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CHAVES

Olhares sobre o "Reino Maravilhoso"

23
Nov16

Cartas ao Comendador - 1

cartas-comenda

 

Meu caro Comendador (1)

 

 

Foi como se tivesse tido um cancro: tive de voltar a aprender a viver. Estou agora nos primeiros passos, a andar ainda, em parte, desequilibrado, mas a atingir já algum fim.

 

Comecei por pequenas caminhadas. Quando se aprende a andar em adulto, temos de ter mais cuidado porque sendo a massa maior, é também maior a gravidade e a haver queda, ela doerá certamente mais e com consequências piores!

 

Comprei uma cama mais alta de forma a poder dizer: levanto-me e fico logo de pé, às vezes o que custa é o elevar sem alavanca e assim tenho o trabalho facilitado.

 

E à medida que vou desenvolvendo o andar, passo a passo, comecei também a aprender a falar. Claro que, motivado pela doença, alguns dos músculos, refiro-me em particular aos que auxiliam a fala, estão em parte atrofiados, o que exige de mim um esforço maior para conseguir as mesmas coisas.

 

Já articulo algumas frases, sem que se note nada. Claro que ainda tenho muito trabalho pela frente, vale-me o não ter pressa. Agora tenho tempo!

 

O evoluir tem, nessa palavra exacta, evoluído. Mesmo aquelas tarefas domésticas como o vestir, o pendurar a roupa, o calçar-me, apesar de básicas são fundamentais por nos darem uma autonomia, ainda que primária, possamos dizer, libertadora.

 

 

As sequelas são cada vez mais, menos perceptíveis e às vezes perco algum tempo a analisar isto. Tem duas vertentes:

 

Por um lado, ao a doença sair do corpo, ele deixou a submissão de que era escravo, naturalmente.

 

Mas não é só isso, há em simultâneo ou paralelo, agora aqui também não sei bem ou se há diferença significativa nisto, a menor importância que dou às mesmas coisas. Por exemplo: quando me apercebia do aparecimento de uma metástase, ficava logo com receio porque via nisso um índice de evolução ou progressão da doença e incutia-se em mim a consciência do caminhar para a morte ou do aproximar-me mais dela.

 

Agora, quando a mesma coisa irrompe, já não acho que seja uma metástase, porque já não tenho a doença e penso: é apenas um sinal!

 

E é estranho, como apesar da metáfora, a doença teve realidade em mim durante anos e como a evolução para a cura foi tão demorada!

 

Gostava, por pura nostalgia ou saudosismo, de determinar ou identificar o momento exacto em que isso aconteceu, mas não sou capaz de, a esta distância, precisar os factos. E também gostava de conhecer a razão disso ter acontecido agora e não antes porque poderia no futuro, digo a consciência disso, evitar uma recaída.

 

Por agora, não penso nisso. Neste momento aprecio os pequenos progressos do dia-a-dia e as metas que tenho conseguido atingir por ter estabelecido os objectivos à minha medida, ao tamanho da minha capacidade, adequados ou ajustados, se isso fizer diferença para si, a ela. E não vejo nisto, concorde ou não o senhor, qualquer limitação nem acho ou simplesmente penso que é menor o que faço agora comparado com o que fiz no passado, porque o que faço agora é uma realidade e o que fiz no passado é, neste preciso momento, pura ficção!

 

Claro que não tem sido fácil, repare o senhor, o que é nesta idade a felicidade de levar sozinho um copo de água à boca! O segurar nos talheres sem tremer e sem eles caírem. E, parece-me às vezes, que agora a felicidade, se se pudesse medir, é ainda maior porque quando foi da primeira vez, toda a gente à minha volta esperava por isso, era o normal naquela altura, as crianças aprendem tudo mas agora, na minha idade, já não se espera nada ou grande coisa e, no entanto, eu consigo! Consigo por mim e consigo para mim!

 

Confesso, a si tenho de confessá-lo, que às vezes de noite ainda tenho medo! Mas não é nada comparado ao que sentia. Dantes, tinha aquela crença infundada de que se morre, quase sempre, de noite e por isso ansiava o nascer do dia como um sinal de sobrevivência. Agora isso passou, consigo distrair-me dessa realidade tão precária: leio, escrevo, durmo, ... independentemente da cor do céu. O preto deixou de me assustar. Ainda que o senhor mo tivesse dito inúmeras vezes, só agora acredito, com carácter de efectividade, que está tudo dentro da nossa cabeça! Exactamente onde eu tinha o cancro, ao menos o primário porque depois, como se viu, espalhou-se pelo corpo todo!

 

Gostava de lhe poder dizer, seria a melhor forma de lhe agradecer, como descobri, inventei ou consegui, a cura para esta terrível e terminal doença, que me atingiu a mim e a tantos outros numa fase tão precoce da nossa vida. Para a dor, é sempre cedo, mas não sei como é que aconteceu! Aliás, acho até que foi só isso: aconteceu. Nem todo o efeito tem uma causa, há coisas que aparecem do nada, mesmo não acreditando em milagres, acredito nisto porque já vi e acontece muito mais vezes do que pensamos. Quando estamos despertos ou atentos, acontece tudo muito mais e a sensação com que ficamos ao ver isso acontecer, relega-nos para segundo plano a causa disso.

 

Sabe que nunca fui de dizer coisas que não sinto e o que lhe agradeço é, não o ter-me curado porque me curei sozinho, mas o facto de me ter acompanhado na doença. Repare que não é ingratidão, é justiça! Acho que fez o papel mais difícil porque é quando estamos débeis que mais precisamos dos outros e não quando estamos saudáveis.

