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CHAVES

Olhares sobre o "Reino Maravilhoso"

05
Fev16

Discursos sobre a cidade - Por António de Souza e Silva

SOUZA

 

ENTRE PÓ E CINZAS

DA GRANDEZA À MISÉRIA DE UM PORTUGAL EM RUÍNAS

 

I

 

Do conceito que temos cidadania, consideramos que cada português (e, consequentemente, cada flaviense), de acordo com as suas competências e apetências, tem o dever, a estrita obrigação cívica, de refletir e alertar, como ser social que é - e de tudo fazer -, para avivar e aprofundar, o mais democraticamente possível, o nosso viver coletivo. Em ordem não só a uma maior igualdade e equidade social, mas também para que essa igualdade e equidade se faça tendo em vista o desenvolvimento integral e harmonioso do território em que nos é dado viver. No respeito pela História e pela nossa memória coletiva. Pondo-a ao serviço das diferentes comunidades, das mulheres e homens que delas fazem parte.

 

II

 

Aqui há dias, numa sala de espera de um hospital privado, observo, no écran de um televisor, a seguinte frase: “Estamos no Norte, no Centro e no Sul do país”. Atentos ao mapa que nos era apresentado, víamos, positivamente, três pequenas manchas: a da área metropolitana do Porto; a da área metropolitana de Lisboa e o Algarve. Era uma infinidade de especialidades médicas e cirúrgicas ao dispor do utente. De uma instituição que apenas conhece simplesmente três pequenas franjas do país, apenas e tão só, situadas no litoral do pequeno retângulo que é o nosso Portugal. Tudo o resto é espaço vazio, desértico, não-lugar.

 

Naturalmente não culpamos estas instituições pela escolha dos lugares onde prestam os seus serviços especializados. Elas, tão-somente, na prossecução da maximização dos seus lucros, seguem a cega lei do dito mercado, instalando-se onde a procura é maior e onde os recursos especializados lhes estão mais acessíveis, à mão.

 

O que, a propósito deste caso - como, de resto, muitos outros que poderíamos elencar -, pretendermos, é questionar e dar ênfase quanto ao modelo de desenvolvimento que, principalmente, desde o Liberalismo e a Revolução Industrial, reiteradamente temos vindo a implementar.

 

De um país que desde o medievo nasceu, cresceu e se fez grande até à era de 500; que viveu do fausto das suas conquistas; que se embriagou pelos seus feitos, de lá para cá, o que fez em capital acumulado (e não esbanjado) em prole de uma maior riqueza e desenvolvimento do seu povo e das suas gentes?

 

Pelo contrário, de lá para cá, outra coisa não temos vindo a assistir, sistematicamente, senão ao cotejo (precisemos mais, cortejo) das nossas misérias, quando deixamos partir a fina seiva dos nossos melhores ativos à procura de uma pátria outra que melhor cuide deles!...

 

A elite que gere este náufrago, que somos todos nós que por cá ficamos, vivendo das prebendas das instituições que controlam, e que criaram, com o nosso suor e as nossas lágrimas, transformadas em impostos, e vivendo opiparamente à beira mar plantada, esqueceu-se, de norte a sul, do Portugal interior, que também somos todos nós, não se importando que esta (s) ruína (s) - pessoas e património - que entretanto vão perecendo, se transformem em pó e cinzas.

 

III

 

Vítor Serrão, no prefácio do pequeno livro Portugal em ruínas, de Gastão de Brito e Silva, a certa altura, refere: “O conceito de «ruína» assume aqui uma linguagem pesada e culposa [...] na constatação de que pouco ou nada se fez para evitar a desonra e a indignidade. Estes destroços de casas rústicas e solares, igrejas, fábricas, hospitais ou fortalezas, que se multiplicam na paisagem construtiva do país de norte a sul, formatam uma parte da nossa História recente, como se, apesar das boas leis da salvaguarda que existem, apesar da competência dos técnicos e dos profissionais do setor, apesar da riqueza das doutrinas e - mais do que tudo - apesar da extraordinária riqueza patrimonial de um país que, a esse nível, parece inesgotável de recursos, andássemos divorciados do que à nossa volta se passa, distraídos perante o abandono escandaloso que grassa nos nossos sítios de memória e cúmplices silenciosos dos atos especulativos que são crime de lesa-majestade.

 

As ruínas, com o acúmulo do tempo de abandono, deixam de ser recuperáveis e passam a ser «não-lugares sem memórias». Para muitos, tais não-lugares passam a não ter sentido e a ser desnecessários, o que legitima o ato destruidor como condenação inevitável [...] Quando o sociólogo (e fotógrafo) António Barreto avisa sobre a possibilidade de Portugal deixar de existir como país, tal como o conhecemos, justamente porque se perdeu este olhar de consciência estética (e ética) através da qual nos relacionamos como o nosso quotidiano de referências, o alerta está dado para os múltiplos perigos que decorrem deste depauperamento auto suicidário sem sentido - que urge saber enfrentar.

 

Será imperioso não esquecermos, portanto, que é no âmbito do «saber ver em globalidade» que tudo se inicia e que a consciência da salvaguarda dos patrimónios se reforça sem preconceitos excludentes - vistos não mais como a «parcela morta» no campo da Cultura [...] mas como algo que importa preservar, nem que seja pelo registo cripto-artístico, quando a recuperação se torna já impossível.

 

Trata-se, em suma, de parcelas de um «corpo único, coerente e vivo», tão importantes quanto os grandes monumentos do tecido patrimonial reconhecível, e que por isso impõem respeito, desvelo de olhares, estudo integrado, inventariação rigorosa e cuidados preventivos inadiáveis” (Janeiro de 2014).

 

IV

 

Somos pouco dado a elogios pessoais. É, contudo, justo que abramos aqui uma exceção.

 

Temos verificado e constatado, ao longo destes 11 anos de existência do blogue CHAVES, do nosso amigo Fernando DC Ribeiro, todo o carinho e empenho que o autor põe no registo do acervo fotográfico, como arte, transformado em documentário-memória, do nosso património construído, rural e urbano (do Alto Tâmega e Barroso e, especialmente, o do concelho de Chaves). Grande parte dele é hoje já, manifestamente, ruínas. Em pouco tempo, se nada fizermos, nada restará senão pó e cinza.

 

Não está apenas na nossa mão inverter esta tendência global que crassa pelo país fora em termos da delapidação daquilo que nos verdadeiramente identifica - a nossa memória histórica e coletiva.

 

Mas, certamente, está nas mãos de todos os flavienses refletirmos sobre o nosso meio urbano e, principalmente, o meio rural. Para decidirmos o que nele perspetivamos em termos de futuro. Cuidando do património que estamos a deixar cair em ruínas. Respeitando a memória do seu tempo. Inventando novas valências, pondo-as ao serviço do tempo presente e do futuro.

 

Deixarmo-nos cair na apatia e na indiferença é desinteressarmo-nos pela nossa própria identidade. É apressarmos a nossa «morte» como flavienses orgulhosos que devemos ser da nossa terra e da grandeza da nossa história.

 

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 (Outeiro Seco - Solar dos Montalvões)

 

António de Souza e Silva

 

 

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