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CHAVES

Olhares sobre o "Reino Maravilhoso"

25
Mar16

Discursos Sobre a Cidade - Por Gil Santos

GIL

 

O DESPORTIVO EM VIZELA

EU ESTIVE LÁ!

 

II DIVISÃO, ZONA NORTE - ÉPOCA 1983/84

 

O campeonato nacional de futebol da II divisão, na longínqua época de 1983/84, era constituído por 16 equipes, em cada uma das três Zonas: a Norte a Centro e a Sul.

 

Após um total de 30 jornadas, subiam diretamente à I Divisão as três primeiras classificadas de cada Zona. As segundas disputavam, entre si, uma liguilha, juntamente com a 13ª classificada da I divisão. A primeira classificada da liguilha, ocuparia o 4º lugar da subida.

 

Nesta época, a Zona Norte, era constituída pelo Vizela, Chaves, Leixões, Sanjoanense, Paços de Ferreira, Famalicão, Fafe, Feirense, Gil Vicente, Lixa, Valonguense, Tirsense, Riopele, Valdevez, Académico de Viseu e o São Martinho.

 

No final do campeonato, o Vizela foi primeiro classificado com 42 pontos e o Chaves 2º com 39. Desceram à III divisão, o Riopele com 28 pontos, o Valdevez com 27, o Académico de Viseu com 20 pontos e o S. Martinho, último, com apenas 18 pontos. Na Zona Centro foi primeiro a Académica de Coimbra com 45 pontos e segundo o Peniche com 40. Na Sul subiu, diretamente, o Belenenses com 44 pontos e foi segundo o Marítimo com 38.

 

Na liguilha, após um total de 6 jornadas, o Penafiel, primodivisionário na linha de água, (desceram, diretamente, à II divisão, nesse ano, o Estoril Praia, o Águeda e o Espinho) terminaria em primeiro lugar com 9 pontos, o que permitiu que se mantivesse na divisão maior. Em segundo lugar ficaria o Peniche com 7 pontos, em terceiro o Marítimo também com 7 pontos e em último lugar o Desportivo de Chaves com 1 ponto apenas, conseguido num empate, em casa, frente ao Marítimo, encaixando 5 derrotas, marcando 5 golos e sofrido 16.

 

Os resultados do Desportivo, na liguilha, foram os seguintes:

 

Peniche 3 – gdc 0;

gdc 1 – Penafiel 2;

Marítimo 3 – gdc 2;

gdc 1 – Marítimo 1

Penafiel 3 – gdc 0

gdc 1 – Peniche 4

 

Sob a batuta de Álvaro Carolino que substituiu, à 16ª jornada, Mário Morais, o plantel do Desportivo era constituído por 23 jogadores, (3 brasileiros e 1 marroquino) a saber:

 

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 Álvaro Carolino

 

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Presidia à direção do clube o Senhor Emílio Macedo e Sousa.

 

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No Jornal A Bola de 3 de setembro de 1983, semanas antes do início do campeonato da II divisão, foi dedicada uma página inteira à aposta do Desportivo na subida de divisão. Sob o título “Chaves que sair do «casulo» apostando forte na subida à I Divisão”, faz-se uma referência ao “sensacional terreno relvado (o melhor de Portugal?)”, bem como aos 8 reforços que acabavam de chegar para atacar a subida, 3 vindos da I divisão. A ambição do treinador contratado, Abílio Alves Moreira (20 anos como guarda-redes do Famalicão) de chegar ao campeonato maior, era enorme. Na época passada tinha-se falhado a liguilha, para o Vizela, por um ponto apenas. O clube queria conseguir o que nunca havia conseguido. Chaves, através do futebol, queria dar a sua quota-parte para romper com o ostracismo a que a região estava votada. Mais do que um clube da cidade, Emílio queria que o Desportivo fosse uma bandeira da região transmontana e que levasse o nome da terra por esse mundo além. Em consonância absoluta entre o sonho dos dirigentes e a ambição dos atletas e da equipa técnica, construiu-se uma equipe sólida e equilibrada, capaz de uma subida sem grandes sobressaltos. Contudo, a concorrência era poderosa, sobretudo por parte do Famalicão, da Sanjoanense e do Paços de Ferreira que se apetrecharam fortemente.

