Discursos Sobre a Cidade - Por Francisco Chaves de Melo

Viúvas de vivos.
Por vezes a angustia invade o dia de um homem! Uma lembrança, um acontecimento furtuito, pequenos nadas, transportam-nos para outros tempos.
Acontece que também esses tempos se assemelham aos que vivemos agora. Parece até que a natureza da história humana não muda no essencial.
Digo-o porque para mim o essencial não é o telemóvel nem o facebook. Pois é!
Não são o essencial porque não me permitem viver como gosto, no contacto quotidiano com o outro. Com o meu semelhante!
Mas esta opinião está a mudar. Não tanto por agora estar mais sentado em casa que a passear pela rua, mas porque muitos dos meus familiares e amigos partiram da terra e a tecnologia sempre me permite vê-los e ouvi-los.
Também fiz viagens para longe da terra, mas pude regressar. Havia antes fronteiras! Muitas, diversas, mais que políticas! Foram desaparecendo, já não nos prendem. O desígnio da região, das gentes, cumpria-se além Atlântico, na França, na Alemanha e na Suíça. Na gesta da emigração.
Hoje a emigração já não é o tempo das “viúvas de vivos”, da poetisa Rosalía de Castro.
Deixo-vos o poema:
Este parte, aquele parte
e todos, todos se vão
Galiza ficas sem homens
que possam cortar teu pão
Tens em troca
órfãos e órfãs
tens campos de solidão
tens mães que não têm filhos
filhos que não têm pai
Coração
que tens e sofre
longas ausências mortais
viúvas de vivos mortos
que ninguém consolará
Hoje partem todos, homens, mulheres, jovens e menos jovens. Os que têm crianças levam-nas com a família.
Existe o sentimento generalizado de que o futuro está lá fora!
Eu ainda não me resigno! Acredito que é um mal passageiro, que podemos aqui construir o nosso futuro.
Temos de mudar!
Francisco Chaves de Melo


