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CHAVES

Olhares sobre o "Reino Maravilhoso"

05
Jan16

Intermitências

800-intermitencias

 

Aprender com o fogo

 

Muitas noites, acendia-se uma fogueira na aldeia. Esse era um momento sagrado, mágico, pois o silêncio reinava aí sempre religiosamente. Muitos faziam a ceia frente a ele, momento de descanso e tranquilidade, e voltavam para casa, sem mais. Outros ficavam horas a contemplá-lo.

 

Ele não entendia porque o pai o obrigava a ficar, ao lado dele, durante horas fixando o fogo. “Olha para o fogo e aprende com ele”, justificava.

 

Muitas noites, acendia-se uma fogueira na aldeia. Certo é que, com o tempo, ele foi capaz de fixá-lo durante mais tempo, mas logo a sua agitação voltava. Nas frias noites de Inverno, era certo que o fogo aquecia o corpo, mas ele não entendia porque tinha de ficar horas em silêncio, quieto, em frente ao fogo, simplesmente fixando-o. “Olha para o fogo e aquece também a alma”, insistia o pai.

 

A alma? Esse era um conceito demasiado abstrato para uma criança como ele. O que é a alma? “Olha para o fogo e escuta”, respondia o pai, antes de voltar ao silêncio e à contemplação. Mas nesse momento sagrado da fogueira, ele apenas via constrangimento, e em parte alguma necessidade.

 

Muitas noites, acendia-se uma fogueira na aldeia. Certo é que, com o tempo, ele começou a apreciar esse momento de silêncio e contemplação ao lado do pai. Apesar de não falarem, nesse momento, ele sentia a presença do pai mais do que nunca. Este era um momento que os unia e... lhe aquecia a alma.

 

Aprender com Fogo.JPGCastelldefels, Espanha, Dezembro 2015 - Fotografia de Sandra Pereira

 

Muitas noites, acendia-se uma fogueira na aldeia. Certo é que, com o tempo, ele conseguia "escutar" o fogo, sentir o poder da sua chama ardente, absorver a sua luz. No fogo, ele conseguia ver o Universo. A cada noite que passava, os seus olhos começaram a brilhar cada vez mais. De vez em quando olhava para o pai e sentia-se feliz. O pai agradecia serenamente com um sorriso. Estava a envelhecer.

 

Muitas noites, acendia-se uma fogueira na aldeia. Certo é que, uma noite, o pai não foi contemplar o fogo. Estava muito doente. Toda a família estava à sua beira, cuidando-o, rodeando-o, sempre presente, para que o pai não se sentisse só. Nessa noite, ele esteve mais tempo do que o costume contemplando o fogo. Era o único membro da família que não estava ao lado do pai, mas sentia-se mais próximo dele do que todos os outros.

 

Já de madrugada, voltou para casa, para junto do pai. "Nunca passaste tanto tempo junto da fogueira... O que aprendeste?", perguntou. "Aprendi o que é a alma". O pai agradeceu serenamente com um sorriso e fechou os olhos. “Se sabes o que é a alma, agora vai... arde como o fogo, intensamente. No final, apenas restarão cinzas, mas partirás com a certeza de que um dia foste forte e poderoso, como a Mãe Natureza te ensinou”.

Sandra Pereira

 

 

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