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CHAVES

Olhares sobre o "Reino Maravilhoso"

11
Out16

Momentos que esperam por nós

1600-pisoes (204)

 

Confesso que me dá gozo andar por aí à caça de imagens, mas ainda me dá mais gozo trabalhar as imagens a meu gosto. Enquanto as trabalho, os meus pensamentos andam por aí em liberdade. Por exemplo enquanto tratava a imagem de hoje, entraram nos meus pensamentos os passos telúricos de Torga e um poema seu intitulado “Pânico” que passo a transcrever:

 

Pânico

 

Olho, aterrado, a grande mesa posta.

Quem presumiu em mim fome tamanha?

Todo o maná sagrado da montanha

Servido lautamente

A um só conviva!

À luz do sol–poente,

Numa quase agressiva

Pressa de comunhão, as penedias

São raras iguarias

Dum banquete irreal

De que sou comensal

Apenas eu…

Como se um pigmeu

Pudesse devorar num breve instante

A refeição eterna dum gingante!

 

Palavras que levaram-me até ao meu amigo que não gosta do Torga,  que pela certa também não gosta da imagem de hoje, tudo, porque penso eu, a imagem fica bem com este poema e o contrário também, daí isso… ia eu pensando. Depois o pensamento já andava à procura de um possível título para a imagem que, por mais voltas que ele desse, ficava sempre no “q.b.” o mesmo das receitas culinárias — Mas nunca ficar aquém do q.b. nem nunca ir além dele, acaba por ser uma chatice, daí tanto prezar as amizades que me desembargam a alma, embora às vezes, também elas precisem ou precisassem de ser apimentadas...

 

 

11
Out16

Chaves D'Aurora

1600-chavesdaurora

 

  1. MÁGICAS DESFEITAS.

 

Ao pé da lareira, no entanto, Reis havia de cumprir o seu papel de provedor e chefe do clã, a impor as ordens que ele julgava necessárias para o bem-estar da família, da tradição e da propriedade. Pediu a Aurita que passasse à sala de jantar. Mandou-a sentar-se à cabeceira da mesa de nogueira, onde a família reunia-se para o repasto, agora vazia, enorme. Postou-se à outra extremidade, onde sempre se havia bem em seu trono de patriarca e acendeu um havano especial, dentre os que lhe trouxera de Cuba o seu amigo Gonzaga Sarmento.

 

Fez uns séculos e séculos de silêncio e, enfim, dirigiu à filha as palavras que, segundo ele, precisavam ser ditas. Esta, com os olhos baixos a se fixarem nos bordados da rica toalha da Madeira, estava a se fazer e desfazer em mil ansiedades, sobre o que ele, afinal, ia dizer – Se bem conheço, menina Aurora, há de morar pela Estrada do Raio X apenas um gajo que conhece bem dessas artes, pois que andou uns tempos a malandrar com os circos que vêm e vão para a Espanha. E muito me entristece, ao teu pai, ficares assim... – Calou-se em longa pausa e ela, depois de algum tempo, sem erguer os olhos, balbuciou – Assim como, meu pai? – e o chefe do clã prosseguiu, a um tom mais irritado – Ora, pois, não vês? Ficares por aí assim, de namorico, às ocultas, com esse tipo que te não merece.

 

Dirigiu-se com Aurora até ao quarto do casal, diante do oratório de jacarandá, belíssima peça de artesanato de quase um metro de altura, oriundo de alguma antiga fazenda das Minas Gerais e que ele, quando ainda estava ao norte do Brasil, comprara de um vendedor ambulante. Pegou, no interior do oratório, um belo crucifixo com a imagem em pedra-sabão e as hastes de madeira esculpidas em filigrana. Nele se venerava o Filho de Deus, entre uma Virgem de louça e um Santo António de madeira. Mostrou à filha a face de Cristo, moribundo e sofredor, que revelava todo o esmero de algum discípulo do célebre Aleijadinho, no ato de esculpir. Fez a jovem rapariga ajoelhar-se e jurar, pelo Pai, pelo Filho e pelo Santo Espírito, que nunca mais haveria de se encontrar com o senhor Hernando.

 

Aurora engoliu em seco o seu pranto e desencanto – Assim seja. Amém! – mas ah se o Papá escutasse o verdadeiro som, que lhe vinha do coração: Assim na terra como nos céus, o céu de Chaves ou de qualquer outro rincão onde eu, junto com esse amor que me palpita além do peito e além de mim, e o senhor quer fenecido, antes mesmo de vê-lo florir, aos poucos e a cada dia, estarei a fenecer.

 

Aproveitando-se de que o Papá já fora dormir, Aurita conseguiu, a muito custo, que a Zefa de Pitões, após relutar bastante, alcançasse o cigano naquela noite mesma e que o rapaz lhe viesse ter, pelo lado de fora da quinta, justo ao ponto no qual uma figueira se alinhava bem ao muro lateral, próximo à escada que descia para os fundos da casa. A se valer dos ombros da pobre ama, a menina subiu à árvore e se debruçou sobre o cercado de pedra. Em baixo, já lá estava o seu Romeu.

 

Sem cantos de cotovia nem rouxinol, após derramar sobre o rapaz todas as lágrimas que ainda pudesse verter, Julieta falou-lhe dos últimos sucessos (ou pior, dos insucessos). Que o instante, aquele, era o último de sua vida, a dela, da qual já não sabia mais o que fazer, nem a que rumos iria dar, mas que a sua alma era dele para sempre e os seus lábios agora só estavam ali para dizer, à moda de um cuco de Poe, desesperado por jamais conseguir ficar fora do relógio – Nunca mais! Nunca mais! Nunca mais!

 

fim-de-post

 

 

 

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