6 - Chaves, era uma vez um comboio…

O NOSSO CAMBOIO
O ramal de caminho-de-ferro do Corgo/Tâmega ligava a cidade de Trajano ao Peso da Régua, onde encontrava a linha do Douro.
A 25 de Maio de 1905, foi inaugurado o troço entre a Régua e Vila Real.
A 15 de Julho de 1907, o comboio já chegava às Pedras Salgadas.
A 20 de Março de 1910 a Vidago. Quedou-se por ali alguns anos, devido à indecisão quanto à margem do Tâmega que seguiria até Chaves e também pelas dificuldades da intervenção lusa na Grande Guerra.
A 20 de Junho de 1919, atravessou o Tâmega para a sua margem direita e chegou a Curalha.
A 21 de Agosto do 1921, o comboio estava em Chaves.
A ligação por via-férrea à Invicta, estava, finalmente, conseguida. Num tempo em que as estradas eram caminhos de cabras e os veículos automóveis estavam na alvorada, o comboio representava um progresso extraordinário. O Vale do Tâmega parecia livrar-se, por fim, do ostracismo a que esteve votado séculos, quer pelo isolamento a que o Marão, o Alvão, o Barroso e o Gerês o sujeitavam, quer pelo desprezo dos de Lisboa que, mesmo hoje, continuam a riscá-lo do mapa. Por isso, a obra era motivo de grande orgulho e de muita admiração.
Ninguém descia à Veiga que não visitasse a estação para ver o camboio.
Era um meio de transporte fantástico. Rapidíssimo! Tanto assim que não chegava a gastar quatro horas para percorrer os noventa quilómetros que separam Chaves da Régua! Esbaforido, galgava encostas e vales como as cabras as penedias e trazia novidades da cidade grande. Também levava esperanças da pequena.
Quem viajasse em primeira classe, dava-se à mordomia de bancos estofados. Os da segunda sentavam-se nos de madeira, e os da terceira viajavam de pé como o gado, entre os coelhos, as galinhas e as hortaliças que se vendiam pelos mercados. O Texas, como lhe chamavam, transportava muita gente. Eu próprio viajei inúmeras vezes. Recordo, com nostalgia, as viagens que fazia, nos dias de verão, para a piscina do Palace Hotel de Vidago. De regresso, enquanto o comboio, estafado pelos socalcos do Corgo, contornava as colinas do Tâmega, ia-se às uvas e caçava-se adiante.
CP0059 - Locomotiva: CP E202, Data: 1969, Local: Vidago, Portugal, Slide 35mm
Quem viajasse armado em tirone, calça clara ou camisinha branca, ou em flausina, vestidinho níveo, chegava ao fim da viagem careto! O fumo do carvão de pedra era tão espesso, que sujava tudo. Mesmo com as ventanas fechadas entranhava-se até aos ossos.
Mas mais do que pessoas e bens, o comboio transportava os sonhos e as fantasias dos flavienses. Para muitos representava até o passaporte, a oportunidade, para um mundo outro!
Corriam os anos trinta e o Ti Morgado de Fornelos, homem de grande lavoura, tinha muita família no Porto. Ora, o comboio, mesmo a dezassete quilómetros, representava uma mais-valia, não só para a deslocação da gente, mas também para o negócio da batata de semente que chegava mais fresca ao húmus da Póvoa de Varzim. Possibilitava, ainda, fazer chegar à família tripeira os mimos do Planalto. Na volta trazia as novidades da civilização. Além do mais, permitia encontros amiudados entre os membros da família. Aos criados da casa estava incumbida a missão de fazer a ponte entre a estação e a casa de Fornelos. Era mais fácil e proveitoso do que ir ao Vidago. Andavam sempre aspadinhos por este trabalho, pois representava uma raríssima ocasião de irem à cidade, mas, sobretudo, de verem o camboio.
O Manuel Soqueiro, artista a talhar socos em pau de amieiro, foi criado na casa do Morgado, até contrair matrimónio e botar lavoura própria. Contudo, sempre que fosse preciso, estava às ordens e não se fazia rogado às ajudas mais pesadas.
Corria o mês do arranque da batata – o ouro do Planalto – e não havia braço que se livrasse desta safra. Ao mesmo tempo, acabavam as férias dos velhotes do Porto que vinham ao Brunheiro tomar ares. Não tardava o inverno, insuportável para os da beira-mar. Por isso, era preciso levá-los ao comboio. Não havendo criado disponível, recorreu-se ao Soqueiro.
Na madrugada de um derradeiro sábado de setembro, ainda o sol não espreitava dos lados da Terra Quente e já os bois galegos estavam pensados, jungidos e atrelados ao carro, amparados pelos ladranhos e apertados aos estadulhos, montaram-se dois bancos corridos sobre a mesa do carro, para maior conforto dos viajantes.
