Chaves, Rua de Santa Maria

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Carvalhelhos, Barroso, 18 de Junho de 1956
Tarde de pesca, mas só a ver. Não sou homem de anzóis. Seja qual for o sonho que me apeteça prender, luto com eles de caras, sem isca. Entro nos matagais aos tiros, a avisar as perdizes que lá vai metralha. Agora que deve ser cómodo atirar um engodo fingindo à realidade e puxá-la depois até nós com a manivela da astúcia, deve. Enche-se o cabaz, e volta-se para casa fresco como uma alface, mesmo que se tenha chafurdado o dia inteiro – ou a vida inteira…- num baixio de águas turvas…
Miguel Torga, in Diário VIII

Carvalhelhos, Barroso, 21 de Junho de 1956
PASTOREIO
Uma cabra montesa no pascigo;
Fiel ao seu balido,
Um fauno apaixonado;
Entre os dois, um açude adormecido,
Imagem do instinto represado.
Corcunda como a vida,
Uma ponte arqueada de suspiros
A ligar as arribas do desejo;
E um guarda ao passadiço, uma presença humana,
- O pastor, a moral quotidiana…
Miguel Torga, in Diário VIII

Carvalhelhos, Barroso, 23 de Junho de 1956
Confesso a minha pena: tenho medo de trovoadas. Quando o rosto da natureza se começa a congestionar, começo eu a empalidecer. É que não tenho defesa. Contra o ódio dos homens, nunca o instinto se sente inteiramente desamparado: há sempre outros homens, limpos de alma, capazes de nos acudir. Mas diante da violência obtusa e cega dos elementos, parece que o mundo se despovoa, esvazia, e tudo à nossa volta se rende, abdica e acobarda. No auge da aflição – e isso aconteceu-me há pouco, no alto da serra -, chega-se a gente a um castanheiro, vegetalmente hercúleo e oficialmente acéfalo, e o desgraçado treme como nós!
Miguel Torga, in Diário VIII
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