 

Um dos reforços, de peso, do Desportivo, era o Raúl Águas que, aos 34 anos de idade, deixava o Portimonense para vir jogar, em fim de carreira, para Trás-os-Montes. Gorado o objetivo da subida nesta época, Raúl haveria de ser o timoneiro da subida na próxima, primeiro como jogador e depois como treinador.

 

Na perspetiva de Emílio Macedo, havia um filão importante a explorar para sustentar o Desportivo na I divisão. Tratava-se da possibilidade de atrair os galegos qua podiam ver futebol de primeira a escassos quilómetros, quando no seu país o tinham a centenas. Resultou muito bem e o Chaves chegou a ter um número apreciável de sócios galegos, para além de muitos jogadores de qualidade, nas épocas seguintes, provindos do país de nuestros hermanos.

 

A caminho dos seis anos como presidente foi inquirido sobre a situação financeira do clube. Declarou haver estabilidade e capacidade de se cumprirem os compromissos sem aflições. Pese embora a receita das quotizações dos 2000 sócios, gerar apenas cerca de 6000 contos e, portanto, ser insuficiente para o investimento feito, havia a possibilidade de gerar outras receitas para fazer face às necessidades em crescendo. Afirmava que só no pretérito mês de agosto (1983) havia sido conseguida uma receita extraordinária líquida de 4000 contos, apesar de se terem pago 300 contos ao Sporting Club de Portugal, 400 ao SK de Viena e ao Internacional de Porto Alegre, 200 ao Boavista e 100 ao União da Madeira pelas suas deslocações a Chaves para jogos particulares.

 

Realçando o crédito que o Desportivo merecia no contexto do futebol nacional, por cumprir os seus compromissos atempadamente não ficando a dever nada a ninguém, o presidente declarava haver estruturas capazes de justificar a subida de divisão e a manutenção do clube entre os maiores do nosso futebol.

 

O campeonato na época de 1983/84 teve início em 18 de setembro, com o Chaves a fazer jus ao seu estatuto de favorito. No entanto, contrariamente ao que se desenhava no início da época, o seu principal rival principal viria a ser o Vizela, um clube relativamente humilde, que há poucos anos ainda militava na III divisão nacional. Sublinhe-se, no entanto, que este clube disputou a liguilha para a subida à I divisão na época de 1982/83, não tendo alcançado o desiderato da promoção.

 

O plantel do Vizela, era basicamente o da época anterior, tendo sido reforçado com dois ou três elementos. Tendo sido capazes de ir à liguilha na época anterior, os vizelenses acreditavam que seriam capazes, nesta, de subir sem grandes dificuldades. Treinados por uma velha raposa do futebol, Nelo Barros, o plantel do Vizela era constituído por 20 jogadores, a saber:

 

 

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A época, constituída por 30 jornadas, desenrolou-se com o Chaves e o Vizela a partilharem os lugares cimeiros da tabela. Os resultados nesta época, destas duas equipes, foram os seguintes:

 

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A 12ª jornada, programada para o dia 18 de dezembro de 1983, previa um jogo de extrema importância para as pretensões das duas equipas. O Vizela visitava o reduto do seu rival Desportivo de Chaves. Contudo, neste dia, o jogo não pôde ser realizado, uma vez que o árbitro, Silva Pereira do Porto, declarou não ser possível vislumbrar as marcações, por o terreno de jogo se encontrar completamente alagado, fruto da fortíssima bátega de água que se abateu sobre a cidade. Os vizelenses não gostaram da decisão e acusaram os da casa de terem entupido, propositadamente, os escoadouros da água, para que o campo se inundasse e assim tirassem vantagem do efeito psicológico negativo de uma nova deslocação do Vizela a Chaves. Logo ali se verificaram alguns desacatos, embora sem grande importância. Mas, os visitantes prometeram vingança na deslocação a terras do Minho!

