos dias de invernia. Era um regalo ouvir os carros de bois a cantar ao desafio pelo termo da aldeia. E os agricultores, briosos, punham nisso grande proa. Untavam a cantadeira e o chumaço com sebo, apertavam os encostos do eixo como quem afina cordas da viola e punham o carro a cantar com afinações diferentes consoante a carga e a sua arte. O cantar da carga do feno e do centeio era mais grave e o da carga das batatas mais fininho. O bem chiar era muito importante num carro de bois pois conferia autoestima ao seu proprietário, dando-lhe um estatuto de grandiosidade e prestígio social. Cada carro tinha o seu timbre próprio, pelo que não era difícil saber-se, a léguas, quem lá vinha e que carga transportava.
Encosta do outeiro acima seguiam, então, os três carros de feno com a malta atrás de forquilhas ao ombro. Dirigiam-se para a eira, onde o Ti Moreiras tinha o palheiro do feno. Um carro de cada vez, encostava-se a uma janela alta que a parede de pedra solta, propositadamente, tinha rasgada para este efeito e um homem de cada lado ia atirando fartas garfadas de feno para dentro. No interior, à rapaziada nova, solteira, cabiam as tarefas de o acomodar e de o calcar para que ficasse apertadinho. Eram tarefas penosa, por um lado, mas muito atrativas por outro. Penosas, porque o pó da erva seca provocava muita comichão e dificuldades respiratórias. Atraentes, porque alguns vingavam-se das moças que no dia-a-dia não davam abébias, mas ali não podiam evitar amassos e cambalhotas! Aquilo era uma festa, um regabofe, como soi dizer-se! Ao ponto de se correr o risco de chegar a vias de facto, em relâmpagos, bem entendido, mas nem por isso ausentes de consequências a prazo.
Foi isso que aconteceu naquela tarde. Uma distração entusiasmante mas fatal! O Inácio já lhe andava com sede há muito tempo e a Heloísa, pese embora vir mantendo uma atitude recatada e distante como convinha, para povo ver, também lhe tinha ganas, que estas coisas só acontecem quando a vontade é comum! Aproveitaram a borga e entre a confusão e a gritaria a coisa deu-se! E aconteceu num tão curto espaço de tempo que talvez por isso o Amâncio justificasse a nomeada do Trinca Espinhas!.. A rapariga achou-se grávida e o Inácio, tralhado, pôs-se de fora. Negou que fora ele e quando viu a sua boa pisgou-se. A Arrebita teve de criar o crianço ao Deus dará, com a ajuda da sua mãe e das vizinhas.

Adães
O Amâncio cresceu entre nós e apesar de muito mais velho, partilhámos as brincadeiras e as travessuras próprias da idade. Contudo, o moço era atravessado de todo. Não sei se por falta da vergasta do pai se pela própria revolta de não o conhecer, ele era das felpas do diabo! Roubava fruta, assobalhava os centeios, tirava os ninhos, esganava os gatos, prendia latas ao rabo dos cães quando os apanhasse à cainça entalados nas cadelas, soltava os coelhos das coelheiras e as pitas da capoeira só para ver as velhotas atrás delas, roubava favos das colmeias, capava grilos, enfim fazia trinta por uma linha! Então na escola era um cristo. O mestre Matos, andava-lhe sempre no lombo, não porque ele não aprendesse, que nisso era um ás, mas pelas asneiras que fazia. E enquanto apanhava, de régua, ou de marmeleiro, não se queixava, estarrincava os dentes com a raiva. Daí a nomeada. Praticamente não havia recreio cujo termo não trouxesse arraial. O pior é que, muitas vezes, sobrava para os outros que o acompanhavam nas maroteiras. As pedras da mina dos Candeias se falassem, teriam muito que contar!..
