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CHAVES

Olhares sobre o "Reino Maravilhoso"

19
Jul16

Chaves D'Aurora

1600-chavesdaurora

 

2 - ESPERA

 

Naquele momento, porém, Aurora não se havia com mais nada, senão a obsessiva espera de algo. A melhor dizer, de alguém.

 

Nesse entretanto de ânsias, àquela densa friagem do porto, punha-se a observar, lá em baixo, alguns passageiros retardatários ou se distraía com a azáfama dos carregadores portuários, a imaginar se alguns pingos de suor lhes estariam a congelar sobre as faces, enquanto conduziam, para dentro do paquete, imensos baús, quadrados, cilíndricos, redondos; grandes arcas encouradas; malas de viagem de vários tamanhos, em estruturas de madeira forradas de couro ou de papel encerado, cujas hastes e fechaduras eram recortadas com arabescos de metal; tonéis de vinho tinto, branco, rosé e do Porto; bacalhaus e sardinhas de exportação ou para servirem, como os enchidos e outros farnéis, de refeição aos tripulantes e aos demais viageiros; tantas coisas, enfim, que iriam preencher os vários nichos bagageiros do porão do navio, durante a longa travessia.

 

Na verdade, o olhar de Aurora dirigia-se para além dos próprios olhos e se perdia ao longe, entre névoas de espera. Para tanto ou quanto dessa esperança, a fé de que “ele” chegará como um romano e a raptará, sabina, para algum vale perdido entre colinas distantes, onde uma Roma só deles será então construída. Para bem longe de tudo aquilo que ora, e em tão recente outrora, ou, mais ainda, em uma e outra aurora, tanto a fez sofrer.

 

Talvez venha a cavalo como um príncipe, para resgatar a menina Rapunzel da sua torre de angústia; ou, se calhar, ele surja de repente em um dirigível aéreo, como os do senhor Júlio Verne, para com esse balão darem voltas ao mundo em oitenta dias, a um tempo em que os dois nem se haveriam de dar conta de nada, sequer de contar o tempo.

 

Uma e outra vez, estão a brilhar suas meninas dos olhos, com uma alegria maior do que a das pupilas do Senhor Reitor, de Júlio Dinis. É quando algum homem no cais volta a cabeça para cima, como se quisesse com os olhos desvirginar o nevoeiro e conduzir os seus atrevidos glóbulos oculares a se abraçarem com os dela. Mas não, aquele lá, o outro ali e o mais além, nenhum deles é o seu amado, esperado, esper’amado, protagonista desse amor de perdição, a que nenhum Camilo Castelo Branco alcançava descrever.

 

Eis que, então, sem desviar os olhos do cais, pressente no chão do convés os passos de um homem que se aproxima. Parece sair de entre as fímbrias de luz da nebulosa manhã, mas ela tem certeza, é ele sim. É Dom Sebastião voltando d’África para os destinos de seu Portugal interior. É um dos irmãos Garcia Lopes que vem expulsar os mouros que a atormentam e estão a causar suas inquietudes de mulher e amante.

 

De soslaio, percebe um casaco de lã xadrez, a chegar cada vez mais perto de seu apertado coração. Encoraja-se de virar os olhos para esse homem.

 

Seu homem, por certo.

 

Agora ele detém-se bem ali ao seu lado, uma enluvada mão cor de morcela a se estender para tocá-la. Talvez para acariciar os seus louros e longos cabelos ocultos pelo xaile, quiçá o seu belo rosto de jovem rapariga ou, ainda, suas mãos. Estas se acham envoltas na lã que lhe foi cedida por alguma ovelha negra, em um proveitoso tosquio. – Ah enegrecido cordeiro que não tirais os pecados do mundo, mas os carregais convosco! – assim Aurora sentia-se, desgarrada de seu próprio rebanho, pois assim era, aos feitos e aos factos, como ela agora se achava, tida, sentida e contida pelos seus. Mas quem em tal a convertera? O Destino traçado nas constelações? Ou o seu livre, mas impensado arbítrio? Não lhe alcançava, certamente, ser ela apenas um peão a mais no xadrez dos bispos e rainhas, ciosos guardiães da Moral e das Santas Tradições.

 

Ainda hesita em se voltar para trás e olhar dentro dos olhos do amado, mas sabe que essas mãos enluvadas são as mesmas que incerto dia, incertos meses, incertos anos, tocaram as cordas de seu instrumento carnal de sopro e percussão; fizeram vibrar, com intensidade, as fibras mais íntimas de sua alma atormentada.

 

Nem certa de si mesma ela está se, ao revê-lo, haverá de converter os seus pensares em alguns simples dizeres – Oh, és tu, afinal! Diz-me que és tu, de verdade e me abraça antes que eu morra, pois de ventura também se morre! – e, certamente, ele irá dizer, em resposta – Sim, sim, cá estou! Sou eu, minha brasilita, pra não te deixar partir, sozinha de mim, a esses todavias d’ Além-mar; pra te levar comigo aos Açores, à África, ao Timor, a qualquer parte do mundo, enfim, onde possamos viajar ciganos, voejar libertos, navegar felizes.

 

Toca afinal, em seu ombro, a mão enluvada.

 

O coração de Aurora dispara.

 

Estremece.

 

(continua)

 

 

fim-de-post

 

 

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