 

O jogo haveria de ser realizado no dia 29 de janeiro no Municipal de Chaves, com uma assistência, segundo o Record, de 15000 pessoas. O Desportivo, a cinco pontos do Vizela, levou-o de vencida pela margem mínima. O desafio foi apitado por Fernando Alberto do Porto. Aos 29 minutos, Raúl Águas, a passe de Cândido, abriu o ativo para gáudio dos da casa. O jogador, na zona frontal da área, atirou à meia volta, marcando no canto superior esquerdo da baliza de Sérgio sem qualquer hipótese de defesa. A vitória parece ter pecado por escassa, pois a equipa do Chaves realizou uma excelente exibição e segundo o Record foi muito superior ao seu adversário. O desfio, nas declarações do treinador visitante, decorreu de forma correta, dizendo, mesmo, que havia vencido a equipa mais feliz. Álvaro Carolino, classificou o jogo de difícil e viril, disputado com correção e arreganho. Ganhou, por isso, a equipa que fez mais por isso. Este desfecho foi importante, permitindo a aproximação ao Vizela na tabela classificativa.

 

 

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A segunda volta do campeonato foi disputada taco a taco por estas duas equipes, como se pode verificar.

 

 

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 Na 26ª jornada, quando Vizela e Chaves se encontravam no primeiro e segundo lugar respetivamente, separados por apenas 2 pontos (Vizela 34 e Chaves 32), o Desportivo recebeu o Feirense que venceu sem grande dificuldade por dois a zero. O Vizela foi perder pela margem mínima ao terreno da Sanjoanense, o que permitiu que as equipes se igualassem em pontos (34) no primeiro lugar, precisamente na véspera da deslocação do Desportivo a Vizela.

 

Se já não bastasse o adiamento do jogo da primeira volta, a derrota do Vizela em Chaves e a igualdade de pontos que se verificaria aquando da deslocação do Chaves a Vizela, este jogo do Vizela em São João da Madeira, veio acender ainda mais o encontro dessa 27º jornada, porque a agremiação vizelense acusou, entre dentes, o Desportivo, pela sua derrota frente à Sanjoanense. Assim se conta:

 

O jogo do Vizela em São João da Madeira teve lugar a 15 de abril, dia em que os árbitros estavam em greve. Marcado para o estádio Conde Dias Garcia, o encontro era aguardado com enorme expetativa, uma vez que o campeonato se aproximava do fim. À hora do jogo (16:00h) não havia árbitro para o apitar. Foi então recrutado uma pessoa na bancada como era habitual nestes casos. Quatro candidatos se perfilaram. As direções dos dois clubes reuniram com o representante da Federação e escolheram o candidato mais velho. Foi selecionado Columbano Pinho, um árbitro da Regional de Aveiro. Columbano, com 42 anos, residia na Arrifana e era metalúrgico de profissão. O Vizela teve de concordar com a escolha, sob pena de perder o jogo que se iniciou com 20 minutos de atraso. A turma da casa mostrou forte pendor ofensivo e o Vizela defendia-se como podia. Albertino, jogador-treinador da Sanjoanense, apostava na capacidade de Sanhá, um dos melhores marcadores do campeonato, para ganhar o jogo, o que viria a acontecer. Berto, defesa esquerdo do Vizela, de que mais tarde falaremos, foi amarelado aos 34 minutos, numa cena caricata: o árbitro tirou o cartão das meias para lho exibir. Isto dava nota da primeira atitude pitoresca do juiz árbitro. “A Sanjoanense atacava sem castigar e o Vizela defendia sem ameaçar”, assim escrevia um jornal da época. Os cantos sucediam-se a favor dos de São João da Madeira e eis quando aos 50 minutos, Sanhá, saltando a uma bola dentro da área, sem oposição, com Berto ligeiramente atrás e sem lhe tocar, caiu desamparado. O árbitro tomou as culpas ao defesa esquerdo do Vizela e apitou penalty. O caldo entornou-se! Os de Vizela protestaram e o treinador Nelo Barros viu, inclusivamente, a cartolina amarela. Sanhá não falhou. Os vizelenses perderam a cabeça com este roubo de igreja e falaram, pela boca do seu treinador, em resultado cozinhado!

