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CHAVES

Olhares sobre o "Reino Maravilhoso"

21
Jul16

O Factor Humano - Sempre a questão da humanização

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Sempre a questão da humanização

 

Na sua mão imensa expunha os mosquitos artificiais. Aí estavam a “falangista” (vermelha e amarela) e o famoso “ nazareno” (roxo). Olhava-os com a mesma seriedade com que antes tinha estudado os evangelhos. Indiferente ao frio, à chuva e ao facto de ainda não ter ainda pescado nenhuma truta no rio Terva, nesse dia de Março, dos inícios dos anos 80.

 

Parecia o que sempre foi: um “velho e bondoso filósofo”, uma torre consistente, sólida, tranquila, humana.

Depois largava dois “peidos”, como trovões, e ria-se infantilmente.

 

Escolhia então os mosquitos e pacientemente montava o aparelho de pescar. Retomava a sua pesca, tão inútil, tão maravilhosa.

 

Esta é uma imagem, memória mais ou menos fiel, de um dia de pesca com o meu primo César.

 

Não me recordo de nenhuma memória dele, que não seja agradável.

 

Há umas semanas atrás, com 77 anos, teve um AVC extenso, na cidade de Madrid.

 

Fui visitá-lo a um hospital de reabilitação no passado fim-de-semana. A sua expressão de alegria, quando me viu, vinda do fundo do poço onde mergulhou e a sua exclamação “Pité!”, valeu por todas as viagens.

 

Impossível não reflectir sobre a humanização dos cuidados de saúde. Até porque estamos perante um ser tão humano.

 

É importante e útil que os profissionais de saúde, em especial os médicos, tenham vivências, directas ou indirectas, como utentes dos serviços públicos de saúde. Estas experiências podem ajudar a humanizar a nossa actuação profissional. Ajudar-nos a perceber a importância das questões “não técnicas”. A importância da postura, do carinho, da simpatia, da disponibilidade que devemos ter. Mesmo quando a disposição e os ritmos de trabalho são difíceis ou quando as remunerações são baixas.

 

É triste uma sociedade reduzida a números e a rentabilidades, abandonando os mais desprotegidos, os doentes crónicos, os incapacitados crónicos.

 

Vai havendo algum dinheiro público, agora mais reduzido, para as questões técnicas da saúde. Mas faltam auxiliares, enfermeiros, médicos, simples companhia para os doentes. Dei por mim a pensar a diferente situação que vi em Cuba. Lá há muito menos dinheiro para as questões técnicas da saúde, mas mais recursos humanos, mais humanização, que se traduz tantas vezes em mais eficácia e em ganhos maiores na saúde, vista como um todo. Até nós, como sociedade, nos vamos desumanizando mesmo no acompanhamento aos nossos mais próximos, quando mais necessitam. Mesmo na contestação política e social, muito se fala das questões técnicas e menos se fala das questões humanas. Os resultados estão à vista.

 

Confio que poderei um dia rediscutir este tema com o meu primo César, ouvi-lo contar a sua experiencia, a sua paciência infinita, a sua tranquilidade, como se continuasse a escolher os mosquitos da sua vida.

 

Manuel Cunha (Pité)

 

 

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