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CHAVES

Olhares sobre o "Reino Maravilhoso"

24
Ago16

Rua do Correio Velho

1600-(45123)

 

Como já muitas vezes o disse por aqui, sou um flaviense da veiga e até aos meus dez anos de idade eram raras as vezes que atravessava a ponte romana para pôr os pés na cidade, só mesmo em circunstâncias excecionais é que pisava a margem direita do Tâmega, como ter de ir às vacinas da Rua Direita, a uma ou outra consulta do Dr. Alcino quando uma gripe se apresentava mais teimosa e pronunciada ou, com a minha mãe, de visita a ex-vizinhos que se mudaram para a cidade, sem esquecer o exame da 4ª classe na Escola da Estação e inúmeras vezes que ia até à estação para “apanhar” o comboio para a terra do meu pai, mas para o comboio era como se não fosse à cidade, pois a breve passagem fazia-se pela Rua das Longras finda a qual pouco mais havia para além da Quinta dos Machados e da Escola Industrial.

 

Pela certa que todas as ruas das cidades têm montes de estórias para contar, mas uma coisa são as estórias contadas e outras aquelas em que nós fazemos parte dessas estórias, Pois se há rua da cidade com estórias vividas por mim, desde a infância, esta da imagem, a Rua do Correio Velho,  é uma delas, desde o ramos de flores de grelos que levei à Mimi, às brincadeiras com barco “elétrico” do Manel que não parava de dar voltas ao tanque do Baluarte, aos bons tempos do FAOJ, às primeiras vezes que pisei um palco nos Canários, aos petiscos do “Minhoto” na companhia do meu tio minhoto, e às sopas de cebola em finais de noites de farras memoráveis… é por todos estes registos que eternamente ficarão na memória que nutro um carinho especial por esta rua.

 

       

24
Ago16

Quente e Frio!

quente-frio-cabec

 

(...)

Aguardo com muita impaciência a sua resposta, e com toda a ilusão do mundo o seu «sim» de me aceitar como seu namorado.

Apaixonadamente e eternamente seu

Celestino”

 

VII

 

O Celestino queria fazer o 7º ano e seguir o Curso de Medicina, em Coimbra.

 

O Clementino queria fazer o 7º ano, seguir para a Academia Militar e especializar-se em Engenharia.

 

O Clementino tinha uma ligeira dificuldade na dissecação das «primas» rãs.

 

O Celestino tinha uma dificuldade ligeira com a Regra de Ruffini.

 

Na elaboração do relatório das Pesagens Simples ou Dupla o Celestino era mais «literário».

 

O Clementino exultou com a carta que acaba de ler e reler.

 

Disse:

 

- Vou fazer uma igual. Deixa-me copiar.

 

E, nas folhas do meio da Sebenta, donde as podia arrancar melhor, o Clementino copiou a carta do Celestino.

 

Na Segunda-feira, passaram pela ”Papelaria BRANCO” e compraram papel de carta, de quatro páginas por folha e envelopes, três conjuntos cada um.

 

Depois da ceia, reuniram-se na casa da “Rua do Rossio”, e cada um copiou a sua carta.

 

Na 3ª fª, assim como nem quer coisa, à saída da Aula de Filosofia, chamaram pela Adília e a Adélia, o que não foi assim tão difícil, pois eram inseparáveis.

 

Disseram às colegas que tinham «muita urgência» em falar com elas, e se, logo à tarde ou amanhã à tarde, podiam ir lanchar com eles à “GOMES VELHA”   -   sempre era um lugar mais sossegado e menos indiscreto que a “GOMES NOVA” ou a “ROSAS”, sublinharam.

 

À Adília, de “Românicas”, e à Adélia, de “Germânicas”, fartinhas de respirar o ar da «Bila», cheirou-lhes a romance, até porque «a vergonha faz corar a face», e, tratando-se de dois «bons rapazes», a Psicologia alertou-as mais para uma confissão de acanhamento do que uma confissão de culpa.

 

Ficou combinado para 5ª feira.

 

Às cinco da tarde, “TINO da Terra Quente” e o “TINO da Terra Fria” já estavam a guardar a mesa.

 

Desempoeiradas e sorridentes, A Adília de Vilarinho de Freires e a Adélia de Vilarinho do Tanha entraram na “GOMES VELHA” e sentaram-se junto dos colegas.

 

Um «jesuíta» para uma, um «mil-folhas» para a outra, dois «covilhetes» para os Rapazes; um «galão» para cada Menina, e uma “Laranjinha C” para um, e uma “Canada Dry” para outro.

