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CHAVES

Olhares sobre o "Reino Maravilhoso"

25
Nov16

Discursos Sobre a Cidade - Por Gil Santos

GIL

 

A COVA DO LADRÃO

 

A gente do Planalto é amiga do vinho, não porque tivesse aprendido, na doutrina, que representa o sangue de um Cristo que todos amam, mas, sobretudo, porque aquece o corpo nos dias de vento galego e dá ânimo nos trabalhos mais pesados da labuta.

 

Honra lhe seja feita que tem gosto!

 

Todavia, nem todos têm bom bober!

 

Se nuns, a pinga, aflora a boa disposição, noutros faz emergir o mau feitio, a ruindade e os maus fígados. Era o caso do Belardo Manca Mulas, Abelardo Terebentino de batismo. Lavrador remediado não se abalançava a assucar uma lavoura ou a aricar uma leira de pão, sem escoucar uma remeia. Depois, quem nas pagava era a Androsinda, uma mula nascida do cruzamento, improvável, do cavalo do Paranhos com a burra do Beiças, nas touças do Corgo. A coitada não só tinha de puxar pela relha do arado para escacholar a terra dura, como ainda de arrastar o pingueiro do bandalho. Como se não bastasse, ainda lhe arreava forte e feio com a aguilhada a cada virada de rego. A infeliz, tornava sempre ao escontra e, por isso, a vara zunia-lhe, cruelmente, riba lombo, quando não era o ferrão a rasgar-lhe os quartos de cima a baixo! Porrada de criar bicho!| Tanto assim que numa ocasião, escamado com a besta, assentou-lhe labrestada tamanha com um estadulho, numa pata traseira, que a deixou derreadinha para o resto da vida!

 

Em tempo algum o conheci sóbrio!

 

Dizia-se, à boca cheia, que bondava uma golada de água do Prado para que ficasse como uma poça! Espetava os queixos na bica, indejava o bojo e das borras de tresontonte ficava como havia de ir! O sacripanta gabava-se de aviar uma remeia por dia, não estando quente, no estio tchimpava duas!

 

1600-seixo (187)

 

O vinho sempre foi a melhor pomada para muitas das maleitas das gentes do Planalto. Porém, em terra tão madrasta, não se colhem uvas. Por isso, quem pudesse, tinha uma vinha nos fundões de Cobladrão, como se dizia, cujos socalcos, soalheiros, ajudavam a criar fruto de alto gabarito. Quem não tivesse rincão que o produzisse, tinha de se desembrulhar, pois sem vinho é que não se podia viver! E nem que faltasse o pão para a ceia, para tintol haveria de se ajeitar dinheiro! Alguns faziam das tripas coração para que o generoso lhes alumiasse o serão ao borralho, nas noites escuras da meseta, bem como os sonhos ao recolher com as galinhas. Nalguns tugúrios, estou que, alumiaria mais o vinho do que a luzes mortiças das candeias a petróleo, ou as labaredas das fronças da giesta branca crepitando nas lareiras!

 

O Ti Moreiras do Carregal tinha uns socalcos em Cova do Ladrão. Eram a menina dos seus olhos, autênticos altares marianos, de cuja Virgem era aturado devoto por tê-lo poupado à morte, quase certa, na Grande Guerra. Gastava mais tempo na vinha, do que em todas as touças, poulas ou soitos que tinha à porta de casa. Esta fazenda era a sua salvação e a do povo do Carregal. Quase todos os vizinhos se desunhavam para o ajudar nos trabalhos da vinha. Sabiam que para além da frequência com que o pipo lhes passava pelos queixos, nas podas e nas cavas, também avezavam generosos canecos ao longo do resto do ano.

 

O catano era o míldio, quando atacava a desatempo deixava o Carregal na penúria!

 

Quase não havia semana em que o Ti Moreiras não visitasse Cova do Ladrão, apesar de distar mais de duas léguas. Montado na Feiticeira, lá ia do Carregal à Torre, daí ao termo de Moreiras, chegando à Costeira, a parte mais penosa da jornada. Encosta ingreme do Brunheiro, a Costeira, ligava o Planalto ao vale do Seixo que recebendo os benditos raios austrais, estava protegido de norte pela portela do Peto.

 

1600-escariz (136)

 

Da vinha colhiam-se raros frutos: pavias, amêndoas e figos, mas principalmente uvas que fazia um vinho que em anos bons até alumiava numa candeia, não falando dos cachos de mesa que perduravam o ano todo, pendurados às cambalhotas, com barbantes, nos caibros da sala de jantar.

 

A colheita era uma festa para toda a aldeia.

 

Preparava-se durante semanas: cestos vindimos lavados, tesouras da poda afiadas, dornas empertigadas, tonéis escarolidos e lagares e lagaretas esfregados para receberem o mosto.

 

No dia aprazado, posto com muita antecedência, o povo juntava-se na estrada de Carrazedo pela madrugada. Chegava o trator do Jaime das Malhadeiras, da Amoinha Nova, irmão do Ti Moreiras, carregavam-se as dornas, os cestos a merenda e o povo.

