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CHAVES

Olhares sobre o "Reino Maravilhoso"

16
Nov16

Quente e Frio!

quente-frio-cabec

 

(...)

Na 6ª fª, à tarde, os pais das “Lindas” chegariam à cidade com o «carocha».

 

XX

O “TINO da TERRA QUENTE” partiu para Coimbra.

 

Encontrou-se algumas vezes com as estudantes de “Românicase de “Germânicas”.

 

Desta última vez, o «doutor», a «latina» e a «alemã» lanchavam, com boa disposição, na «Briosa».

 

A dada altura, a Adília disse:

 

- Sabes TINO, hoje vou revelar-te um grande segredo.

 

Pausa táctica da Adília.

 

Enrugar da testa e franzir do sobrolho do ”Rapaz da Terra Quente”, e riso maroto da Adília.

 

- Desembucha! – ordenou, já impaciente com a pausa, o Celestino.

 

A Adília olhou para a Adélia e, inclinando-se para o colega, segredou-lhe:

 

- A Adélia ficou caidinha pelo Clementino logo no primeiro dia de aulas de Psicologia!

 

O «songa» nunca deu conta.

 

Depois, a carta para a Ermelinda desanimou-a.

 

- -  Muito me contas, Adília! É mesmo verdade, Adélia?!  - pergunta o  TINO.

 

A Adélia pôs-lhe uma mão no braço, puxou-o um cibinho para si, e disse:

 

- - - Então agora vou eu fazer uma revelação!

 

E vais prestar muita atenção às minhas palavras, meu «pamonha»!

 

Nem queiram saber a cara de caso, de intrigado, com que ficou o «doutor»!

 

A Adélia olhou para a Adília e, inclinando-se para o colega, segredou-lhe:

 

- - - A Adília ficou apaixonada por ti, logo na primeira aula de Psicologia!

 

A RAPARIGA de Vilarinho de Freires baixou a cabeça, mas espreitou a expressão dos olhos e da cara do TINO.

 

Gelou-se-lhe o sangue nas veias, ao “Rapaz da Terra Quente”.

 

 O espanto deixou-o como à «estátua de sal»!

 

A Adília refez-se.

 

E falou:

 

- Olha, Tino, eu e a Adélia combinámos falar-te destes segredos hoje.

 

Um segredo era dela. O outro era meu.

 

Mas nós as duas temos um segredo comum que queremos que o conheças.

 

A Adília fez uma pausa.

 

Olhou opara a Adélia, que fez um sinal de assentimento.

 

Continuou:

- Tu e o Clementino pediram-nos para entregarmos as vossas «declarações de amor» às “Lindas”.

E entregámo-las.

 

Mas, aconteceu que, eu e a Adélia já éramos os dois segredos que acabaste de saber.

 

Os vossos envelopes iam abertos.

 

À nossa amargura juntou-se a curiosidade de ler as vossas cartas.

 

Não te admires.

 

Compreende-nos e desculpa-nos: -  Nós trocámo-las!

 

Foi fácil, pois no papel de carta vós só escrevestes «Linda”. No rosto de cada envelope é que ia o nome inteiro de cada uma: Carmelinda e Ermelinda, e que vós escrevestes na Pastelaria, quando vos dissemos o nome de cada uma delas!

 

Sede felizes!

 

O Celestino, ouviu tudo em silêncio e na mesma postura estática em que o espanto o prostrara.

 

As RAPARIGAS «latina» e «alemã» levantaram-se da mesa, e sumiram-se.

 

O TINO despertou.

 

Pagou a conta.

 

Seguiu caminho para a “Ay-Ó-Linda”, enquanto repetia:

 

- razão tinha o meu padrinho quando, uns dias antes de eu ir para VILA REAL, ao meter-me uma «nota de cem» no bolso, me aconselhava:

 

- “nunca se diz a uma mulher que se gosta de outra”!

 

E eu que só agora me lembro disto!

 

Quase deitava tudo a perder, eu que sem a «LINDA» não sou nada nem ninguém!

 

O “TINO da TERRA FRIA” partiu para Lisboa

Na Academia, o Clementino fez amizade com um cadete mais adiantado, natural da Beira Baixa e que de adiantado namoro andava com uma universitária do Alto Alentejo.

