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CHAVES

Olhares sobre o "Reino Maravilhoso"

09
Ago16

Intermitências

800-intermitencias

 

A Vida é um Milagre

 

 

“Um dia, vais ter a certeza de que a vida é um milagre. Depois, ao constatares que aconteceu uma vez, vais-te dar conta de que pode acontecer duas, ou três, ou mais e mais... Começas a acreditar no surreal, pois vês que tudo mesmo é possível e não são apenas ideias e sonhos. Começas a ver a beleza das coisas e a sonhar mais alto. A partir daí, só tens de aprender a controlar a tua impaciência – pois os milagres acontecem no momento justo e não quando tu desejarias –, a tua preguiça, a tua inércia, os teus vícios, os teus impulsos... Quando o conseguires, te garanto meu filho, passarás a desfrutar plenamente da beleza e do surreal que é a vida. Irá aparecer da nada gente no teu caminho que também já conhece essa verdade, e então serás verdadeiramente feliz. Lembra-te: essa felicidade não irá depender do que tens, mas apenas do que sentes.”

 

Quando a minha avó me disse estas palavras, pensava que eram histórias de encantar, para me dar ânimo para aguentar as amarguras da vida. Estávamos sentados debaixo do pomar do jardim de sua casa e ela estava gravemente doente. Nesse dia, ela quis transmitir-me o que a vida lhe tinha ensinado em 80 anos. Fora um caminho largo, difícil e sofrido, disse-me, mas agora sabia do que se tratava a vida e sentia-se em paz e feliz, mesmo após a morte do meu avô.

 

A Vida é um milagre.JPG

Ilha Terceira, Açores, Janeiro 2016 - Foto de Sandra Pereira

 

 “Eu penso coisas, mas digo e faço totalmente o contrário... Não consigo controlar”, respondi-lhe.

 

“Até aos 30 anos não tens de te preocupar, tudo aquilo que fizeres é para aprender. Tem paciência. Quando isso acontecer, lembra-te de sorrir e de que tudo o que dás volta a ti, tanto o positivo, como o negativo.”

 

E é isto. O legado da minha avó era difícil de atingir, mas simples de entender. Para mim, o facto dela ter existido já era um milagre.

 

 

Sandra Pereira

 

 

09
Ago16

Chaves D'Aurora

1600-chavesdaurora

 

6.GRITO.

 

Junto à amurada da ponte, Aurora engoliu um grito que, ao soar de suas cordas vocais, poderia ser tão angustiante quanto o da moura encantada e, não lhe estivesse o berro ainda preso à garganta, seria similar à emblemática figura do famoso quadro de Edvard Munch. Uma nuvem de perversa indecisão perpassou, então, por sua mente adoecida – Apenas um pulo, Aurora, um só, vai! Aproveita que o Tâmega está hoje a uma de suas raras cheias, posto que não seja uma enxurrada como aquela, a que tantos prejuízos causaram à Vila, quando ainda eras miúda e o marco de subida das águas ficou, para sempre, registado aos fundos da Igreja da Madalena. Vai, vai dar um abraço à correnteza, pois bem sabes que, contra ela, não saberás te haver tão bem como esses patos sem dono e as outras aves que deslizam pelo rio, em uma suave avidez pelo Sol!

 

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 Fotografia de arquivo do Blog Chaves Antiga

Tão fácil, tão difícil. – Não, não, ainda semeias ventos de esperança, para colheres os tempestivos milagres. Se Deus que é Pai não te ajudar, esse filho do Mafarrico, o belo gajo a quem amavas, amaste, amas ainda, há de fazê-lo, por certo.

 

Benzeu-se, então. Terminou de cruzar a ponte e saiu a rezar um Creio em Deus Pai, margeando o rio pela Alameda Trajano e, depois, pelo Tabolado, até chegar às Caldas de Aquae Flaviae, cujas águas nascem a um campo junto ao Ribeiro de Rivelas, perto da confluência deste com o Tâmega. Seus dons medicinais já sabiam muito bem aos ancestrais romanos, quando fundaram a cidade sobre os vestígios das instalações urbanas deixadas por outros povos que os antecederam.