 

Aliás, nas declarações prestadas ao Jornal Record no final do jogo contra o Chaves, no domingo seguinte, o treinador do Vizela, Nelo Barros, disse, em resposta a Carolino, que:

 

(…) “confirmo que há resultados préfabricados e aponto os encontros Sanjoanense-Vizela, no qual a minha equipa foi derrotada com uma grande penalidade inexistente e o Chaves-Feirense que tive ocasião de presenciar, no qual o árbitro foi tendencialmente caseiro”

 

Estavam lançados os dados para um grande desafio em Vizela, na jornada seguinte. Em igualdade de pontos, Chaves e Vizela, haviam de se enfrentar no dia 22 de abril, na 27ª jornada no estádio Agostinho Lima, perante uma enchente nunca antes vista. Um jogo que teve um final muito triste!

 

Sob o juízo de um conceituado árbitro de Lisboa, Vitor Correia, o Perna-de-Pau, como lhe chamou mais tarde Raúl Águas, o Vizela alinhou com Sérgio na baliza, Toni, Roque, Miguel e Berto na defesa, Perrichon, Faria, Costeado e Baltasar na linha média e na avançada com Pita e Maurício. O Desportivo de Chaves com Cancelinha, na baliza, Duque, Alfredo, José Augusto e Pio, na defesa, Diamantino, Jeovah, Raúl Águas e Paulo Rocha no meio campo e Cândido e Vitor Manuel na linha da frente.

 

Com o estádio (!) completamente lotado (5000 pessoas segundo o Record) e a superior a abarrotar com os flavienses em grande número e as claques das duas equipes juntas, o jogo decorreu sem incidentes, na primeira parte, num pelado de péssima qualidade para a prática do futebol. O Desportivo de Chaves, habituado a jogar no seu relvado que, à época, era um tapete verde de grande qualidade, via-se em palpos-de-aranha para explanar o seu bom futebol. O nervosismo das duas equipas era patente pela rivalidade, pelos acontecimentos da época e pela importância do jogo em si, a somente três jornadas do fim. Segundo o Record, o Vizela acusava nervosismo exagerado, pois o jogo podia decidir a subida. O futebol praticado pelo Desportivo, na primeira parte, ainda foi o menos mau. Os flavienses, mais serenos, pareciam estar a controlar o desafio, tirando bom partido da precipitação dos locais. Dizia-se, no mesmo periódico, que o Chaves não foi a Vizela defender! Contudo, a primeira parte acabou com o placard em branco. Berto, defesa esquerdo o Vizela viu um cartão amarelo aos 42 minutos por entrada dura sobre Paulo Rocha.

 

Aos 53 minutos, Pita tocou para Perrichon que meteu em Maurício, para este, com um toque subtil, ludibriar Canceleinha que nada pôde fazer. Estava feito o resultado final. O estádio parecia vir abaixo com os festejos dos da casa. Contudo, o Chaves não se encolheu e foi à procura do prejuízo. Carolino que já tinha trocado Manuel Soares por Duque aos 56 minutos, substituiu Alfredo por Quim aos 73. O Vizela passava, então, por enormes dificuldades para segurar o caudal ofensivo dos visitantes. O Desportivo pressionava e o empate adivinhava-se prestes.

 

“Ninguém acertava com a marcação, tal era a velocidade e a versatilidade impostas pelos flavienses desesperados, à procura da igualdade, que lhes poderia abrir rasgadas perspetivas no tocante à subida à I Divisão.”

