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CHAVES

Olhares sobre o "Reino Maravilhoso"

24
Jun16

Museu de Arte Contemporânea Nadir Afonso a caminho da inauguração

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Eis-nos em plena contagem decrescente para a inauguração do Museu de Arte Contemporânea Nadir Afonso, com a presença do Presidente da República, a acontecer no próximo dia 4 de julho. De autoria do Arquiteto Álvaro Siza Vieira, implantado nas antigas hortas das Longras, o edifício nasce entre a Canelha das Longras e as traseiras do casario da Avenida 5 de Outubro. Segundo o autor do projeto a canelha viria a influenciar o desenho do edifício,  pelo que,  a própria canelha passou a fazer parte do projeto, mantendo-se todos os muros e antigos vãos das portas das construções anteriormente existentes, bem como umas ruinas de uma das construções. Da minha parte é ouro sobre azul, uma obra de arte nasce em Chaves mantendo a memória da famosa Canelha das Longras.

 

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Felizmente também eu me lembrei de passar por lá uma vez em finais dos anos oitenta para fazer alguns registos da Canelha, ainda com as casas habitadas e gente na rua. Registos que hoje vos deixo com um pequeno contributo para a memória do local.

 

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Até dia 4 teremos por aqui imagens do Museu e nesse dia, se possível, a reportagem da inauguração.

 

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Até amanhã!

 

 

24
Jun16

Discursos Sobre a Cidade - Por Gil Santos

GIL

 

As mezinhas de S. Cibrão

 

As noites de sincelo dos meses de inverno, nos cornos do Brunheiro, davam pelos peitos a uma mula!

Ceava-se já noite escura e para não recolher ao ninho com as pitas, empertigados pela fome do caldo de unto, os vizinhos juntavam-se na casa maior da aldeia onde a lareira desse para todos. Uns sentados nos escanos, outros em moutchos e outros nas bancas, tagarelavam da vida alheia, cortavam na casaca dos vizinhos, planeavam as sementeiras da primavera, ou faziam contas à colheira. Entre um golo de tinto quente, cuja pitchorra passava pelos queixos de todos, contavam-se e ouviam-se também estórias de encruzilhadas, de corujas e bruxarias e de lobisomens. E havia autênticos mestres contadores de estórias. Iam-nas buscar à fim do mundo para arrepio dos mais incautos. Algumas delas, passavam de geração em geração, mas eram sempre reinventadas pela arte de cada ancião. Fieis depositários da memória popular, os mais idosos, eram muito respeitados não tanto pela vetusta idade, nalguns casos, mas pelo que sabiam. Sapiência de experiência feita, muito valorizada pela ausência da escola que viria muito mais tarde e que seria, para muitos, coisa fidalga! Estes mestres do saber eram preciosos tesouros, dos quais dependia, em muito, a coesão social das comunidades fechadas como eram as das nossas aldeias planálticas nos meados do século passado. Estas estórias, contadas ao borralho com a calma das noites nevadas, alimentavam a imaginação e muitas vezes, tanto criavam, como esconjuravam medos e almas penadas. Eram luzeiros que se acendiam nas noites de breu das invernias planálticas, apenas iluminadas pelas mortiças candeias a petróleo ou pelas fronças da giesta piorneira que atiçavam o braseiro.

Havia contadores de estórias famosos, enciclopédicos, capazes de colorir a imaginação de qualquer um. Era o caso do Ti Atanásio de S. Cibrão. Uma velha raposa, cuja argúcia fora refinada na fuzilaria da lama da Flandres, onde ia deixando a carcaça. Os seus relatos, tanto puxavam pelo maravilhoso dos Contos de Torga, recém-publicados, como pela excentricidade dos de Christian Andersen. Para já não falar dos rituais de ocultismo, exorcismo e magia negra do famoso Livro de S. Cipriano, que todos juravam que ele teria, rebuçado nalgum buraco e que só leria nas noites de lua nova.

Maldito livro este!..

Atanásio era um homem temível e por todos considerado. Parece até que tinha pacto com o diabo, dizia a Tia Carminda da Rua, por entre dentes, no deve e haver das tardes de soalheiro. Era dos poucos da aldeia que sabia ler e escrever e nesse tempo era uma vantagem muito significativa. Esteve na Grande Guerra e por isso foi o único da aldeia a conhecer mundo para lá dos horizontes do Larouco que se vislumbrava de S. Cibrão.

O Livro de S. Cipriano, diziam, tê-lo-ia trazido da França, roubado a uma velha feiticeira que ele teria catrapiscado com o seu patoi, nos momentos de descanso do roulement. A verdade é que fosse nos dizeres do livro, ou no pacto que tinha com Belzebu, ele topava remédio para todos os males e tanto se lhe dava que fossem de gente como de bicho caseiro, curava tudo com rezas e mezinhas.

Ora, tal figura era muito procurada para conselhos e receitas e as suas consultas tanto aconteciam entre o vai e vem da sachola de ganchos no arranque das batatas, como nas sestas sob a fresca do negrilho do prado.

