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CHAVES

Olhares sobre o "Reino Maravilhoso"

23
Set16

Discursos Sobre a Cidade - Por Gil Santos

GIL

 

O CARABUNHAS

 

O Carabunhas, nomeada pela qual era conhecido o prior do Planalto, foi dizer a missa de domingo de Lázaro manco de uma pata, como dizia o Nano da Carregal!

 

─ O que lhe teria assucedido? ─ Inquietavam-se os paroquianos que há muito se intrigavam, alguns invejosos, com as noites atribuladas do clérigo.

 

Mas comecemos por tresontonte!

 

O Carabunhas, de nome próprio Babiano Zebedeu, nasceu, pelos anos trinta, algures no Brunheiro. Pobre que nem Jó, era filho da crujidade! Sua progenitora, cabaneira, foi mãe solteira, sabe ela e Deus de que semente! Diz-se, à boca pequena, que só conhecera um homem na vida e que lhe guardara fidelidade eterna nas touças da Galgueira! E a verdade é que depois daquela gravidez acidental nunca mais alcançou, nem daquele, nem de qualquer outro. O segredo, guardou-o tão bem, que nunca o Zebedeu soube o nome do espermatozoide que o gerou. Também, tanto se lhe dava. Mas, se me permitem uma inconfidência, eu acho que ele desconfiava, mas preferia ignorar. Na sua filiação legal constava paternidade incógnita. Contudo, se os registos se dessem a outras oportunidades e, em vez do pai, perguntassem pelo padrinho, já constaria em nome próprio o de Adalsindo Bota e Meia, pároco da freguesia!

 

O Adalsindo acarinhava o raparigo como se fosse seu filho legítimo. Logo que o achou capaz de pegar na galheta, botou-o a sacristão. O Babiano dava tanto jeito ao ofício que depressa convenceu o padrinho a fazê-lo padre. O velhote anuiu, pensando na sua substituição.

 

Assim, mal concluiu a 4ª classe, em Adães, na escola do mestre Matos, o vigário, a suas expensas, espetou com ele no seminário de Vila Real, às ordens do Reitor Libânio Borges.

 

Durante os anos que levou para ser padre, não caçou uma única raposa. Já marmanjote, durante as férias grandes, substituía o prior com a perfeição de um futuro mestre nas lides da igreja.

 

A sua mãe andava toda croncha com o rapaz.

 

E com razão!

 

O filho haveria de ser o amparo na sua velhice, do corpo, mas sobretudo da alma. Em nada se arrependera de provar a fragância da maia piorneira pelas poulas do Belão! Bendito o pólen que lhe inchou o ventre! E bendita a ajuda do Criador na geração daquele rapaz, que era a menina dos seus olhos!

 

O gaiato teve uma infância livre e farta. Cresceu escorreito, sem fome e sem frio. Abençoado pelo padrinho, fez-se homem em três tempos.

 

Ainda havia de dar muito que falar o sacripanta!

 

Foi o único a estudar em toda a freguesia, para inveja dos filhos dos lavradores mais abastados que se obrigaram à rabiça do arado, mal concluíram os estudos primários.

 

O Babiano era conhecido pela alcunha de Carabunhas porque quando frequentava a escola do professor Matos, levava os bolsos atulhados de carabunhas de azeitona para fustigar as orelhas dos parceiros com uma fisga de elásticos, quando apanhasse o professor distraído. Era um vício excomungado que lhe valeu muita porradinha. Mas valia a pena só para ver os abanos dos parceiros como cerejas! Ficou-lhe a nomeada. E até nem o desgostava!

 

Rezou missa nova na vetusta românica de Santa Leocádia, num verão de meados dos anos cinquenta. À cerimónia ajudaram quantos padres havia nas redondezas e eram muitos! O repasto foi no Lameiro Grande e para toda a freguesia. Meteu três recos no espeto e uma vitela no forno.

 

Foi até lhe chegar com um dedo!

 

Bem, só para os doces, não chegou meia camioneta do Semeão de Carrazedo para transporte do açúcar amarelo!

 

E vinho foram para aí duas pipas!

 

Depois da missa nova do afilhado, poucos anos mais durou o velho Bota e Meia. Bateu a caçoleta feliz por se saber bem continuado. E, de facto, o afilhado saiu-lhe melhor do que a encomenda! Dizem que quem sai aos seus não degenera e este galho não renegou o tronco que o fez!

 

Mulher que se lhe arreganhasse na sacristia cheirava o fanenco!

 

Era certinho!