 

A conversa já ia a mais que meio do «mil-folhas» quando a Adília disse em tom imperativo, mas com um risinho maroto:

 

- Bem, mas afinal qual é o segredo que quereis contar-nos!

 

A cara do “Rapaz da Terra Quente” e a cara do “Rapaz da Terra Fria” ficaram da cor da «Laranjinha C» e logo mudaram para a cor da tampa da “Canada Dry”.

 

                -Queríamos, cada um de nós, pedir-vos um favor, a cada uma de vós  - começou o Celestino.

 

E continuou:

 

- No domingo, conforme vós as duas destes conta (então porque é que nos piscastes os olhos e nos «mostrastes os dentes»?!), eu e o Clementino seguimos-vos desde a saída da missa.

 

Acontece que, no princípio das Aulas, estávamos «ambos dois» na “Real” quando demos de caras com as vossas amigas. Ficámos presos pelo beicinho, por elas. Só que não sabíamos quem eram, onde moravam, nem em que Escola andavam.

 

Descobrimos onde moravam.

 

Um dia, junto ao “S.Pedro”, ouvimos a uns gandulos da Escola Comercial e Industrial dizer, referindo-se a elas, que se chamavam “Lindas”. O galferro-mor até disse:

 

- Como são lindas as Lindas!  

 

Ficámos a saber que se chamavam “Lindas”.

 

O Clementino está tão apaixonado pela que usa o «lencinho de azul mais claro» que acorda muitas vezes de noite em sobressalto.

 

Eu estou tão perdido de amor pela que usa o «lencinho de azul mais escuro» que mal consigo dormir e fazer uma divisão de polinómios logo à primeira.

 

Ora, como sois duas colegas amigas e de confiança, queríamos que nos dissésseis o nome das vossas amigas e se podíeis fazer o favor de lhes entregar, a cada uma, uma carta de cada um de nós.

 

A Adília e a Adélia taparam a boca para sufocar as gargalhadas que estavam prestes a soar, e logo se recompuseram.

 

A Adélia serenou mais depressa e falou:

 

- Olhai, nós não somos nenhumas moças de recados, está bem?!

 

Bom, mas como tendes sido bons camaradas, gentis e educados, eu digo-vos o nome dessas «NORMALISTAS».

 

A do «lencinho de azul mais claro» chama-se Ermelinda; a do «lencinho de azul mais escuro», Carmelinda.

 

São irmãs gémeas. Vieram estudar para o Colégio “S. JOSÉ”, mais conhecido porCOLÉGIO das MENINAS”, em contraponto ao “Colégio da Boavista”, na Estação, mais conhecido como oCOLÉGIO DOS RAPAZES”!

 

Fizeram connosco o Exame do 2º Ano e depois o do 5º Ano. Agora andam na ESCOLA NORMAL.

 

Feita a pausa, todos aproveitaram para «molhar a palavra», com o «galão», a «Laranjinha C» e a «Canada Dry».

 

Com ar caridoso e tom de condescendência, a Adília, de Vilarinho de Freires, falou:

 

- ‘stá bem!

 

Eu levo a carta do «doutor» para a «lencinho de azul mais escuro», a Carmelinda!

 

- E eu entrego a carta do «tenente» à do «lencinho de azul mais claro», à Ermelinda, assegurou a Adélia.

 

Nas canetas de tinta permanente, “Pelikan”, compradas na “Papelaria BRANCO”, juntamente com tinteiro e tinta da mesma marca, depois de uma declaração de amor escrita em letra caligrafada, ainda restava tinta suficiente para se escrever o nome da amada na frente do envelope.

 

Comovidos, por dentro; coradinhos, que nem pimentos de Lebução, por fora; o “Rapaz da Terra Quente” e o “Rapaz da Terra Fria” escreveram o nome da do «lencinho de azul mais escuro», Carmelinda, e a do «lencinho de azul mais claro», Ermelinda, respectivamente.

 

Para não dar assim tanto nas vistas, A Adília e a Adélia combinaram fazer a entrega no Domingo, depois da Missa, e após uma introdução filosófica sobre a Teoria dos Sentimentos.

 

Um dos «TINOS» pagou a conta.

 

E os dois lá seguiram pela Rua Direita, a caminho de casa, com o coração mais amansado, mas as fontes ainda a latejarem.

 

VIII

 

As lições foram preparadas com mais serenidade e com mais entusiasmo.

Ambos se propuseram acrescentar...

 

(continua)

 

 

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