 

Assim escrevia A Bola do dia seguinte. Mas este periódico dizia mais:

 

“Os dois laterais [do Vizela] Toni e Berto, não saiam para alimentar o ataque, porque, do outro lado, Paulo Rocha, na direita e Vitor Manuel, na esquerda, faziam perfeita cobertura aos referidos jogadores, não lhes permitindo quaisquer veleidades.”

 

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Aos 76 minutos o rastilho foi aceso, quando, a remate de Cândido, na área do Vizela, a bola embateu na mão de Miguel. O árbitro fez vista grossa e nada assinalou. A «bomba» estoirou aos 78 minutos como se estava a adivinhar que acontecesse. Houve um lançamento de linha lateral, feito por um jogador do Chaves. A bola foi para a área vizelense. Alguém aliviou defeituosamente e Manuel Soares marcou um golo limpo ao guarda-redes Sérgio. Vitor Correia correu para o meio campo para sancionar o tento. Contudo, perante o espanto geral, os jogadores do Vizela correram para o fiscal de linha do lado da bancada central, cercaram-no em grande confusão e um deles levantou-lhe o braço, forçando-o a exibição a bandeirola. O árbitro, temendo o pior, a adivinhar pelos protestos dos da casa, invalidou o golo do empate e expulsou Paulo Rocha por protestos. Na bancada superior estourou uma batalha campal à antiga. O título do jornal Record não deixou qualquer dúvida:

 

“Sangue nas bancadas no «Carnaval» vizelense”.

 

Eu assisti a este jogo nessa bancada, com o meu falecido pai, o meu sogro e alguns amigos. Tinha 27 anos e lembro-me bem do cagaço que apanhámos. Cuidámos não sair de lá vivos. A porta, estreita, para uma viela, não dava vazão a quem queria fugir e o remédio era assistir à batalha e esperar que nada sobrasse para nós. Vi coisas horríveis, mas sublinho um adepto fanático com uma garrafa de champanhe partida a retraçar as costas de quem podia. Aquilo era a torto e a direito! Vi outro que largando o bombo em que tocava, usou a moca de madeira para esmoucar quem pudesse. Do exterior do estádio voavam paralelos para dento e era onde caíssem!

 

Foi um sufoco!

 

Os feridos que não podiam ser evacuados pela porta da superior, eram passados, em maca, por cima do arame farpado da vedação e os bombeiros atravessavam o campo para os socorrer. Tudo isto se passava perante uma atitude absolutamente passiva da GNR que deveria assegurar a ordem e não o fez. A este propósito a Bola afirma que:

 

“A GNR ali bem perto, assiste a todo um desbobinar de cenas brutais, sem mexer «uma palheira». O próprio comandante da força, a passear de um lado para o outro, foi, por diversas vezes, «agredido», verbalmente, por alguns jogadores flavienses, acabando por serem afastados, mais tarde, pelo técnico Carolino (…) Pinto Beja [o liner do lado da bancada central] alega que ficou com a bandeirinha no ar, o que não vimos e, se o tivesse feito, o árbitro, bem de frente para ele, teria naturalmente visto. E não viu, como afirmou no final do encontro.”

 

O jogo esteve interrompido mais de 10 minutos. Muitos feridos havia na bancada superior de parte a parte mas, oficialmente, só houve registo de quatro que se deslocaram ao hospital de Guimarães para tratamento. Ironicamente, num jornal que não conseguimos identificar, podia ler-se no dia seguinte que:

 

“As cenas de violência no campo do Vizela tiveram início a cerca de 20 minutos do termo da partida, quando os adeptos do Chaves, descontentes com o resultado tentaram invadir o campo perante a oposição firme dos espetadores vizelenses (!)”

 

Vitor Correia declarou ao Primeiro de Janeiro que:

 

“Considero que o golo foi limpo. Contudo, o meu fiscal de linha, depois de eu ter sancionado o golo indicou-me que o lançamento de linha lateral feito anteriormente por um jogador do Chaves teria sido irregular. Assim, não tive outra atitude se não anular o tento.”