 

Tanto se lhe dava que fosse solteira, casada ou viúva, era tudo a eito!

 

E mais não digo que me envergonho!..

 

O seu carocha conhecia de cor o recôndito de todos os lugares do Planalto e tanto dormia num palheiro de Vale do Galo, como no Prado do Carregal. E, à medida que o tempo passava, mais desavergonhado ficava o presbítero. O cuidado que a alma penada das suas ovelhas merecia, justificava a azáfama das diferentes pernoitas. Dizia-se à boca cheia, sobretudo no mundo insondável do mulherio, que eido onde o padre poisasse não havia diabo que penetrasse! E com alguma razão, pois dois corpos não podem ocupar o mesmo espaço, ao mesmo tempo, como dizia o físico! As viúvas, por exemplo, eram as que acreditavam mais piamente nas capacidades curativas do prior, sobretudo as que, em casadas, não tiveram vida que se recomendasse!

 

O homem era levado do catano! Só quem o conheceu!..

 

Claro está que, nos primeiros anos, o povo ainda lhe foi topando graça, mas, à medida que lhe foi medrando o território, os homens começaram a passar, progressivamente, do estado de inveja ao de inquietação.

 

─ Lá que exorcize os diabos das outras, ainda vá que não vá, mas os da minha toco-os eu a bober! ─ Dizia o Beiças, e com razão!..

 

Não demorou muito que a porca torcesse o rabo!

 

Dois dos mais afoitos jovens de Adães prepararam-lhe a estrangeirinha! Apanhassem-no na casa da viúva Cremilda que o haviam de cozer!

 

A casa da Cremilda estava construída numa ladeira. Tinha uma porta única, carral, que dava para um grande pátio. Do lado mais fundo, uma varanda alta que dava para umas hortas nas traseiras. Quem entrasse e não quisesse sair pelo pátio só poderia fazê-lo pela janela da cozinha para a rua ou botando-se abaixo da varanda para a horta.

 

Estava uma noite gelada no Brunheiro! Céu estrelado em janeiro, era geada certa. E começava a esgalhar logo que o sol vencesse o Alvão.

 

Pelas oito, já noite escura, o Carabunhas estacionou o seu Volkswagen azul no largo da escola. Os tais, micaram-no e seguiram-lhe o rasto! O salafrário fora expurgar os diabos à Cremilda. Deixaram-no paramentar e deram-lhe tempo suficiente para que conferisse a penitência que prescrevera à paciente! Seriam umas onze, quando o Estanislau e o Geraldinho embeberam umas sacas velhas de sarapilheira em óleo queimado, para fingirem um incêndio sob a janela da cozinha da viúva, iluminada por uma ténue luz de candeia a petróleo. Um tocaria fogo às sacas e saltando aos gritos de fogo, bateria, em algazarra, na folha da porta carral do pátio, o outro tocaria o sino a rebate para juntar o povo. Com esta manobra esperavam pregar com o padre, de calças na mão, no meio do povo!

 

Contudo, o Carabunhas sabia mais com um olho aberto do que os marlantes com os seus quatro! Não deu parte de fraco, com a calma de um marialva, compôs-se, dirigiu-se à varanda e pulou para a horta. Contava que no final dos quatro metros encontrasse a terra fofa das pencas, porém esperava-o um seixo saliente que lhe ia quebrando o tornozelo. Foi Deus que lho salvou! Enquanto o povéu acudia ao fogo, o padre, cozido às sombras das paredes e entre suores frios e dores horríveis, arrastou-se até ao carro e pôs-se a milhas sem que ninguém o topasse.

 

No dia seguinte, era o domingo de Lázaro, penúltimo antes da Páscoa. O Carabunhas, não querendo dar o flanco, foi dizer a missa, sabe Deus como!

 

Que tinha escorregado nas putas das escaleiras com a geada!

 

Foi a melhor desculpa que encontrou para sossegar a passarinha das beatas mais curiosas.

 

Olha que nenhum homem foi capaz de lhe perguntar pelo sucedido!

 

Cala mureta!

 

Quiseram-no cozer mas quem se cozeu foram eles!

 

Pastor que é pastor, leva vantagem sobre o rebanho.

 

Pudera!

 

Sarado o tornozelo, repetiu-se a festa!..

 

─ Ai quem me dera ser padre! ─ Rezava o Alpoim, na desobriga dos domingos, encostado ao cipreste secular do adro da igreja de Santa Leocádia!..

 

Pois isso, é que naquele tempo valia mais ser padre do que ser doutor!...

 

Gil Santos

 

 

 

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