Naquele tempo tínhamos escola aos sábados de manhã. Porém, esse dia destinava-se às limpezas da sala de aula. A escola era composta apenas por duas salas, uma masculina e outra feminina, um recreio e nada mais. Casas de banho era coisa de luxo que na ocasião não existiam e as necessidades fisiológicas satisfaziam-se no souto, nas traseiras do edifício. Pelo caminho, do Carregal a Adães, cada um de nós, ao sábado, tinha de ajeitar uma vassoura de fronças de giesta para varrer a escola. Os de Santa Leocádia, de Fornelos da Dorna, de Vale do galo, de Matosinhos e de Santa Ovaia faziam o mesmo. Então, aquilo era um espetáculo de poeira no ar. Uns varriam para o sítio que os outros tinha já varrido e antes do lixo chegar à porta já tinha havido desaguisados. Os do Carregal não se davam com o de Vale do Galo e os de Matosinhos com os de Santa Ovaia, pelo que não era incomum aquelas manhãs acabarem com uns a correr os outros à pedrada até às suas terras. Claro que na segunda-feira o Matos acertava-nos o passo e as contas e ficavam saldadas!

Stª Leocádia vista desde Adães
Outra das tarefas que se cumpria ao sábado, era a de fazer a tinta para encher os tinteiros de porcelana das carteiras para molhar a pena na escrita mais elaborada da semana. O professor dava uma pedrinha de tinta a cada um que derretia com água, mexendo com um guiço, até que se fizesse em tinta. Quanta mais água levasse, mais aguada ficava e mais mal escrevia. Se se diluísse pouco a tinta ficava carregada mas não dava para a semana toda, pelo que era sempre difícil esta gestão. Porém, com a experiência já se tinha uma medida certa da água que dependendo do tamanho do cristal da tinta, andava sempre por mear o tinteiro.
Ora, num desses sábados, para além destas duas tarefas usuais, havia uma outra que constava de colher as pinhas do pinheiro manso qua havia no recreio da escola e depois acender uma fogueira para extrair os pinhões. Era uma tarefa que se cumpria uma vez por ano e que a rapaziada gostava de a fazer, apesar da resina embloutar tudo e das queimadelas nas mãos. Os pinhões eram para o senhor professor, contudo, dava sempre para rapinar uns quantos, que depois serviriam para jogar ao rapa no serão da consoada.
A sala, naquela maré, varreu-se num ápice e os tinteiros mearam-se num instante com sentido nos pinhões. Ora, enquanto todos estavam entretidos nesta tarefa, incluindo o professor, o Estarrinca, entrou sorrateiramente na sala das raparigas e de braguilha aberta encheu tinteiro a tinteiro.
Cala mureta!.. Somente abriu a boca para alguns, os mais amigos!
Aquilo passou.
Na segunda-feira era dia de prova escrita e no recreio estávamos todos aspadinhos para ouvir as novidades das raparigas da sala da professora Matilde sobre a qualidade da tinta.
Nem uma agulha boliu!.. Tudo correu com normalidade.
Passado dias o professor Matos passou a seguinte lição na aula masculina:
― Vocês deviam ter vergonha! São uns palermas! Haviam de ver os resultados das provas das raparigas da 4ª! A professora Matilde está toda crontcha! E com razão! Os ditados quase não têm erros e os problemas de matemática estão muito bem resolvidos. O problema é que a tinta com que as meninas fizeram as provas estava um bocado deslavada e a escrita lê-se mal! Temos de comprar d’outra tinta. As vossas provas lêem-se bem, contudo estão uma vergonha. Eu aqui só tenho asnos!..
― Bem m’ou finto! Pensavam os que sabiam da marosca!
Mas afinal porque teria sido a urina do Estarrinca assim tão inspiradora? Ninguém sabe ao certo!
Eu acho que ele tinha pacto com o diabo!..
Meninas daquele tempo que lerem esta estória, se ainda têm essa prova guardada de recordação conservem-na, que é uma autêntica relíquia!...
Gil Santos



