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CHAVES

Olhares sobre o "Reino Maravilhoso"

07
Jan16

1 - Chaves, era uma vez um comboio…

800-texas

 

1 - Chaves, era uma vez um comboio…

 

No sangue dos flavienses, para além do rio Tâmega, há outros rios que contribuem para a sua fluidez. Um que corre feito com um tantinho de nevoeiro e outro tanto de água das caldas, outro com um cheirinho do Brunheiro e os aromas de um pastel de Chaves, entre outros ingredientes q.b. para temperar o sangue deste vale. A contrariá-lo só mesmo os maus ventos, e não são aqueles que costumam andar na boca do povo: - “de Espanha, nem bons ventos, nem bons casamentos”. Esses são castelhanos. Os nossos, quando muito seriam galegos, que sim, fazem um frio de rachar quando à galega lhe dá para parir, os mesmos que ajudam a fazer a cura dos nossos presuntos e fumeiro, pelo que até devemos ficar agradecidos por esse frio de rachar, que, se chegassem até Lisboa, a capital entrada logo em estado de emergência de alerta VERMELHO, mas que nós suportamos por estarmos habituados. Não, nenhum desses ventos nos incomodam a têmpera, os únicos que incomodam são os que sopram de Sul, dos fecha a roda de Vila Real, tanto, que até o nosso Tâmega quando chega a Vidago começa a desviar-se para o Minho, só para não ter de passar por lá.

 

1-chaves - 1921.jpgChegada a Chaves do primeiro comboio – 28 de agosto de 1921

 

Mas o que é que todo este palavreado tem a ver com o comboio? – Calma que já lá vamos. Regressemos de novo aos fecha a roda. Quis o destino que quando fui mobilizado para o serviço militar obrigatório o meu destino fosse Vila Real. Como se não bastasse ser obrigado a ir à tropa, ter de interromper os estudos e abandonar a minha cidade, das largas dezenas de destinos possíveis, tinha de me calhar logo Vila Real. Azar o meu, mas por pouco tempo, pois havia um destino mal amado, onde só iam parar os castigados, contestatários e afins que por sinal aceitava voluntários – os Açores. A decisão não foi difícil de tomar, pois entre ter de ficar em Vila Real a 60 km de casa e a de ter de ir para o meio do Atlântico a 2000 km de casa, optei pelo mar, e lá fui eu de voluntário para Angra do Heroísmo, na Ilha Terceira.

 

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Bom, direis vós outra vez, e o que é que isto tem a ver com o comboio? – Pois, além de ter ido de comboio de Vila Real até Lisboa para apanhar o avião para a Ilha Terceira, nada ou quase nada, porque os Açores nem sequer têm comboio e é aí que eu queria chegar. Então é assim: Um certo dia uma camarada meu de tropa, natural a ilha de S.Miguel foi mandado para o continente para tirar um curso qualquer, que não recordo, e que até nem tem importância para a história. Curso esse que era ministrado em Coimbra. Da Ilha Terceira a Lisboa a viagem de avião C-130 Hercules não era novidade nenhuma para quem entre ilhas estava habituado a viajar de avião, a novidade só chegou quando o meu camarada de tropa teve de apanhar o comboio de Lisboa para Coimbra e vice-versa, no regresso. Tanta foi a novidade que quando ele, no bar da tropa, se punha a falar do comboio do continente, havia logo uma roda de camaradas de tropa para ou ouvir falar dos encantos do comboio. – “Aquilo tem bar, corredores, casas de banho e vai a uma velocidade que se olharmos para fora até perdemos o tino e vemos tudo a andar…”. Para rematar, quando eu estava por perto, ainda acrescentava: - “ e eu, quando vou para a minha terra, costumo ir na varanda do comboio”. Embora fosse verdade, penso que nunca me levaram a sério. Ora finalmente chegamos ao comboio e ao que falta no primeiro parágrafo deste texto, é que para além do rio Tâmega, do nevoeiro, dos pasteis, do presunto e das águas das caldas, também o comboio fazia parte do nosso ser flaviense e, embora texas, sentíamos orgulho por termos comboio e fazermos parte da rede ferroviária nacional. Mas de pouco nos valeu, pois o comboio foi o primeiro roubo que Lisboa (Cavaco Silva) nos fez, e a linha do Corgo, em vez de ser modernizada como se pedia,  foi das primeiras a fechar para dar lugar ao negócio das autoestradas e outros negócios dos amigos dos transportes.

 

3-1600-4194

 

Hoje do comboio para além das saudades e das recordações, resta-nos um museu e a antiga Estação convertida em edifício municipal. Um museu que, pelo significado que o comboio teve para Chaves, merecia mais dignidade, mas, fiquemos agradecidos só por existir.

 

 

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Chaves, oficinas, 1972

 

Com isto inicio aqui uma nova crónica no blog Chaves, que não irá ter dia marcado, antes, irá colmatar a ausência de uma ou outra crónica que não chegou até nós no dia marcado. Também não sei quanto tempo durará, mas pelo menos ficam garantidas 14 crónicas, tantas quantos os textos que constam do livro “Memórias de uma Linha – Linha do Corgo – Chaves”, publicado pela Lumbudus – Associação de Fotografia e Gravura em agosto de 2014, com fotografias cedidas por Humberto Ferreira, que detém os direitos de autor sobre as mesmas.

 

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O comboio a passar junto ao antiga matadouro, com Chaves ao fundo

 

Pois então, quando menos esperarem, cá estarei de novo com mais comboio, o nosso velho e saudoso texas, e pela certa que iremos além daquilo que está publicado em livro.

 

 

 

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