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CHAVES

Olhares sobre o "Reino Maravilhoso"

01
Nov16

A Feira dos Santos e o Concurso de Gado

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Até há uns trinta e tal anos atrás nos três dias tradicionais de feira, no dia 30 de outubro realizava-se a feira da lã, no dia 31 a feira do gado e no 1 de novembro aquela que nós apelidávamos de feira dos espanhóis. Feira da lã onde era costume negociar a roupa de inverno com destaque especial para as mantas de lá, onde eram famosas as mantas de Soutelo. No dia 31 negociava-se todo o tipo de gado e animais (bois, ovelhas, cabras, cavalos, burros, porcos, coelhos, aves de galinheiro e até cães e furões, entre outros). O dia 1 de novembro era conhecido como sendo a feira dos espanhóis pela quantidade de espanhóis que nesse dia vinham à feira, aproveitando o facto de nesse dia ser também feriado em Espanha.

 

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Hoje em dia a feira da lã já não se realiza, mas mantém-se a feira do gado e mais recentemente também o concurso de bovinos no dia 31 de outubro, continuando também o dia 1 de novembro a receber um elevado número de espanhóis, ou melhor, de galegos das proximidades de Chaves. 

 

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No post de hoje vamos abordar apenas o dia 31 de outubro e o concurso de gado, ficando de fora a feira do gado, isto porque desde que a feira e o concurso se realizam em locais diferentes, apenas podemos estar num dos locais, pelo que temos optado pelo concurso do gado. Separação que segundo dizem se deve à Lei vigente, mas penso que não será bem assim, pois se o concurso se pode realizar  no fosso do Forte de S.Neutel, creio que a feira também se poderia realizar nas proximidades onde antigamente se realizava, e mesmo que a Lei a tal obrigue, penso que a título exceção e evocando a força da tradição, poderia ser realizada junto ao concurso.

 

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Quanto ao concurso entram nele as raças autóctones do Norte de Portugal localizadas a Norte do Rio Douro e que são apenas três, a Raça Barrosa, a Raça Maronesa e a Raça Mirandesa, que pelo próprio nome conseguimos localizar o solar de cada raça, ou seja o Barroso, o Marão e Miranda do Douro, isto teoricamente, pois na realidade não é bem assim, por exemplo a Raça Barrosa está mais instalada no Minho que propriamente no Barroso, onde neste só começa a aparecer na metade Poente do Barroso como na freguesia de Salto, Serra do Geres e parte da Serra do Barroso, mas nem há como consultar o mapa que fica a seguir para ver o seu território.

 

mapa bovinos.JPG

 

Confesso-me leigo nesta matéria das raças, mas alguma coisa fui aprendendo ao longo da vida.

 

Em miúdo quando ia para aldeia do meu pai, Parada do Corgo (ou Aguiar) no concelho de Vila Pouca de Aguiar, onde os tratores ainda não existiam e o trabalho da terra era feito com vacas. Desde o remover a terra, lavrar e arar mas também o transporte de mercadorias em carros de bois. Recordo que as vacas eram todas mais ou menos iguais e apenas diferiam na cor. Aliás, em geral eram conhecidas e tratadas por “amarela”, “preta” ou “Castanha”. Com esta coisa de ao longo dos anos ir ao concurso do gado fui aprendendo que a cor também tem a ver com a raça e, pelo menos no concurso da Feira dos Santos já sei distinguir as três raças em concurso. A raça Barrosã, a mais fácil de identificar, reconheço-a pelos grandes cornos (cujas pontas chegam a distar em 2 metros uma da outra) e a cor é um amarelo avermelhado). A Mirandesa é maioritariamente amarela a fugir para o café com leite, com partes que têm mais café que leite. A Maronesa é de cor preta, ou quase, pois são de um castanho muito escuro e brilhante. Mas esta é a minha identificação. Assim, nem há como deixar aqui as características de cada raça, dadas por quem sabe ou estudou o assunto, pelo que lanço mão de uma tese de mestrado que encontrei na NET, de Isabel Maria de Bessa Soares Monteiro de Carvalho, intitulada “CARACTERIZAÇÃO GENÉTICA DE RAÇAS BOVINAS AUTÓCTONES PORTUGUESAS - Estudo de polimorfismos proteicos e microssatélites” apresentada  à Faculdade de Ciências da Universidade do Porto no ano 2000, que passo a citar:

 

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RAÇA BARROSÃ

 

É uma raça que vive sobretudo em zonas montanhosas, na Serra do Barroso, abrangendo os actuais concelhos de Montalegre, Boticas, Vieira do Minho e Cabeceiras de Basto. Esta região não possui condições agro-alimentares que permitam grandes explorações agrícolas, pelo que uma parte da população se dedica à criação do gado (GARCIA et ai, 1981)[i]. O bovino Barrosão é utilizado essencialmente como força de trabalho e na produção de carne de excelente qualidade. Trata-se de um animal que apresenta uma estatura mediana, com 121-130 cm de altura à cernelha e pelagem de cor castanha que varia entre a cor palha até cor acerejada (LEAL, 1995)[ii]. A cabeça é curta e larga, encimada por uma cornamenta em forma de lira alta; os cornos são muito compridos e espessos, de cor branca suja, com pontas escuras; o conjunto ocular é saliente; os membros são curtos e poucos ossudos, o pescoço é curto, bem ligado à cabeça e com garrote largo (MARTINS, 1982)[iii].