Toca para a cidade, rilhando o macadame da nacional 314!
CP0102 - Locomotiva: CP E206, Data: 1973, Local: Vila Pouca de Aguiar, Portugal, Slide 35mm
O Manuel era pai da Rita Soqueira, uma catraia abonada de carnes, nas suas doze primaveras. Porém, Rita era grossa como a casca das carvalhas da touça fronteira ao pardieiro em que sobreviviam. E não admirava, pois só conhecia mundo até onde a vista alcançava! Santa Leocádia, a quilómetro e meio de Fornelos, onde ouvia a missa de domingo, era o sítio mais longínquo que já tinha percorrido. Por isso, era uma boa oportunidade de lhe desvirginar os horizontes, levando-a à fim do mundo, a cidade de Chaves.
Chegaram à estação por volta do meio-dia. Como o comboio só partia à uma, ainda havia tempo para a merenda e para uma visita guiada. O pai, na companhia do velho Lopes, não perdeu a oportunidade de mostrar o camboio à sua piquena, explicando-lhe, com a erudição planáltica, os mais ínfimos pormenores:
– Olha, Rita, esta casa grande de prepianho é a estação do camboio. Aquela mais piquena o mijatório! Do oitro lado são os almazéns das mercadorias. É aqui, na gare, que a gente embarca e lá drento da estação despacham-se as encomendas p'ró Porto e tiram-se os bilhetes. Bês estas linhas de ferro no tchão em cima das bigas de madeira? São os carriles, a estrada por onde o camboio anda. Aquela casinhota que está lá na frente a botar fumo é a lacomotiba que putxa estas gaiolinhas que são as carruaijes. As que têm jinelas são para a gente, as fitchadas para as encomendas e para os animais. Aqueles homes do boné engatam as gaiolas umas nas oitras, com umas correntes e formam o camboio. Ódespois a mánica apita, arrenca e puxa o camboio, mas só quando o chefe da estação dá orde de partida com um assobio. A mánica tem lá drento um fogão de lenha como o de casa do senhor Morgado, mas muito maior! Atão o maquenista atafulha-o de carbão-de-pedra, risca um palhito e bota-le o fogo. O carbão alabareia-se e aquece duas ou três pipas de áuga que a lacomotiba tem no butcho. A água ferbe e o bapôr faz andar as rodas do camboio, como os potes na lareira alebantam os testos, nos dias das segadas, quando ferbem!
A rapariguita estava banzada! A boca escancarava-se-lhe de espanto e os olhos de emoção! A realidade era ainda mais estranha, fascinante e maravilhosa, do que as histórias dos comboios que lera nos livros da escola de Adães!
Prometera a si mesma que em casando havia de andar de camboio! - De facto veio a consegui-lo, como emigrante para a França!
CP0149 - Locomotiva: CP E54, Data: 1970, Local: Não identificado, Portugal, Slide 35mm
A emoção era de tal ordem que a sua cabeça rodopiava de ideias e de dúvidas:
– Ó pai e quando o camboio arrenca a estação vai atrás dele?!..
O pai não lhe respondeu, não sei se por não saber a resposta, se por o chefe da estação ter dado ordem de partida:
– Fiiiiiiiiiiiiii-uíííííííííííííííí-iiiiiiiiiiiiiiiiiiiii…
O comboio abriu as goelas, botou duas golfadas de fumo negro, espirrou vapor pelas partes e arrancou para a Régua.
– Pouca…….-…….terra; pouca….-……terra; pouca…-…terra; pouca..-..terra; pouca-terra; pouca-terra; pouca-terra; pouca-terra; pouca-terra!....................................
A Rita não aguentou, não sei se do medo se da emoção! Fugiu, espavorida, para o largo da estação! Porém, ainda ouviu o comboio a apitar, roufenho, na passagem de nível do Asilo, junto à casa do Mija na Garrafa!
– Huiiiiiiiiiiiiiiii……..Huiiiiiiiii……..Huiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii!..
Em Janeiro de 1990, o ramal do Tâmega foi encerrado.
Infelizmente quem manda anda cego! Não percebeu que o prejuízo da supressão será no futuro, que já é hoje, pesadíssimo, para quem anda a ser sistematicamente espoliado!
É mais um esbulho que, a juntar a tantos outros, faz dos transmontanos portugueses de terceira.
Gil Santos
In “Memórias de uma Linha – Linha do Corgo – Chaves”, Agosto de 2014
Edição Lumbudus – Associação de Fotografia e Gravura
Fotografias – Propriedade e direitos de autor de Humberto Ferreira (http:outeiroseco-aqi.blogs.sapo.pt)
Gentilmente cedidas para publicação neste post.





