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CHAVES

Olhares sobre o "Reino Maravilhoso"

30
Ago16

Intermitências

800-intermitencias

 

O Arquipélago

 

 

Existe uma ilha onde devo chegar, mas desconheço-lhe o paradeiro. Sei da sua existência, mas nunca ninguém lá esteve para me indicar a direcção que devo seguir para encontrá-la. Desde que desconfio que ela seja o meu lugar neste mundo, procuro incessantemente o caminho para lá chegar.

 

Por enquanto, continuo a percorrer o arquipélago. Navego sem fim à vista, enfrento tempestades, sigo rotas erradas, por vezes naufrago e devo reconstruir outro barco, mas sei que não posso abandonar esta viagem e regressar ao porto seguro. À chegada, está o meu destino e a minha razão de ser.

 

O Arquipélago.jpg

  Ilha Terceira, Açores, Janeiro 2016 - Foto de Sandra Pereira

Esta ilha está dentro de mim mesmo. Esta ilha sou eu. Esse território é um mundo, o meu mundo, aquele onde sou. Alguns chegaram muito longe nas suas explorações, muitos ficaram às suas portas, a maioria desconhece que existe um território assim. Eu vagueio pelo arquipélago, sulcando cada onda com paciência. Em cada naufrágio, a minha fé é a minha única tábua de salvação. Desconheço o paradeiro da ilha onde devo chegar, nem sei se algum dia a alcançarei, mas já ter chegado a este arquipélago é a minha bonança.

 

Sandra Pereira

 

 

30
Ago16

Chaves D'Aurora

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 9 - GÉNESE.

 

Acabara de fazer quinze anos. Como era de costume na época, sua boa Mamã, cuja bondade se refletia nos olhos azuis, dos quais Aurora também herdara os seus, estivera a lhe falar apenas (e, tão somente, um migalho de conselhos e frases feitas) sobre o amor cristão e os deveres conjugais. Não muito mais, entretanto, do que a solene lengalenga dos curas aos noivos, nas cerimónias de casamento. Também lhe dissera de alguns cuidados de mulher para quando, sob as bênçãos da Santa Sé, a menina deixasse de ser donzela (o que, em muitos casos, ocorria sob a forma de um abençoado e sacrossanto estupro físico, psicológico e moral).

 

O que mais sabia Aurora de sexo e dos homens era apenas o que colhia em suas fugidas ao borralho, nas conversas com a sua ama Zefa de Pitões, ou com os chistes e as risadas safadinhas de Maria de Tourém, a volumosa cozinheira com peito de pombo. Isso causava horror a Aldenora, sua irmã, que se punha a tentar fazer intrigas com a mãe – Reparas, Mamã, que a Aurita não se dá ao respeito com pessoas de outra classe? Que ela vive a se meter entre graçolas com as criadas? Que ela e ela e ela...? – mas a mui generosa Florinda só fazia responder – Ora deixa estar, menina, tua irmã sabe muito bem o que faz. Cuida de ti, que dela cuidamos nós, eu, o Reis e – apontou para o alto – o Grande Pai de todos nós.

 

Aurora era só nem te ouço, nem te vejo, nem te sei, ante a língua ferina da irmã, cuja implicância ela de pronto esquecia, a plantar amores-perfeitos no jardim da Quinta.

 

De várias cores.

 

Apetecia-lhe mesmo era estar na cozinha, ao calor do braseiro, entre caçarolas, tachos de cobre, alguidares e utensílios da conhecida cerâmica negra de Vilar de Nantes. Lá ficava a ouvir as inesgotáveis histórias das aldeias do Barrosão. Agradava-lhe saber da festa de Mordomos, em Salto, ou das figuras de Fulipeiros no carnaval de Tourém. Punha-se a rir, com falso pejo e discreta excitação, mas também com alguma ingenuidade, dos ditos e provérbios da Zefa ou das adivinhas de Maria – “A pele da moça é dura, mais duro é quem n’a fura, entra o teso lá no mole, ficam os dois na dependura” – ou – “Maria Branca está estendida, Zé Bernardo anda por cima, enquanto Zé Bernardo bai e bem, Maria Branca aberto lo tem” – ou ainda – “Qual, é a coisa, qual é ela, sejam grandes ou miudinhos, é pelinho com pelinho e um peladinho no meio?” – respostas que, afinal, eram dadas entre rubores da menina e os risos lúbricos das criadas: o brinco na orelha, o tear, os olhos entre os cílios...

 

 

Foi justamente em companhia dessas bobas e atrapalhadas fadas-madrinhas, que a princesinha do Raio X conheceu o seu sapo, digo, seu príncipe encantado.

 

fim-de-post

 

 

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