 

E ao Jornal Record que:

 

“O golo do Chaves foi precedido de falta no lançamento de bola fora. Quanto à pretensa «mão» na bola do jogador do Vizela não existiu. Em relação aos amarelos foram resultantes do jogo duro e o «vermelho» ao Paulo Rocha por indisciplina. (…) Como sabe estes jogos decisivos nunca constituem tarefa fácil, mas julgo ter feito um bom trabalho.”

 

Álvaro Carolino ao Primeiro de Janeiro, disse:

 

“Apenas remeto as minhas declarações para outras da responsabilidade do técnico do Vizela e publicadas ontem num matutino portuense sobre os «resultados cozinhados» [a propósito do resultado da derrota do Vizela na jornada anterior em São João da Madeira].

 

E por fim o treinador Nelo Barros declarou a este jornal diário que:

 

“Foi um encontro disputado debaixo de uma tensão nervosa muito grande. Todavia o Desportivo de Chaves jogava mais tranquilo, porque se remeteu à defesa. De qualquer maneira, ficou provado que também se ganham jogos a atuar com alma e coração”

 

O jogo acabou sem que se esgotassem os minutos de compensação, com a derrota amarga dos visitantes pelo resultado mínimo. A diferença na tabela passou para 2 pontos. Vizela primeiro, com 36 e Chaves segundo, com 34.

 

A Bola publicou dias mais tarde uma curiosa notícia sobre as réplicas flavienses das «cenas» de Vizela:

 

«Flavienses bloquearam fronteira»

 

“Para protestarem «contra o ambiente de terror e intimidação que encontraram em Vizela» e «exigir que o árbitro Vitor Correia, em depoimento transmitido pela televisão, reconheça que arbitrou sob pressão o jogo Vizela Chaves» adeptos do Desportivo de Chaves bloquearam, ontem, a fronteira de Vila Verde da Raia, prejudicando o regresso de turistas espanhóis e de emigrantes portugueses, terminadas as férias da Páscoa. Mais de três centenas de automóveis ficaram imobilizados junto à fronteira, até cerca das 21:45 horas, quando os manifestantes começaram a retirar.”

 

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O campeonato da II divisão acabaria daí a três jornadas, com o Vizela em primeiro lugar com 42 pontos e o Chaves em segundo com 39. O Vizela subiu à primeira divisão e penou toda a época a treinar onde podia (chegou a ter que se deslocar a Espinho para o fazer em relvado). Jogava no estádio do Guimarães onde o ambiente não era nada favorável por causa dos acontecimentos relativos à luta de Vizela para se separar do concelho da Cidade Berço. Desceram sem honra nem glória no final da época e hoje militam no Campeonato Nacional de Seniores.

 

A muitos outros jogos assisti, entre o Vizela e o Chaves, no novo estádio que, entretanto, se construiu em Vizela. Em nenhum houve qualquer tipo de problema, mesmo quando, muitas vezes, o Desportivo foi lá vencer.

 

O Desportivo de Chaves, foi disputar a liguilha e ficou em último lugar como já demos conta. Haveria de disputar essa mesma competição no ano seguinte e conseguir, finalmente, a almejada subida, num célebre jogo contra o União da Madeira. Na divisão maior do futebol nacional militou muitos anos, com épocas brilhantes que o levariam, inclusivamente, à Europa do futebol.

 

Depois de uma travessia do deserto morreu na praia a época passada, no último minuto da última jornada. Nesta época, a direção apostou fortíssimo na subida e muito se fica a dever ao senhor Francisco Carvalho e ao seu filho presidente, Bruno Carvalho, pelo esforço que fazem em prol de um Desportivo de primeira. Atacamos a subida com um plantel de luxo e um percurso no cimo da tabela. Apesar de resultados, aquém do desejado, há grande esperança de sucesso.

 

Queremos o Desportivo na divisão que merece!

