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CHAVES

Olhares sobre o "Reino Maravilhoso"

06
Set16

Chaves D'Aurora

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10. HERNANDO.

 

 A primeira vez em que soubera de Hernando foi em julho de 1916. Papá estava a ler “O Flaviense” e comentou com Florinda que umas devotas senhoras, todas elas da elite social de Chaves, estavam a angariar prendas para um bazar da Liga de Instrução e Beneficência, cujo produto reverteria ao fundo de pensões para as famílias dos mobilizados na Grande Guerra.

 

O que de facto chamara a atenção de Reis é que, dentre os nomes constantes da imensa lista de doadores e respetivas doações, constava um tal de Hernando Camacho. Como não houvesse outros Camacho na Vila, ainda mais com esse prenome, só poderia ser mesmo ele, o filho mais novo da família de ciganos que morava em frente à Quinta, ao outro lado da rua.

 

Mamã perguntou, curiosa – E o que ele deu, de prenda? – Ora, pois, umas quinquilharias: “um frasco de perfume; uma caixa de pó d’arroz; dois harmónios para crianças; doze bandoletes; dois alfinetes fantasia “fixa-gravatas” e seis passadores para cabelo”. – Que belo gesto! Como pode um moço, tão criança ainda, acho que vai pelos dezoito a dezanove, não é, já estar assim, tão prestimoso e a colaborar com um bazar de caridade?! Deve ser um jovem de muito belo caráter!

 

Papá olhou para o jornal com desprezo, como se este representasse o cigano – Qual o quê, minha rica Menina! – ele a chamava assim, de Menina, na intimidade – Esse aí é uma bisca! Não vale a água que bebe! Essa generosidade toda... então não sabes? Há de ter alguns parentes e outros gajos de sua laia a lutar nessa guerra, que está a desgraçar nossos rapazes em terras d’ África, em defesa de nossas colónias contra os turcos e alemães. Ou então, o que é mais provável, está a se bandear para a filha de alguma dessas senhoras da Liga. Aquilo, nessa pouca idade, já é um marialva. Cachopa bonita em que ponha o sentido, pronto! Tanto faz saltar como correr, tem que ser dele. – Mas ele ainda é uma criança! – Que já faz criança! Eu é que não queria que me caísse de genro um valdevinos como aquele!

 

Aurita o viu pela primeira vez à janela da própria Quinta e logo se deixou ficar por ele em um louvar a Deus. Ainda que ele fosse baixinho e vivesse a tentar, com reforços nos saltos dos sapatos, sempre bem engraxados, uma estatura ao menos meã, não deixava o homenzinho de ser muito garboso. Contava com tantos e tais encantos que, apesar dos seus tenros anos, mas de esperta e bem vivida juventude, atraía as mulheres como abelhas ao pólen. Rosto bem desenhado, vaidoso, vestia-se muito bem. Negros e encaracolados cabelos, olhos insinuantes, um corpo bem formado de macho (mormente a noção de virilidade, para a jovem rapariga, ainda mais no que tangesse ao sexo, fosse apenas instintiva), tudo isso estava embalado em fatos de puro linho e, ao pescoço, lenços de seda de Macau.

 

O rapaz, até então, nem parecia perceber a existência de Aurora, uma gajina que mal deixara de ser miúda, mas já era bem fornida de rendas e prendas da Natureza. Chegaram até a se cruzar algumas vezes na rua, quando os Bernardes iam à Missa, mas era apenas ao pai da menina que ele erguia o chapéu, como a dizer bom-dia, o que significava uma extensão do cumprimento a todos os mais da comitiva. Só muito tempo mais tarde, Aurora saberia, pelo próprio gitano, que, desde o primeiro instante em que a viu, ela já ficara emoldurada para sempre entre os olhos de lince do rapaz.

 

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Hernando Camacho era o filho mais novo de um clã de ciganos fixos e abastados, descendentes daqueles que vieram morar em Chaves, há mais de um século, quando resolveram abandonar a vida nómada e se tornaram cidadãos lusitanos. Moravam em frente à Quinta, em um casarão cuja frontaria constava de uma porta em baixo e dois janelões acima. Haviam construído, aos fundos do prédio, várias casitas que funcionavam, então, como um tipo de habitação coletiva, alugadas pelo pai, Germano Camacho, a outros ciganos mais pobres.

 

O patriarca progredia no comércio com uma loja à Rua do Sabugueiro, na Madalena. Situada ao lado esquerdo do Tâmega, próxima ao Raio X, esta parte da urbe era então um grande centro de atividade comercial, a rivalizar com o núcleo histórico da cidade. A Casa Camacho atendia às camadas mais populares de Trás-os-Montes, especialmente os habitantes das aldeias da região, a vender artigos agrícolas, pecuários e outros similares do meio rural, incluindo selas e estribos para os equinos. Germano jamais abandonara, todavia, sua atividade preferida, a criação e venda de cavalos, ramo de seu comércio original. Tal como os seus antepassados já o faziam, há várias gerações, ele continuava a se dedicar a esse mister com a ajuda de Hernando, sempre com ótimos resultados.

 

Ainda que tratados com urbanidade pelos cidadãos de Chaves, os Camacho sabiam que, às suas costas, permanecia o discreto, mas ancestral preconceito, esse mal lastimável que iguala todos de um grupo social nos mexidos de um só caldeirão. Em outros tempos, na maior parte dos países europeus, como também ocorria com os judeus, a intolerância levara muitos ciganos às galés, degredos, masmorras, castigos, pogroms, fogueiras, interdições de residência, em tantos e tristes eventos milenares. Tal viria a se repetir, algumas décadas depois, na Guerra Civil Espanhola e nos campos de concentração nazistas, quando, juntamente com outras minorias, milhares de gitanos foram dizimados.

 

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