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CHAVES

Olhares sobre o "Reino Maravilhoso"

19
Jan16

Chaves - Realidades do Centro Histórico

1600-(45160)"Pensão Rito"

 

Recordo de há vinte e tal anos atrás ter ido à Câmara Municipal de Mirandela e ter feito para mim mesmo um comentário – “como um edifício tão nobre como aquele podia estar rodeado de construções em ruínas ou tão degradadas” - e foi essa a imagem com que então fiquei de Mirandela – ruinas e degradação com um edifício nobre no meio.

 

Mais recente, há coisa de um ano atrás, aquando da inauguração de uma exposição de fotografia da Lumbudus em Alhariz, Galiza, o Alcaide de lá dizia-me que era pena a cidade de Chaves que até é interessante, ter o casario do centro histórico tão degradado. Era essa a imagem que ele tinha de Chaves.

 

Nós, os residentes aqui na terrinha, de tão habituados que estamos a passar diariamente pelas ruas do centro histórico, a grande maioria das vezes não nos apercebemos de que realmente grande parte do casario do nosso centro histórico está altamente degradado ou mesmo em ruinas, e assim continuará, agravando-se dia a dia, e será essa a imagem que levarão quem nos visita.

 

Vale a pena parar para pensar um bocadinho e fazer algumas questões:

- Desde quando é que o centro histórico se começou a degradar?

- Porquê razão ou razões ele chegou ao estado atual?

 

Da minha parte já fiz esse exercício várias vezes e chego sempre às mesmas respostas…

 

 

 

19
Jan16

3 - Chaves, era uma vez um comboio…

800-texas

 

NOSTALGIA

 

Já lá vão mais de sessenta anos. Mas a cena está-me tão presente como se fora hoje. Vejo o buliçoso e traquina Nona, sentado no banco de pedra da janela de casa, com os braços nela apoiados, olhando com aqueles olhos ávidos, cor de azeitona preta, para um ponto fixo do vasto horizonte de vinhedos à sua frente. Não era o mítico Marão, tão bem cantado por Teixeira de Pascoaes, e a sua Fraga protetora da Ermida, mesmo ali ao lado, que o fascinava. Nem tão pouco a beleza dos vinhedos, vestidos de mil cores, descendo em forma de barco até ao Douro. Seus olhos, penetrantes e insaciáveis, apenas se fixavam num único e só ponto longínquo do horizonte, onde os vinhedos acabam e o rio Douro passa, espraiando-se, apressado, em direção à foz. Era a Ponte do Granjão. Não que fosse uma bela obra de arte. Ou sequer uma obra imponente. A sua importância advinha simplesmente porque, sobre ela, passava algo que o fascinava. Que o fazia sonhar noutros mundos e lhe apelava a outras paragens. Nela passava o comboio. E como ele gostava de sentir, ao longe, o barulho que as rodas de ferro faziam sobre os carris; os apitos estridentes que dava quando por ela passava e o fumo que a chaminé da sua locomotiva expelia.

 

cp0003.jpgCP0003 – Locomotiva: CP E209, Data: Março de 1974, Local: Corgo, Portugal, Slide 35mm

 

Estava-se mesmo a ver que o rapaz, quando crescesse mais, não ficaria muito tempo por ali. Não que ele não gostasse da terra que o viu nascer. Muito pelo contrário, adorava-a. Era mesmo o seu paraíso do qual guarda as melhores recordações de uma infância feliz, embora muito curta.

 

Era, contudo, terra pequena de mais para o tamanho do seu sonho.

 

cp0021.jpgCP0021 – Locomotiva: CP E202, Data: Não datado, Local: Não identificado, Portugal, Slide 35mm

 

Aquele comboio, passando ali todos os dias e a diferentes horas, tornou-se-lhe um amigo. O seu amigo. Mas também uma obsessão. E o seu estridente apitar, quando passava sobre a ponte, entendia-o como a mágica de um chamamento, um vem comigo conhecer o mundo.

 

E um dia partiu mesmo.

 

Com ele, e nele, deu os primeiros passos da «descoberta». Do contacto com o outro. Do partilhar de vidas. Do conhecer as diferenças. Foi, assim, a partir da luz que aquele ponto no horizonte lhe inculcou na mente que Nona se transformou no homem que hoje é: homem do mundo, mas com um enorme apego ao rincão donde partiu.

 

cp0010.jpg

CP0010 – Locomotiva: CP E209, Data: 23 de Março de 1974, Local: Chaves, Portugal, Slide 35mm

 

É por isso que, quando em presença de uma máquina a vapor, idêntica aquelas que passavam na ponte da sua infância, em Nona se lhe despertam todas as memórias, de partidas e chegadas. De todos os momentos da sua vida.

 

Por elas evoca, principalmente, um Portugal que já não somos - comunitário e rural; interior e lutador, solidário, castiçamente ibérico e sonhador.

 

As últimas travessas arrancadas das linhas que o cerziam fizeram-no infinitamente mais pequeno. Hoje somos simplesmente, e apenas, uma pequeníssima e estreita faixa debruada sobre o oceano. E temos medo de nele entrar e encetar nova empresa de um novo «navegar». Tiraram-nos a alma. A nossa verdadeira alma - a do cavador que sempre fomos.

 

cp0005.jpg

 CP0005 – Locomotiva: CP E209, Data: Não datado, Local: Régua, Portugal, Slide 35mm

 

Sem terra e sem mar, ficámos mais pobres. Estamos pobres. Uma pobreza que está não apenas naquilo que não temos. Essencialmente naquilo que já não somos. E deveríamos ser.

 

Urje, pois, que nos encontremos. Talvez em qualquer travessa perdida da linha que já não temos. E que nos indique um rumo. Um novo caminho.

António de Souza e Silva

 

 

In “Memórias de uma Linha – Linha do Corgo – Chaves”, Agosto de 2014

Edição Lumbudus – Associação de Fotografia e Gravura

 

Fotografias – Propriedade e direitos de autor de Humberto Ferreira (http:outeiroseco-aqi.blogs.sapo.pt)

Gentilmente cedidas para publicação neste post.

 

 

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