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CHAVES

Olhares sobre o "Reino Maravilhoso"

18
Nov16

Palavras colhidas do Vento...

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Desconheço se tenho de apresentar a declaração do meu património ao regressar a estas “ Palavras…” que deixei suspensas há quatro anos por estes lados e precisamente num mês de Outubro. Palavras que o vento levou e agora o vento trouxe… e nesses tempos rodopiaram ao seu arbítrio e também descansaram no espírito de quem as colheu e soube delas fazer o melhor uso ou tão só a indiferença de quem as julgou de pouca ou nenhuma monta.

 

Sempre tive aberta a porta desta casa ao regresso e se não aconteceu mais cedo apenas se deveu à anarquia dos meus hábitos e não que faltassem motivos para escrever ou inesperadamente enfermasse do temível mal que por vezes ocorre a quem escreve de nada lhe ocorrer dizer e se ver reflectido numa folha vazia ou submerso nas muitas folhas amarrotadas ao seu redor.

 

Feita a apresentação e embora passado o dia de S. Martinho, é altura de cortar o manto ao meio, comer castanhas do magusto, entrar na adega e provar o vinho…

 

E quanto inesperado foi o meu São Martinho!

 

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 Senhor Manuel - Fotografia de Mário Esteves

 

Era o alvor e ainda estava na cama. Deu-me para ir à varanda ainda em pijama… na verdade fumar um cigarro. Eu sei que faz mal. Casualmente olhei para a rua e vi um vulto que me pareceu conhecido. Olhei com olhos de ver e dei com o Senhor Manuel à porta com o casaco de vir à cidade e com um grande saco.

 

Certamente já ali estaria a algum tempo e estava frio.

 

- Ó Senhor Manuel, tão cedo, não sabia tocar à campainha?

 

Desci as escadas à pressa, vesti-me atabalhoadamente e passei água pela cara. Abri a porta e o sorriso do Senhor Manuel deu-me as boas horas e murmurou algumas palavras a desculpar-se por me ter feito levantar da cama. Ele mal se ouve e é pessoa humilde e tímida.

 

Trazia-me um saco de castanhas…

 

Eu não sei que grandes préstimos lhe fiz para merecer tamanha dádiva… sim, conheço-o há bastante tempo, admiro-o como pessoa e artesão. Teria vindo no autocarro dos estudantes ou à boleia de um vizinho e não se esquecera de mim.

 

Disse que o fazia por amizade, que as castanhas eram pequenas e não as guardasse muito tempo e mais uma vez pedia desculpa se uma ou outra não fossem boas.

 

Senti-me assim sem jeito, comovido… e ele que é de poucas falas, deixou-me entre surpreendido e satisfeito… tinha que fazer umas comprinhas e quando me aprouvesse o visitasse, melhor ao domingo.

 

E amigo Manuel, agora posso dizer, as castanhas não eram bichosas… como receava, souberam ao mel que, de quando em vez me presenteia.

 

E agora vou falar de si… e do prazer que sinto na nossa amizade e saber da sua existência.

 

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 Fotografia de Mário Esteves

 

Conheci o Senhor Manuel, pastor, vivendo numa humilde casa com santos feitos de madeira espalhados por todo lado e recordo um Cristo enorme, que jazia por baixo do leito e que foi parar a uma igreja…

 

Desde muito cedo, se afeiçoou a talhar imagens religiosos de pequenos troncos de madeira que encontrava… com a navalha que servia para cortar o cibo de pão centeio e o presigo. Eram figuras pequenas, toscas… mas, alguém reconheceu o dom que as suas mãos tinham.

 

Recomendado por ilustres foi trabalhar para oficina afamada em Braga e aí ficou como aprendiz, mesa e cama garantidas e ainda uma pequena soldada.

 

Braga era terra grande, dada às artes religiosas. Armadores, santeiros, entalhadores… mas não era para o Manuel. Com saudades dos pais e da sua terra - a celebrada soidade dos trovadores - regressou à aldeia natal.

 

E muito mais tarde, por pessoas da mesma aldeia conheci-o.

 

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 Fotografia de Mário Esteves

E o que conheci, era um homem bom, um escultor de imagens religiosas do medievo, como se vêem nos pórticos das igrejas e catedrais da época.

 

Obras singelas, feitas com parco instrumental.

 

 Há anos numa edição da então Secretaria de Estado da Cultura, lá aparecia o Senhor Manuel, como um dos poucos verdadeiros artesãos de Trás-os-Montes.

 

Desde então, o esquecimento… edilidade e outras instituições oficiais ignoram-no… o Senhor Manuel é homem simples e telúrico e a sua arte é genuína, não é um empreendedor.

 

Oxalá, amigo Manuel, estas “Palavras…” fossem como as obras que saem das suas hábeis mãos…

 

Mário Esteves

 

 

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