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CHAVES

Olhares sobre o "Reino Maravilhoso"

27
Mai16

Discursos Sobre a Cidade - Por Gil Santos

GIL

 

O PRETEXTO DO AGAPITO

 

O inverno de 1975/76 foi de rebimba o malho. Bravo e prolongado, começou com carambelo pelos Santos. Na Páscoa, ainda caía fulecra no Brunheiro. A festa da Ressurreição, naquele bendito ano de 76, foi temporã, aconteceu no penúltimo dia do mês de março. Um mau presságio, pois a Páscoa em março traz muita fome e muito mortaço! O povo também costuma dizer que, em anos escorreitos, os dias de março, de manhã têm cara de cão, à tarde cara de rainha e à noite cortam como uma foicinha! Mas o daquele ano contariava estes dizeres. De tal forma que muitos transmontanos, para que as cevas rendessem, engordaram-nas até março e só fizeram o serrabulho perto do final do mês, o que contraria o costume de as tchimpar entre o Natal e o Ano Novo, o mais tardar pelo Entrudo e nunca na Páscoa.

 

Além do mais, um mês de março normal costuma prenunciar o renovar da natureza morta pela invernia. Todavia, nem as primeiras folhas do carvalho negral espreitavam a montanha, nem as primaveras pintavam as várzeas de roxo vivo. O equinócio da primavera costumava significar esse virar de página, um tempo outro! Aliás, noutros anos, por esta maré, já as flausinas estavam fartas de berrar pelas touças:

 

– Ó cuquinho da ribeira, quantos anos me dás de solteira? – Mas nada disto acontecia na primavera de 76.

 

Todavia, de um dia para o outro chegou o verão. Abril tisnava a Veiga com inclemência. As vides, nas encostas de Anelhe, até se viam medrar e os lavradores temiam que um sincelo, a desatempo, lhas tolhesse e os deixasse na miséria. Vida difícil para os da rabiça. Andavam ao toque de caixa dos caprichos de uma natureza incerta e tantas vezes cruel! Nas poulas, as perdizes já faziam os ninhos e pelo final das águas mil, os perdigotos corriam como lebres atrás da mãe. Os láparos, que se safaram do chamorro, proliferavam, à tripa forra, roendo labrestos viçosos que despontavam por qualquer rincão. Era a natureza transmontana a despertar, com todo o vigor, dos longos meses de hibernação!

 

Tanto assim que, pela única vez, desde que me conheço, mergulhei na Galinheira no primeiro de maio. Neste dia do trabalhador, a febre dos cravos de abril mobilizou milhares de pessoas para uma manifestação no Arrabalde. Eu e a trupe estávamos mais interessados no rio e nos encantos da sua ourela. Amanhámos um pic-nic, catrapiscámos umas garinas e ala que se faz tarde!

 

Tempos de encantos mil, nas beiradas do Tâmega!...

 

Em maio desse ano, completava 19 primaveras, uma idade tenra, ainda sob o jugo dos livros e da escola. Nessa ocasião, como ainda hoje, gostava muito da pesca desportiva, pelo que aproveitava todo e qualquer momento para me fazer ao rio de cana e cacifo. Anzóis e sediela comprava-os nos Quadradinhos. O bicho-da-croça colhia-o na nascente do Ribelas, o camarão-do-rio um pouco acima da ponte Romana. As romisgas eram apanhadas à mão, nas águas correntes do regato, o camarão, nas bordas do rio com um camaroeiro. O bicho-do-sebo catava-o nas tripas de vaca que apodreciam, ao ar livre, no matadouro e eram pasto da varejeira. Era um martírio suportar aquele pivete, mas o vício era mais forte! Muitas vezes, sacrificava um gato vadio que pendurava, pelo rabo, na figueira do quintal. Punha um caçoulo a aparar as larvas que caiam limpinhas, metia-as no frigorífico, numa embalagem de margarina vazia. Madornavam, durando muito tempo e enviveciam com apenas cinco minutos ao sol. As minhocas do estrume - as da terra não prestavam - topava-as numa estrumeira ali para a Madalena que o Tero Bandeira, me ensinara. Depois, era só caminhar até à primeira presa, ou arranjar uma boleia para o ribeiro de S. Vicente na desova da boga, ou até à boca de água na albufeira dos Pisões. Na primeira presa apanhava barbos, nos Pisões, bogas e escalos, grandes como cavacos, mas com sabor à lama. À truta, em exclusivo, dediquei-me muito mais tarde, apenas quando experimentei as águas dos ribeiros do Gerês.