 

Mesmo que ainda seja cedo para me sentir um ser humano, sinto-me a ser humano e isso é um grande avanço porque muitas vezes o que me sentia era um verme. Um verme que se revoltava com a sua natureza ou condição mas que não fazia nada para a  mudar porque achava que um castigo me tinha caído em cima, sido rogada uma praga ou o diabo que o valha!

 

É preciso libertarmo-nos da crença infundada para podermos ser razoáveis no acreditar.

 

E isto, que parece difícil, é tão fácil como o andar! Hoje mesmo dupliquei em caminhada a distância percorrida ontem. Ajuda agir sem pensar. Não, quero dizer, ajuda no que estamos a fazer não pensar no sentido de ficarmos obstinados com a realização disso, deixar as coisas fluírem, deslizarem, para o bem e para o mal!

 

Ver, em pequenos passos, grandes vitórias porque a sensação boa que nos fica disso faz-nos encarar mais facilmente o que temos ainda por ou para fazer. Que na realidade não é nada porque somos nós que nos impomos as nossas metas, nós é que decidimos o que queremos e como o fazer, de forma que essa ideia da frustração parece-me hoje obsoleta: quando não atingimos um objectivo é porque o estabelecemos mal. Houve um erro qualquer de planeamento, não era para nós!

 

E, perdoe-me o senhor, se me sinto ridículo a escrever isto, mas não posso deixar de me lembrar do nosso nobre poeta e dizer: ridículo é quem nunca passou por isto, mais, passou e não teve consciência disso!

 

Abreviando, o que não é de todo uma qualidade minha e o senhor bem o sabe, escrevo-lhe hoje para dizer que me sinto curado. Não porque me tenham dado alta, mas porque deixou de fazer sentido em mim pensar em realidades inexistentes! E interiorizei que o tempo, essa grandeza impalpável em termos afectivos é, não direi escassa, mas soberanamente insubstituível para que a gastemos em vão.

 

Desculpe, meu caro Comendador, se fiz neste meu acto, considerações abusivas a respeito de realidades e sentimentos que lhe são caros, mas conhece-me o suficiente para perceber que nada do que eu digo tem como fim desassossegá-lo, mas tão só o, de forma assumidamente egoísta, tranquilizar-me! Bem-haja!

 

Um abraço

 

deste seu, para sempre, tanto quanto a falsa eternidade mo permite,

 

amigo

 

José Francisco

 

 

23
Nov16

Hoje vamos ÓPorto!

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Hoje vamos até ao Porto, a nossa grande cidade do Norte e cada vez mais nossa, pois a isso somos também obrigados. Não quero com isto dizer que não vá por lá com prazer, mas com esta coisa da centralização e os de Lisboa quererem acabar com o interior, e os do interior nada fazerem para os contrariar. Que remédio, lá temos que ir até uma cidade grande à procura das coisas essenciais a que  todos têm direito, principalmente o direito à saúde, uma das razões que mais nos leva por lá, mesmo que privada (outra das nóias dos de Lisboa).

 

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Mas há mais razões e nesta obrigação de irmos por lá, também podemos desfrutar um pouco da cultura que por cá escasseia e da descoberta de um Porto que até há poucos anos atrás estava mais fechado e menos atrativo – o seu centro histórico na colina que desce para o rio.

 

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E sempre que vou por lá recordo também as palavras com que um amigo galego me surpreendia, há uns bons anos atrás quando me dizia: — “Já corri os cinco continentes, já visitei muitas cidades no mundo mas as mais bonitas que encontrei foi a cidade de Chaves e a cidade do Porto”. Pensei inicialmente que estava a gozar, mas depois de se justificar fiquei crente na sinceridade das suas palavras, que já agora subscrevo na parte de ambas as cidade serem as mais bonitas do mundo, pelo menos daquele que conheço, e pelas mesmas razões desse meu amigo.

 

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Pois há dias a Associação de Fotografia Lumbudus em colaboração com a Portografia, Associação de Fotografia do Porto levou-nos em passeio de um dia pelo Porto, sem a tal obrigação de termos de ir por lá à procura de saúde, mas antes à procura da descoberta da intimidade do Porto, hoje aberta ao turismo, mas também dos seus ícones mais importantes.

 

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Mas para não dar tudo por inteiro, pois aprendi que nunca se deve dar, hoje deixo-vos apenas sete imagens à volta de um bocadinho do Porto, desde o Jardim da Cordoaria, passando pelo miradouro da Vitória, uma entrada nas Estações de S.Bento (comboio e metro), uma passagem pela Sé e a descida até à Ribeira pela intimidade do casario, escadarias e ruelas.   

 

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Mas sem chegar à Ribeira, à Ponte de D.Luís, a Gaia e demais Porto do nosso passeio. E agora que estamos tesos que nem carapaus, sem pilim para férias, esta pequena mostra que vos deixo serve também de convite para irmos até uma grande cidade, aqui bem próxima, a pouco mais de uma hora de viagem. Um convite para ir por lá sem a obrigação de ir à procura daquilo que aqui não temos e ainda acessível às nossas bolsas.

1600-porto (854)

 

Para terminar o agradecimento à Lumbudus pela organização do encontro/passeio e aos amigos fotógrafos da Portografia, principalmente aos que nos receberam e nos fizeram companhia, nomeadamente o Francisco Oliveira, os Antónios – Sadinha e Tedim. Obrigado, pois sem Vós algumas das descobertas não seriam possíveis.

 

Um destes dias voltamos ao Porto com mais imagens.

 

 

 

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