 

- Hoje vens comigo!  - disse-lhe o cadete da Beira Baixa.

 

-Vou ter com a Beatriz à «Suíça». Vou apresentar-te a um grupo de amigas e colegas da BIA.

 

Assim foi.

 

Os dois académicos militares, quando chegaram à «Suíça» tinham a esperá-los um grupinho de quatro graciosas cachopas.

 

A Beatriz levantou-se, cheia de alegria, cumprimentou o cadete Romeu com um beijinho e estendeu a mão ao TINO, ao mesmo temo que o amigo a apresentava:

 

- Esta é a minha Julieta, a BIA, cujo nome em Latim   -   Beatrix   -   significa «aquela que traz felicidade»!

 

Sorridente, a BIA completou a cerimónia das apresentações: estas são as minhas colegas e amigas Aida, Dulce e Deolinda   -  Linda, para os amigos.

 

Ao TINO pareceu-lhe fugir o tino.

 

Apreciou a conversa, a graça e a companhia do grupo.

 

Os encontros na «Suíça» foram - se repetindo, com a presença mais assídua da Deolinda.

 

Próximo das «FÉRIAS GRANDES» o TINO e a Deolinda já passeavam sozinhos, iam juntinhos ao cinema.

 

Deram conta gostarem um do outro.

 

Abraçaram-se.

 

- TINO! – suspirou ela

 

- linda! – gemeu ele.

 

Cobriram-se de beijos.

 

Descobriram o amor.

 

Naquelas «FÉRIAS GRANDES» o “TINO da TERRA FRIA” já não viajou pela Linha do Norte.

 

Com a linda do Baixo Alentejo, apanhou a Linha do Sul e, depois, seguiram para leste, para Santa Maria da Feira, Beja.

 

O “TINO da TERRA FRIA” tinha tropeçado com a linda e caiu-lhe em cima.

 

Iam encomendar-se a “Nossa Senhora ao pé da Cruz”, pedir-lhe que lhes deitasse a mão e abençoasse o «néné» que vinha a caminho.

 

Cumpridas as formalidades e obtida a autorização académica, lidos os banhos, foi uma cerimónia bonita, muito bem apadrinhada pela BIA e pelo Romeu.

 

O final do Curso de um e de outro ia - se aproximando.

 

Os TINOS estavam no último ano das Academias.

 

À “CASA da RAIA” e à Escola perto de casa só chegavam cartas de Coimbra.

 

A Rádio começou a ouvir-se «Angola é Nossa»!

 

CHAVES ia-se enchendo de soldados.

 

O TINO «doutor» foi chamado à Tropa. Deram-lhe uns dias para «ir à terra» e guia de marcha para embarcar no “Vera Cruz”, com destino a Angola.

 

vera cruz.jpg

 

A Carmelinda falou com a mãe, a mãe falou com o pai, e o “TINO da TERRA QUENTE” foi visitar o pai e a mãe da Carmelinda e prometer à «sua» linda que o casamento seria logo após o regresso do Ultramar.

 

O “TINO da TERRA FRIA” ingressou na Força Aérea.

 

Chegada a altura, foi mobilizado para Moçambique.

 

Militar de carreira, cumpriu várias «comissões de serviço». A subida de patentes ia acontecendo.

 

CP0105.jpg

 Fotografia propriedade de Humberto Ferreira (http://outeiroseco-aqi.blogs.sapo.pt/) 

 

Num Janeiro gelado, regressado do «Ultramar», feito o espólio no Quartel da Amadora, o Celestino apanhou a Linha do Norte, em Santa Apolónia, seguiu pela Linha do Douro até à RÉGUA. Atravessou o cais e entrou no comboio da LINHA do CORGO, que o levaria até CHAVES.

 

Na paragem na Estação de Vila Real, tornaram-se vivas as recordações de umas partidas para Férias.

 

Ao atravessar a Ponte de Curalha, abanou a cabeça e disse para si mesmo: -“Caramba! A viagem nunca mais chega ao fim!”

 

Na paragem da FONTE NOVA, olhou pelas “Avenidas”, apanhou a Ponte e adivinhou a “buvette” das Caldas.

