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CHAVES

Olhares sobre o "Reino Maravilhoso"

25
Mai16

Chá de Urze com Flores de Torga - 132

1600-torga

 

Tourém, Barroso, 2 de Setembro de 1990

 

LIMITE

 

Pátria até que os meus pés

Se magoem no chão.

Até que o coração

Bata descompassado.

Até que eu não entenda

A voz livre do vento

E o silêncio tolhido

Das penedias.

Até que a minha sede

Não reconheça fontes.

Até que seja outro

E para outros

O aceno ancestral dos horizontes.

 

Miguel Torga, In Diário XVI

 

1600-tourem-360-486

Tourém (composição com duas imagens)

 

Travassos do Rio, Montalegre, 29 de Agosto de 1991

 

Notabiliza este lugar um baixo-relevo na torre sineira a figurar a cabeça de um toiro, que foi campeão invencível nas turras do seu tempo e os habitantes, ufanos de tanta valentia, quiseram perpetuar.

 

Vou rememorando: Cornos das Alturas, Cornos da Fonte Fria, Tourém, Toural, Pitões.

 

Era assim antanho. Por todo o lado a mesma obsessão a tutelar as consciências. O mal é que o povo, em meia dúzia de anos, deixou apagar nos olhos a imagem viril, e perdeu a identidade. O Barroso de hoje é uma caricatura. Sem força testicular, fala francês, bebe coca-cola, deixo de comer o pão e centeio do forno comunitário, assiste a chegas comerciais, em campos de futebol, com bilhetes pagos e animais alugados. É um nédio boi capado.

 

Miguel Torga, In Diário XVI

 

 

25
Mai16

Ocasionais - A condessa de S.Julião da Várzea

ocasionais

 

A condessa de S. Julião da Várzea

 

 

Andava descalça.

 

Não por penitência. Mas porque lhe faltava a sandália nazarena onde lhe coubesse o pé.

 

Desde garota que aprendeu a meter a mão … e o bedelho.

 

E a bordar insinuações.

 

Tinha jeito para a mentira.

 

Mais jeito para a falsidade.

 

Aprimorou-o para a imposturice.

 

Tanto andou por varas (de porcos), por cáfilas (de camelos), por ninhadas (de pavões); com corja (de velhacos), com choldra (de malfeitores), com cambada (de malandros), com farândola (de vadios), com horda (de moinantes) que se especializou na falta de vergonha, no descaramento, na desfaçatez!

 

Com tanto traquejo, até soube aproveitar para entrar na roda (de pessoas) e aproximar-se de uma plêiade (de poetas e de artistas).

 

Foi junto do padre, prometeu-lhe beatas.

 

Do banqueiro, depósitos.

 

Do empreiteiro, obras.

 

Do comerciante, encomendas.

 

Do contribuinte, isenção de impostos.

 

Do taberneiro, borrachos.

 

Do moleiro, maquias.

 

Do polícia, a cova dos ladrões.

 

Do político, votos.

 

O Clube de Futebol, da sua Freguesia, subiu do escalão Regional para o Distrital. Nunca assistiu a um jogo, nunca pagou Quota. No dia da vitória, ei-la, a “condessa de S. Julião da Várzea”, radiosa e contente, a gritar, no meio da multidão, mas estrategicamente ora ao lado do presidente do Clube, ora do da Junta, ora do treinador:

 

- “Vitória! Vitória!” – “Ganhámos!”.

 

E fica toda derretida porque cem olhos caíram sobre si.

 

Haja procissão.

 

Ei-la bem enfeitada, e com o ar mais solene e beatífico, junto ao pálio.

 

Haja um Jantar de celebração ou uma Ceia de beneficência: a arte e o engenho sobram-lhe para se fazer convidada. Depois de se certificar, pelo canto do olho, de que a conta está paga, levanta-se da mesa, caminha com cerimónia, para na Caixa, e pergunta pomposamente:

 

- “Quanto se deve”?

 

A “condessa de S. Julião da Várzea” desce a Rua pela esquerda; sobe na vida pela Direita!

 

Não tardará a hora em que a “condessa de S. Julião da Várzea” se dará conta de caminhar na lama com pés descalços!

 

Convenceu-se ter sido, em «vidas passadas», uma prima afastada, mas muito chegada, de Madame Pompadour.

 

Soube do apoio que esta deu a Diderot para elaborar a “Enciclopédia”, e a outros artistas.

 

Bem tenta imitá-la.

 

Como não é capaz de criatividade pictórica para o «barro de Nantes», candidatou-se à peregrinação para os «escritos da Ponte», confundindo-os com hieróglifos de «ogham goidélico».

 

Diz, para quem tem pachorra de a ouvir, que depois dela, depois de um dia se despedir de S. Julião da Várzea, acontecerá o Dilúvio!

 

E o «pavão de Castelões», ou algum dos seus «lalões» herdeiro, nesse dia de sol ou de névoa, de chuva ou de neve acenar-lhe-á, e dirá cinicamente:

 

- A “condessa de S. Julião da Várzea” não terá bom tempo para a sua viagem ao Tártaro”!

 

M., quinze de Maio de 2016

Luís Henrique Fernandes

 

 

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