O Anatólio Patalão, era o seu ouvinte mais fiel. Acreditava, piamente, nas suas palavras e valorizava-as muito para lá das que ouvia ao padre Mazagão na igreja de Santa Leocádia. Anatólio era um solteirão que por ser pantomineiro, troglodita e mal-amanhado, nunca avezou mulher que o quisesse. Um lambão era o que era, mas trabalhador e sério, contudo muito desajeitado e ingénuo. Um pacóvio, na verdadeira acessão da palavra de quem todos arreganhavam os dentes. Vivia triste e infeliz e a única coisa que o consolava era o mundo que a imaginação lhe desenhava, em função das estórias que ouvia nos serões do Atanásio.

Andava há muito para lhe puxar a história de vida de S. Cipriano, mas não tinha tido ocasião. Ora, numa bela noite, dias antes da serrada da velha, botou:

— Ó Ti Atanásio, vossemecê vai-nos contar hoje a história de S. Cipriano, sábia?

Não sabia ele outra coisa. Então aí vai:

 

“S. Cipriano teria sido um feiticeiro que trabalhando para o diabo morreu cristão. Nascido não se sabe quando, na antiga Fenícia, os seus pais cedo perceberam nele poderes que o tornariam único. Aos trinta anos emigrou para a Babilónia para estudar astrologia, entregando-se a uma vida boémia e escandalosa. A fim de poder estar mais perto das falsas divindades que adorava, donas das forças do mal, estudou magia negra e associou-se à velha bruxa Évora, conhecida como a mais poderosa cartomante e intérprete de sonhos do seu tempo. Dela teria herdado os manuscritos, contendo os poderes e os segredos que mais tarde constariam de um misterioso livro que poucos se gabam de poderem ter. Livro muito perigoso porque as foças que por ele possam ser invocadas podem, a qualquer momento, virar-se contra quem as invoca.

Ora, Cipriano, passava dias e noites lendo e relendo os manuscritos de Évora, estudando alquimia e registando as conclusões para memória futura.

Tinha um amigo de escola de nome Euzébio que, sendo cristão, fazia um grande esforço para o arrancar às garras de Satanás e ao abismo em que se estaria a meter. Contudo, ele não lhe dava ouvidos. Cipriano chegava mesmo a ridicularizá-lo pelas suas convicções.

Em Antioquia vivia uma rica e bela donzela, Justina, educada nos princípios do paganismo. Porém, dotada de invulgares predicados vivia feliz naquele modo de vida. Ouvindo, certa ocasião, uma pregação de um diácono célebre, converteu-se ao catolicismo e chegou mesmo a converter seus próprios pais. Justina passou então a oferecer a sua virgindade a Deus, entregando-se de corpo e alma à oração e à penitência.

Aglaide, um jovem e bem afeiçoado cavaleiro, apaixonou-se por ela de tal forma que estava disposto a tudo para ter os favores que ela lhe negava. Conhecedor dos poderes demoníacos de Cipriano procurou-o para que a ajudasse a conquistar o coração da jovem donzela. De tudo foi oferecido ao demónio para que Justina fosse de Aglaide. Belzebu, para o efeito, atazanava a jovem com os mais horrendos sonhos e as mais perniciosas visões. Todavia, nada a impressiona uma vez que contava com o manto protetor do seu Deus. Cipriano indignado por falta de eficácia do cornudo, enfrentou-o:

- Tu que tanto te gabas do teu poder e de obrar prodigiosas maravilhas, nada podes fazer contra uma simples donzela? Falai-me: de onde provêm as armas daquela jovem virgem que inutiliza todos os meus esforços?

O demónio explicou-lhe que a arma de Justina era a Cruz de Cristo, da qual ele se afastava como o diabo se afasta das almas!

Cipriano questionou-se então sobre o que teria a ganhar continuando a servir este Deus menor! Revanchista como é o demo, vendo-se preterido, tomou o pobre Cipriano dos mais demoníacos castigos. Cipriano, protegido pelo seu novo Senhor a tudo resistia. Ajudado pelo seu amigo Euzébio, converteu-se então a Cristo e à Virgem Santa Maria. Distribuiu a sua riqueza pelos pobres a guardou, religiosamente, os seus escritos demoníacos e os de Évora, a sete chaves, no fundo de uma arca perdida.

Cipriano mudou de vida, dedicando ao estudo da medicina e da religião e usando agora os seus poderes e saberes para a prática do bem em benefício dos outros. Praticava milagres em nome de Deus.

O seu trabalho foi-se agigantando de modo a que não passou despercebido às autoridades que se viam, assim, a perder poder. Por isso o Imperador Deocliciano, emitiu uma ordem para que Cipriano e Justina fossem imediatamente presos e julgados. O Juiz condenou Justina a ser açoitada em praça pública e o pobre a ter a suas carnes deliceradas por um pente de ferro.

Esta condenação não os fez vacilar, o que irritou o carrasco, que agravou a pena. Mandou que fossem jogados numa caldeira de pez ardente. Não conseguiu arrancar das suas bocas um gemido que fosse, pelo contrário, os seus rostos estavam rejubilantes com a força de Jesus Cristo.