 

cp0018.jpg

Fotografia propriedade de Humberto Ferreira (http://outeiroseco-aqi.blogs.sapo.pt/)

 

Mal o trem desfez a curva da Raposeira, pareceu-lhe ver, lá ao fundo, na Gare, alguém conhecido.

O comboio ia cada vez mais devagarinho.

 

O TINO sobressaltou-se quando o maquinista puxou o gatilho do apito do comboio e o assobio ecoou estridente.

 

Com um saco ao ombro e uma mala na mão, saltou do varandim, pôs a tralha no chão e correu a abraçar a «sua» linda.

 

Já estavam casados pelo Civil, pois atempadamente tratara, desde África, deste adiantamento.

 

Mas os costumes daquele tempo não consentiam mais que um xi-coração, demorado e apertadinho.

 

Os pais da Carmelinda e os pais do Celestino ficaram uns passos mais atrás. 

 

Uns e outros não cabiam em si de contentes.

 

Até o Ministério da Educação tinha dado autorização para a boda: não que o Decreto-Lei nº 27.279, de 24 de Novembro de 1936, tinha de ser respeitado!

 

No «VW carocha» seguiu a linda com os pais; no «Renault Gordini», com os pais, o TINO.

 

O destino era o mesmo: a “CASA da RAIA”, onde os esperava uma rica Ceia.

 

¥¥¥¥¥¥¥

 

De lustro em lustro, século XX chegou ao fim.

 

O século XXI já vai com 15 anos.

 

Dizem que os profetas entendiam o nº 15 como o propiciador de visões e revelações.

 

Naquela 3ª fª de 2 de Junho último, o “TINO da Terra Fria” resolveu ir ao CCB, assistir ao espectáculo do compositor belga Wim Mertens.

 

Passou pelo BAR Terraço, para espreitar, mais uma vez, o Rio, a Ponte, o Cristo-Rei e o Padrão dos DESCOBRIMENTOS.

 

De uma mesa acabava de se levantar um casal.

 

Aqueles traços daquela cara, aquele modo de andar, aquele «lencinho de azul mais claro»

provocaram-lhe um pequenino e tão forte estremecimento.

 

Seguiu-os com olhar discreto.

 

Sentiu um baque no coração.

 

As fontes latejaram.

 

Saiu.

 

Do automóvel que passou por si, um olhar partiu sereno ao encontro do seu.

 

Teve uma certeza.

 

Meteu-se no carro e foi para casa.

 

Abriu a porta com menos cuidado, algo precipitado.

 

Entrou na Sala-de-estar, onde se situava a sua Biblioteca e o «seu» BAR. Com gesto decidido, pegou num copo, com a mão esquerda, numa garrafa de whisky, com a direita.

 

Afundou-se no sofá.

 

Bebeu pela garrafa.

 

Guiou os olhos para o seu grande retrato colorido com as condecorações que lhe cobriam o peito.

 

A chaga do seu coração estava assim ainda mais encoberta.

 

Aquele olhar que do automóvel partiu sereno ao encontro do seu e o brilho daquele «lencinho de azul mais claro» tocaram-lhe na ferida.

 

Doeu-lhe até à alma.

 

Jamais conseguiu defender-se daquela própria verdade.

 

A esposa, solícita e discreta chegou à porta da Sala.

 

Olhou.

 

Encheu-se de pena.

 

- Maldita guerra!  - disse para dentro de si.

 

- Os traumas parecem surgir com mais força à medida que a idade avança! – falou consigo mesma.

 

Ia para se voltar quando ouviu um grito.

 

- - Não!   -  gritou o major-general da Força Aérea,

 

A infeliz companheira do general suspendeu o passo.

 

Parou.

 

Ficou sem respiração.

 

O copo continuava vazio, na mão esquerda.

 

O TINO «militar» emborcou mais uma boa golada de whisky.

 

- - Não foi a guerra que me pôs assim!  - berrou o “Rapaz da Terra Fria”.

 

Foi um estilhaço do tempo de paz!

 

Um rio de lágrimas correu pela cara da linda alentejana.

 

Fugiu para o seu quarto, com as mãos sobre o peito como que a querer agarrar o cabo de um punhal que acabasse de lhe ser espetado no coração.

 

No ano «15» do século XXI a profecia do número cumpriu-se!

 

 

Mozelos, 06 de Outubro de 2015

Luís Henrique Fernandes

 

 

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