O Factor Humano

E se os incêndios fossem uma oportunidade?
E de novo os incêndios. Extensos, trágicos, destruidores. De Norte a Sul, do Continente às Ilhas. Muitos, também no Alto Tâmega, alguns de enorme dimensão.
Para que não restem dúvidas, da “mão criminosa”, dia 9 de Setembro, houve 4 focos de incêndio, os últimos já à noite, numa mesma zona do nosso concelho. Impossível que não sejam actos deliberados, criminosos.
É verdade que nos últimos anos, sempre que o verão é mais impiedoso e as ondas de calor se prolongam e sucedem, Portugal arde, literalmente.
De tudo se fala, das causas, dos interesses envolvidos, da prevenção, das estratégias erradas do combate aos fogos.

É importante arrumar as ideias.
Em primeiro lugar, o prolongar da estiagem e as mudanças climatéricas, são condições importantes na incidência e extensão dos fogos. Mas isso não explica porque ardemos mais do que o resto do Sul da Europa.
Depois a mistura explosiva da monocultura, dos pinheiros ou dos eucaliptos, com o abandono das terras e o despovoamento do interior do País.
Vamos ao primeiro aspecto e recordemos os escritores. O grande Aquilino Ribeiro, com a sua obra magistral “Quando os lobos uivam”, onde conta o conflito entre os povos, compartes dos baldios e o regime fascista, que impôs a monocultura extensiva do pinheiro na região centro do país. Mas também José Carlos Barros, no seu livro “O prazer e o tédio” onde aborda o mesmo processo de imposição, ecologicamente trágica, da monocultura do pinheiro na nossa região.

Menosprezaram-se as culturas florestais autóctones em nome do lucro imediato, sem visão e sem respeito pelos interesses da região e do País.
Veio depois o eucalipto, promovido pelas grandes empresas de pasta de papel, importado da Austrália e que tem vindo a substituir o pinheiro em muitas regiões. Ambas as árvores ardem como se fossem recheadas de gasolina. Ambas, antes de arderem, já secaram tudo à sua volta. Até as aves, delas fogem.
O abandono é um processo complexo, que reflecte a incapacidade do País e dos seus governos, em entenderem a importância do ordenamento e da ocupação do território. A miséria e a falta de perspectivas despovoaram o interior do país. A ausência de estratégias para o aproveitamento das riquezas nacionais leva a que não se aproveitem os nossos recursos. Os matos e as madeiras acumulam-se, não são limpos, nem aproveitados. Apenas servem como combustível para os incêndios.

Depois, as apostas dos sucessivos governos, sempre voltados mais para o combate do que para a prevenção dos incêndios. E vem o negócio privado do combate aos fogos.
Não seria bem mais útil para o país criar emprego nas tarefas de prevenção dos fogos? Ecologicamente não seria mais rentável? Humanamente não seria mais digno?
Portugal e a nossa região vão ardendo. Ficamos mais pobres, mais tristes, mais deprimidos. Há mortos, queimados, tragédias familiares e individuais, miséria. Também há solidariedades, abnegação, coragem, heroísmo.
Bombeiros voluntários e profissionais, com uma dedicação que o poder tende rapidamente a esquecer, quando termina a época dos incêndios.

Mas o bonito, o inteligente, o que corresponderia a uma estratégia nacional, era termos o rasgo e a visão de futuro de aproveitarmos a oportunidade destas tragédias e lançarmos um plano ambicioso de reconstituição da nossa floresta autóctone. De carvalhos, de castanheiros e de todos as árvores que sempre foram as nossas e, como tal, estão adaptadas ao território e resistem muito melhor aos incêndios. A médio e longo prazo representariam uma riqueza muito maior.
Era útil que uma parte dos fundos do quadro europeu comunitário 2020, pudesse ser utilizada nestes projectos de reconstituição da nossa floresta tradicional.
E se os incêndios fosse uma oportunidade?
Manuel Cunha (Pité)