 

Ora, por esta altura, ter umas calças novas, para passear na sala de visitas do Jardim das Freiras, era qualquer coisa rara a que todos os moços novos aspiravam. E se fossem brancas e casassem com umas sapatilhas Sanjo e uma camisa Triple Marfel era o queijo! As sapatilhas e a camisa não consegui, mas, por mor de um dez a matemática, convenci a minha mãe a largar as lercas no Santiago por umas calças brancas de ganga que me ficavam mesmo a matar. Estou que lhe custaram os olhos da cara, mas não me quis dececionar e ofereceu-mas. Sabe Deus com que sacrifício o teria feito! Assim, podia ir para o Liceu, todo croncho, a botar figura! Talvez fosse a oportunidade de catrapiscar a Guida, uma colega que me andava a escapar há que tempos! Eu tinha quase a certeza que ela não haveria de resistir às calças e ao meu chame!

 

Tive razão!

 

Aquela moça mexia comigo e com muitos outros!

 

A Guida, como soi dizer-se, boa com’ó milho!

 

Cheguei a prometer-lhe um castelo, se um dia lho pudesse dar. Mas parece que nada surtia efeito. Dava-me ao desprezo, como a todos! Eu andava doido com aquela mania. Fazia de tudo para ter a sua atenção, mas nada resultava. Bem sei que eu era um pobre diabo! De meu apenas teria um razoável palmo de cara! Ela não, ela tinha tudo o que se sonhava numa mulher. Um sorriso límpido, um olhar felino e enigmático e um corpo de vespa. Usava calças justas, à boca de sino, que lhe desenhavam-lhe umas coxas roliças e um traseiro afeiçoado. Predicados de mistérios quase insondáveis! Ela era uma diva, tida, por quase todos, como inalcançável!

 

Apesar disso, nunca perdi a fé! Estava convicto de que faltaria apenas um clique que poderia, muito bem, passar pelas calças brancas. Eu topava que havia nela qualquer coisa que me alimentava a esperança. Hoje sei que estaria caidinha, contudo, aquela mania de se fazer difícil dominava-a, como a muitas outras. Manias de mulher!..

 

Viria o dia de pôr todos os trunfos em cima da mesa, o tempo do tudo ou nada, o vai ou racha!

 

O 23 de maio haveria de ser o tal.

 

O dia nasceu como devia ser, ensolarado e radiante. No ar, as andorinhas desenhavam arabescos atrás dos mosquitos, nos telhados, os pardais esfalfavam-se pelo cibo para os pardalecos. Os pólenes, há muito no ar, catalizavam as hormonas e punham tudo aos saltos!

 

Levantei-me cedo. Tomei banho. Amanhei a trunfa a secador. Com estilo, desenhei aquele vinco na risca que só os barbeiros sabiam fazer. Encharquei-me em Lavanda e botei as calças brancas, novinhas do trinque. Quando me mirei ao espelho do guarda-fatos, nem parecia eu! Estava um pimpão, irresistível! Tal figura não haveria de deixar indiferente a minha Guidinha – pensava eu!

 

A moça era da minha turma há vários anos. Naquele dia, tínhamos aulas toda a manhã e apenas uma ao início da tarde. Fiz por chegar atrasado ao primeiro tempo à aula de matemática da Isabel Viçoso. Quando entrei, fiz questão de a fixar nos olhos. Gostei da reação! Notei-lhe um brilhozinho inédito e entusiasmante! Durante a aula respondi, com sucesso inusitado, a duas ou três questões difíceis.

 

No intervalo, a sacripanta deu de frosques. Fez-se de Inês e passou o intervalo no bar.

 

Deixei dar!..

 

A seguir tivemos Filosofia, creio que com a Adília Verdelho. A aridez da aula sempre deu para ir trocando uns olhares com ela. À medida que a manhã avançava o gelo ia derretendo! De tal forma que a derradeira aula já aconteceu num oceano quase tropical! Aproveitei o último intervalo para atirar a matar:

 

– Ó Guidinha, depois da aula da tarde, queres beber um copo comigo nas Caldas?