 

Àquela altura da manhã, ainda fria nesse início de primavera, já lá iam ter alguns forasteiros, dentre os quais as pessoas bem pobres de aldeias da região. Vinham todos sedentos de encontrar saúde nas águas das Caldas e, assim, tentarem se livrar dos reumatismos; doenças do estômago, fígado, intestinos; diabetes; gota; obesidade; hipertensão arterial; e o mais das mazelas que, como diziam àquela época, a hídrica medicina tinha as bênçãos de curar.

 

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  Fotografia de arquivo do Blog Chaves Antiga

 

Ao ver a jovem assim, como que perdida e assustada, o ilustre e dedicado médico das termas, doutor Guimarães, fixou-lhe, de imediato, um olhar de censura e estranheza – Que fazes tu aqui, a esta hora, ó menina, com esse frio de magoar os ossos? E ainda mais a andares por aí assim, sozinha, o que nunca há de ser bom a uma rapariga decente e de boa família, como a tua? – palavras que, para a atormentada Aurora, cortaram as fibras da alma. Ele prosseguiu – Mas estou cá a pensar com os meus botões: porque esses olhos de ovelha que vai ser sacrificada? Que há contigo, menina Bernardes? A que sacrifícios te querem levar?

 

Ao velho esculápio das termas, não aborreceu o silêncio da resposta. Apenas deu de ombros e lhe ofereceu um caneco com a famosa água a 70º C, comparável às de Ens ou Vichy – Bem, se não dizes o que tens, ninguém t’a pode acudir. Mas quem sabe, menina, se este precioso líquido não poderá curar-te das dores do coração? – e ela bebeu a água escaldante, a pensar se deveria pedir ao bom senhor os conselhos de que precisava. Quiçá pudesse ele medicá-la e lhe trazer a cura para tão irremediável angústia; mas não, não podia confiar o seu segredo a ninguém, nem mesmo a quem tivesse algum dia jurado por Hipócrates.

 

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  Fotografia de arquivo do Blog Chaves Antiga

 

Foi dar ao Paço do Concelho e encontrou aberta a igreja da Misericórdia. Por tão mísera que Aurora se sentisse, aquela era a exata palavra de que necessitava. Ajoelhou-se e orou diante da arquitetura barroca de fins do século XVIII, com suas colunas contornadas em espiral, os belos painéis de azulejo, o retábulo de talha dourada no altar-mor e o teto representando a Visitação. Pensou em Cristo a clamar, agonizante – Ó Pai, perdoai os pecados do mundo!

 

Meditou, em seguida, sobre o sacrifício desse Cordeiro de Deus, para mitigar o sofrimento dos homens, embora muitos ganhem a vida fazendo maldade aos outros, enquanto outros continuem a comer o folar que o Diabo amassou – Porque será, meu Deus, porquê? Porque a carne é tão forte em seus apelos e tão fraca a nossa alma, em seu desvelo? – e não percebia que toda a beleza do ser humano consiste, em sua essência, na possibilidade de exercer o livre arbítrio; de poder controlar ou liberar os seus próprios demónios. A isto, porém, jamais poderia alcançar aquela pobre cabecinha de rapariga cristã.

 

Rezou então, de cor, a oração que, em miúda, Mamã lhe ensinara: “Oh meu divino Redentor, a Vós que certa vez, ao vos perguntar São Bernardo qual a dor maior que sofrestes e a mais desconhecida dos homens, sereno respondestes – Eu tinha uma chaga profunda no ombro sobre o qual carreguei a minha cruz, mas somente a ti, e só agora, estou a falar dessa ferida, mais dolorosa que as outras. Honra, pois, essa chaga e farei tudo o que por ela me pedires – a Vós, portanto, ó manso Cordeiro de Deus, esta que ora vos louva, apesar de ser uma criatura miserável e pecadora, também vos glorifica por essa chaga que dilacerou vossas carnes e desnudou os ossos de vosso ombro sagrado. Compadecida de vossa imensa aflição, rogo-vos, com a maior humildade, tende piedade de mim, perdoai os meus pecados, mandai imprimir em meu coração essa chaga oculta e todas as mais que vos mortificaram!”

 

Lembrou-se, então, de certa manhã, quando ela e os irmãos eram bem pequenos.

 

(continua)

 

fim-de-post

 

 

 

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