 

Passados estes anos (32) sobre aqueles miseráveis acontecimentos de Vizela, em amena cavaqueira sobre futebol, vim a descobrir, em Braga, no Centro Cultural e Social de Santo Adrião o defesa esquerdo do Vizela, de seu nome Alberto Costa Oliveira (Berto) hoje com 61 anos de idade e que, tendo integrado o plantel do Vizela durante oito longas épocas, fez parte da equipe desse fatídico jogo de 22 de abril de 1984. Proprietário da Relojoaria Oliveira, em Braga, é um homem afável, simpático, conhecedor da bola e dos seus meandros e com uma larga experiência como jogador.

 

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 Berto, defesa esquerdo do Vizela

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 Berto, foto atual

 

A meu pedido, aceitou sacrificar uma noite de dominó com os amigos, para conversarmos sobre aquele jogo. Não o queria fazer, por razões que bem se entendem. Apesar de já terem passado mais de três décadas, continua com muitos amigos em Vizela e abrir este dossier é sempre complicado!

 

A muito custo, entre um café e um trago de Licor Beirão, lá foi levantando o véu, devagarinho!

 

Lembrou o jogo como um acontecimento especial para o Vizela, tanto que justificou um estágio em Guimarães. Confessou que temeu pelo desenlace do jogo, perante a confusão a que assistiu. Diz que nunca tinha visto tal coisa!

 

As gentes de Vizela viviam uma fase muito complicada, derivada da luta que travavam com Guimarães, pela sua autonomia como concelho. O braço de ferro com a Cidade Berço, que não queria perder a rainha da coroa, levou mesmo a que os vizelenses proibissem a entrada dos vimaranenses na cidade e colocassem uma forca na entrada, simbolizando a luta pela independência.

 

Ora, o futebol poderia muito bem servir de cavalo de tróia deste movimento. O Vizela, na primeira, poderia ser uma bandeira importante, quiçá até decisiva, para as pretensões vizelenses. Nisso apostavam fortemente.

 

Berto não acredita que tivesse havido movimentos de bastidores que justificassem a atitude de Vitor Correia na anulação do tento ao Desportivo de Chaves, que considera limpo. Para ele a decisão pode ter-se ficado a dever ao temor do árbitro face ao ambiente que se vivia no campo, à reação pouco amigável dos adeptos e à violência que se poderia seguir da parte de um Vizela a jogar no seu reduto.

 

Como haveria a equipe de arbitragem sair de Vizela, com um empate dos da casa?

 

O homem temeu pela sua segurança e segurou-se!..

 

Depois foi bordoada velha!

 

Disse, que às tantas se ouviu alguém a berrar: “Soltem o leão” e eis que na superior entrou um guedelhudo, com uma juba de leão, armado de correntes a desancar quantos podia. Levava tudo a eito! De facto, eu vi esse indivíduo brandindo as correntes de ferro que assentavam sobre as costelas de quem se lhe atravessasse no caminho!

 

O jogo terminou antes do tempo e Berto, com os seus companheiros de Braga, (entre os quais Toni) meteu-se no carro e zarpou!

 

O que teriam conversado durante a viagem não me quis revelar.

 

Berto jogou com o Vizela na I divisão e saiu no final da época. Jogou ainda mais alguns anos, poucos, tendo passado, inclusivamente, duas épocas no Vila Real, onde chegou a jogar com Malaias e com o Quim Parreco, como ele disse, ambos antigos jogadores do Desportivo.

 

Perante isto, diz que hoje nada o surpreende no futebol!

 

Agora, no jogo do dominó, entre uma jogada e outra, vai olhando de soslaio para a Sportv, onde passam os jogos do nosso campeonato. Não lhe dá a mesma importância que dá ao dominó!

 

A competição está agora, quase todos os serões, no pano verde da mesa do bar de Santo Adrião, onde, quase sempre, ganha aos seus adversários. Todavia, sempre limpinho e nunca da forma como ganhou ao Chaves há 32 anos atrás!..

 

Coisas da bola e da vida!

 

 

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