 

Que sim, até porque tinha quase a certeza de que o almoço lhe cairia mal!..

 

Fiquei radiante! Aceitar ir para o Tabolado, o jardim dos namorados, era um sinal, inequívoco, de disponibilidade para as coisas do peito!

 

Estava no papo, porque, além do mais, eu confiava na minha lábia que já tantas provas tinha dado!

 

Fui a casa, engoli o bocado o mais depressa que pude e à horinha estava na aula de Física. Finda a lição, que não ouvi, a Guida cumpriu o que prometera e acompanhou-me ao Tabolado.

 

Pelo caminho fui-lhe contando a história do ceguinho. Todavia, reservei a parte em que o cego passa a ver, como um ás de trunfo.

 

Nas idílicas margens do meu Tâmega, eu não caminhava, flutuava!

 

Corria tudo às mil maravilhas, de avanço em avanço! Primeiro, a mão dada, depois, o braço por cima, a seguir, um beijo seco, quase roubado, prenúncio de outros horizontes!..

 

Joguei a bisca de trunfo:

 

– Ó Guida, conheces o moinho do Agapito?

 

Que não, que nunca ouvira falar.

 

– Então, queres conhecê-lo?

 

Que sim.

 

As margens do Tâmega, por esta ocasião, estavam qualificadas somente na sua margem direita, desde a Ponte Romana até à Nova. Na margem esquerda, da Ponte Carmona até ao Moinho do Agapito, havia apenas uma rodeira entre os amieiros da beira rio e as vinhas, os centeios e os batatais da Veiga.

 

Atravessámos a ponte, descemos a escaleiras de pedra e tomámos o carreirão na margem esquerda. Penetrámos numa espécia de paraíso, num mundo isolado, tentador, onde não passava vivalma! Um contexto dado aos amores e às paixões viris!

 

Sentia-me um herói, por ter sido capaz de levar a Guida para o rio! Ai quando a malta soubesse!..

 

Quisemos lá saber do moinho do Agapito, ou do que fosse, o sangue fervia na guelra e na primeira ferrã que nos cobrisse, rebolámos como loucos! Acabámos com o centeio assobalhado, mas felizes.

 

Dali por diante haveríamos de ser namorados a sério!

 

Quando vim a mim e olhei para as calças, petrifiquei! Estavam numa lástima. Meu Deus, que desculpa arranjaria para aquela desgraça?

 

Levei a dama ao Postigo e procurei, o mais depressa que pude, uma lata de sardinhas vazia. Fui à Madalena e enchi-a de minhocas do esterco.

 

Chegado a casa expliquei que tencionava ir à pesca no fim de semana e que fui às minhocas. Que escorreguei e caí!

 

Não levei nos queixos porque já tinha barba!..

 

As calças nunca mais o foram, mas valeu a pena perdê-las, uma vez que ganhei uma namorada que só perdi quando outro amor maior desabrochou!

 

Coisas da beira Tâmega!

 

Gil Santos

 

 

27
Mai16

Chaves, Corpo de Deus

1600-corpo-deus-16 (17)

Pois é, o dia de ontem foi para andar à caça de imagens, primeiro em Vilar de Nantes, depois na cidade (de Chaves, claro!), o motivo - O Corpo de Deus. Quero com isto dizer que o tempo não dá para tudo e que ficou a perder foi o blog, pois só consegui trazer aqui uma imagem, para já. Quanto a Vilar de Nantes, fica prometido para amanhã, que será a nossa aldeia convidada, com Corpo de Deus, bem florido como manda a tradição e mais algumas imagens. Quanto ao Corpo de Deus da cidade, pode ser que ainda hoje consiga meter mais algumas imagens. E já que estamos nesta maré, o "Discurso sobre a cidade" do Gil Santos que vem já a seguir, também merecia umas imagens, que ficam prometidas para mais tarde, mas para já seguirá também sem imagens. Eu bem digo que os dias deveriam ter 28 horas, pois todos os dias me faltam 4 horas para conseguir fazer tudo que necessitava...

 

Até já com o "Discurso" do Gil Santos.

 

 

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