Um antigo discípulo de Cipriano, Athanásio, para ganhar fama e os favores dos senhores, após ter invocado os mais ferozes demónios para sua proteção, encafuou-se no caldeiro onde estavam os mártires. Ciprino e Justina saíram ilesos enquanto ele ardia numa morte lenta e dolorosa.

O povo, estupefacto, venerou os mártires. O Juiz, não contente, mandou uma missiva a Deocliciano que, em face deste milagre, perante o milagre, decretou que se degolassem.

A execução foi marcada e executada.

Nessa mesma noite os corpos foram roubados e transportados, em segredo, para Roma, onde mais tarde Constantino o Magno lhes daria sepultura na Basílica de S. João Latrão.

Muitos anos mais tarde os seus escritos, bem como os da bruxa Évora, escritos em hebraico, foram encontrados e resgatados da arca. Ficaram guardados na Biblioteca do Vaticano. Foram, posteriormente, traduzidos em centenas de línguas e serviriam de base às diversas versões do Livro de S. Cipriano.

 

Atanásio rematou:

— Mas sabei que no preambulo do livro negro, está escrito o seguinte:

— “É preciso muito cuidado para que as forças do mal não se voltem contra quem as invoca”!

 

Anatólio Patalão estava banzado!

— Fosca-se Ti Atanásio! Conte-nos então uma passagem do livro negro:

Que sim.

— Vou então contar-vos uma sobre a forma de tornar qualquer homem invisível!

 

“Mata-se um gato preto, enterra-se no quintal, coloca-se uma fava em cada olho, outra debaixo da cauda e outra em cada ouvido. Depois, cobre-se de terra e rega-se todas as noites, ao soar da meia-noite, até que as favas, que devem ter rebentado, estejam maduras. Quando estiverem nesse ponto, cortam-se pelo pé. Depois de cortadas, levam-se para casa e coloca-se uma, de cada vez, na boca. Quando se perceber que se está invisível é porque a fava tem o poder de o deixar invisível. Ela deve estar sempre com a pessoa e toda a vez que se quiser entrar num lugar sem se ser percebido, é só colocá-la na boca.

Mas cautela, poderá ocorrer, que toda a vez que se forem regar as favas, apareçam muitos fantasmas com o fim de assustar, para não completar o intento. A razão é simples: como esta é uma mágica que não precisa nenhum encantamento e nem a invocação de nenhum demónio, estes farão de tudo para que se desista e se recorra a outros processos que, em troca de invisibilidade, tenha de se lhes entregar a alma. Mas, não se assustem se isso acontecer, eles não têm poder algum e para afugentá-los basta fazer o sinal da cruz.”

 

Claro está que Anatólio viu nesta receita a sua oportunidade!

Há muito que andava de olho na Olinda, uma gerigota da aldeia que não lhe dava qualquer abébia. Apesar de azadinha corria, à boca fechada, que seria mulher/homem, isto é, que teria os dois sexos. Apesar disso, ele nutria por ela um grande afeto e jurou que um dia a havia de ver em couro para tirar as dúvidas.

Meu dito meu feito!

Levou a receita à letra e convenceu-se que a fava o tornaria invisível. A pressa era tanta que nem sequer teve tempo para a testar.

Numa noite de lua nova, após um serão de viras e malhões ao toque do realejo do Cabrita na casa do Atanásio, deixou que toda a gente tomasse a sua casa. Quando lhe pareceu, penetrou no pátio da casa da rapariga, pela porta carral de zinco, já com a fava na boca. Ficou radiante quando viu que o Tirone, o cão de guarda da casa, nem a cabeça levantou do ninho de palha onde dormia. Subiu pelas escaleiras de pedra de carpins, com os socos na mão, e na varanda encostou-se ao balaústro para medir a porta do quarto da cachopa.

Aproximou-se e espreitou pela fechadura!

Deu com os olhos numas rechonchudas nádegas ao léu, de uma brancura imaculada, que baixavam sobre o penico de esmalte!

Abriu a porta d’amodinho e julgando-se invisível penetrou no quarto.

Quando a Olinda viu o sacripanta quarto adentro tralhou-se e completamente descomposta gritou por socorro como uma cabra a parir!

O pai veio em seu auxílio com um arrocho que apanhou na manjedoura da burra!

Quando viu o melro na gaiola, pregou-lhe duas arrochadas pelas costas abaixo que o deixaram derreadinho!

Fugiu como pôde com o Tirone filado nos fundilhos das calças!

Não atendeu ao preâmbulo do livro de S. Cipriano e a sua ingenuidade virou o feitiço contra o feiticeiro!

— Que se quilhe o livro e mais a suas receitas! – Pensava ele enquanto recuperava das mazelas.

Todavia, nem tudo estava perdido!

Dali por diante, sem se abrir a pormenores, sempre ia esclarecendo os da aldeia que a Olinda sempre não era hermafrodita!

Dizia até que se Deus o levasse, iria contentinho por ter visto, numa noite de lua nova, a rosa negra mais linda que se possa imaginar!...

 

Pena tinha em não a poder ter desfolhado!

Gil Santos

 

 

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