 

É uma raça com caracteres sexuais secundários bem diferenciados. Os touros são sempre mais escuros, particularmente no terço anterior. Possuem uma maior corpulência

 

em relação às fêmeas, um tronco mais robusto, barbela mais desenvolvida, cabeça mais curta e mais larga, cornos mais grossos mas mais curtos (GARCIA et ai, 1981). A reprodução é efectuada, principalmente, em postos de cobrição

 

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RAÇA MARONESA

 

O bovino Maronês tem como área natural de criação as serras do Alvão, Marão e Padrela. Possui uma extraordinária rusticidade e um poder de adaptação a terrenos mais ásperos e acidentados onde a mecanização não consegue ter lugar. Este facto torna a sua presença indispensável para a realização dos diferentes trabalhos das explorações locais. É um produtor de carne de excelente qualidade e, além disso, no primeiro mês de criação, produz leite que excede quase sempre as necessidades da cria (LEITÃO, 1981b)[iv].

 

Caracteriza-se por ter uma pequena corpulência, regular conformação, linha dorso lombar direita. Possui uma pelagem de cor castanha escura. A cabeça é pequena, seca e bem expressiva, perfil côncavo, sendo este mais evidenciado devido à saliência das protuberâncias orbitarias, os cornos de inserção média, são delgados, lisos, de cor branco sujo e pontas escuras. Os membros são fortes e apresentam no conjunto aprumos relativamente correctos (LEITÃO, 1981b). O touro apresenta acentuado dimorfismo na cabeça, que é mais compacta e menos recortada, de pelagem mais escura do que nas fêmeas. A reprodução da Maronesa é efectuada por cobrição natural, existindo geralmente um touro por cada posto de cobrição. Os criadores desta raça possuem pequenas propriedades onde têm duas a cinco cabeças.

 

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RAÇA MIRANDESA

 

A região solar da raça Mirandesa situa-se no concelho de Miranda do Douro, de onde irradia para os concelhos de Vimioso, Mogadouro, Bragança, Vinhais e Macedo de Cavaleiros. Terá sido, no passado, a raça portuguesa que mais se expandiu, invadindo as Beiras e chegando mesmo a penetrar no Alentejo. No entanto, o advento da tracção mecânica e a importação de raças exóticas mais produtivas do que a Mirandesa levaram ao declínio desta raça, que subsiste, actualmente, apenas em regiões onde o manuseamento das máquinas é praticamente impossível (FERNANDES, 1996)[v]. A exploração desta raça visa a produção de carne e trabalho. Neste momento, a recria de machos está a ser orientada no sentido da produção de novilhos para abate.

 

Esta raça caracteriza-se por possuir animais de grande corpulência, compridos, largos, bem musculados, de linha dorso-lombar quase horizontal, de terço posterior desenvolvido e de membros de comprimento mediano. A pelagem é castanha, escurecendo nas extremidades. Os machos são mais escuros do que as fêmeas e as crias têm coloração castanho-claro. Possui uma boa capacidade maternal (LEITÃO et ah, 1981a).

 

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Nos últimos anos o concurso do gado também foi aberto ao Porco de Raça Bísara e às Ovelhas de Raça Churra Galega Bragançana, mas essas ficam para outra oportunidade. Hoje ficam os bois e as vacas.

 

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[i] GARCIA, ML; ROSÁRIO, J.; ANTUNES, M. (1981). Bovinos em Portugal. Direcção dos Serviços Veterinários - D.G.S.V.. Lisboa. 44-78.

[ii] LEAL, C. (1995). Apreciação Fenotípica de um Núcleo de Bovinos de Raça Barrosã e Amostragem Para sua Caracterização Genética. Relatório de estágio de licenciatura em Biologia - Ramo Científico Tecnológico em Ecologia e Recursos Zoológicos. Faculdade de Ciências da Universidade do Porto.

[iii] MARTINS, R. (1982). Conservação e melhoramento dos bovinos de raça Barrosã. Relatório de estágio de licenciatura em Produção Animal. Instituto Universitário de Trás-os-Montes e Alto Douro.

[iv] LEITÃO (1981b). Bovinos em Portugal. Direcção dos Serviços Veterinários - D.G.S.V., Lisboa.: 101-127.

[v] FERNANDES, M.T.S. (1996). Raças de bovinos autóctones. Um importante recurso genético animal português a preservar e a defender. Veterinária Técnica. 12: 10-15.

 

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