 

Para muitos, era a única viagem que faziam durante todo o ano.

 

Dali partiam para France, passavam Lagarelhos e no Peto arrouçavam para o Seixo. Aí deixavam a nacional enveredando por um caminho manhoso de terra e buracos que conduzia à capela de Cova do Ladrão onde se estacionava. O atrelado, com as dornas, receberia os cestos de uvas alombados pelos homens por carreiros e portelos.

 

Pelo número de dornas cheias adivinhava-se a produção do ano. À noitinha, finda a saga, regressava-se em festa. E por cada lugar que se passava, a canalha juntava-se na estrada pedindo uvas. Os trabalhadores atiravam-nas à rebatina para gáudio da pequenada. Chegava-se ao Carregal, quase sempre noite escura. À luz da candeia vazavam-se as uvas no lagar de perpianho. Depois, até alta madrugada, pisava-se o vinho. Os homens descalçavam socos e carpins, tiravam as calças e de ciroulas arregaçadas lavavam as pernas em água fria, numa bacia de folha com uma lisca de sabão macaco. Depois entravam no lagar. Era uma noite espetacular. Cantavam, bebiam vinho velho e punham ao léu a vida alheia. A noite e o trabalho só terminavam quando ao Ti Moreiras lhe parecesse. Nos dias seguintes e enquanto o vinho fervia, baixava-se a cortiça com um arcanho próprio para que fervesse no bagaço e ganhasse cor. Muitas vezes andei para cair ao lagar, atordoado pelos vapores do mosto. E quantas outras, às escondidas do paizinho, ia beber vinho doce por uma palhinha de centeio!

 

Lembro-me de um ano em que um incidente, estúpido, estragou o vinho, sem que, apesar de tudo, se cometesse o sacrilégio de o botar fora! Conto:

 

O trabalho de mastragar as uvas com os pés ia a meio e os pisadores, já estavam bêbados como cágados! Numa das bordas do lagar, sobre uma prateleira manhosa de pinho, pousava a candeia a petróleo que alumiava a noite de trabalho. Num exacerbar de entusiasmo, o Marcolino Tresmundes, enquanto fingia virar uma chula minhota, estou que sem querer, pinou a candeia para dentro do lagar. O Ti Moreiras ficou em pânico.

 

Tirou a candeia o mais depressa que pôde mas não evitou, ainda assim, que se derramasse parte do petróleo. Para aquela gente desprezar o vinho era um pecado mortal mais expressivo do que quantos adultérios se cometessem numa vida! Por isso, todo o ano, bebeu-se a pisorga a saber ao petróleo, mas ninguém se queixou!

 

Enquanto rapazote, fiz muitas viagens, com o meu avô António, a Cova do Ladrão. Ele gostava de me levar com ele, dizia que o distraía. E eu gostava de o acompanhar, não só porque me sentava à garupa da Feiticeira, agarrado à crina, como tinha oportunidade de ouvir muitas das suas vivências na Grande Guerra, coisa que me fascinava.

 

E então puxava por ele:

 

− Ó paizinho, o sítio da guerra, na Flandres, era como este aqui, com penedos, caminhos e montes?

 

− Não mou filho, lá o terreno era praino e alagadiço. A lamice chegava a dar-nos pelo joelho. Às vezes, quando fazia muito frio, o pingo do nariz ficava em carambelo. E quando íamos mijar, antes do serritcho chegar ao chão, já estava em pedra. A miséria era tanta que os piolhos do corpo eram brancos e tamanhos como tchicharros!..

 

− Então não tomavam banho?

 

− Ó se tomávamos, quase todos os dias e de chuveiro, era um luxo, mas só quando chovia!..

 

− E como dormiam?

 

− Quase não dormíamos e se algum passasse pelas brasas, tinha de proteger as orelhas porque os leirancos eram tantos que, se pudessem, ratavam-no-las! Mas um dia, quando cresceres, deixo-te ler um livro que eu escrevi sobre a minha vida na guerra. Aí saberás muitas outras coisas.

 

Mal eu sabia que anos mais tarde, teria a feliz dita, não só, de a conhecer, como de a estudar e, ainda, de a dar a conhecer a tantos outros em sua honra e em honra de tantos que, como ele, sofreram as sevícias de uma beligerância inexplicada e injusta!

 

1600-seixo (181)-1

 

E lá íamos felizes acavalo, um porque tinha ouvinte para as suas estórias e outro porque as ouvia e construía imagens fascinantes e curiosas que haveriam um dia de frutificar.

 

Ao chegar à Costeira apeávamos. Temia meu avô que a égua tropeçasse e nos botasse de cangalhas, o que era perigoso. A meio da ladeira parava, sempre no mesmo lugar, não só para descanso da besta como para me contar a mesma estória, mil vezes repetida. Naquele sítio havia uma laje de granito no meio da rodeira, no centro tinha uma concavidade em forma de ferradura da qual saia um veio de granito escarlate. Assim me contava:

 

− Vês Gilinho, esta cova em forma de ferradura neste penedo? Foi a marca deixada pela burrinha de Nossa Senhora quando andava a dar a volta ao mundo pelos pecadores. Chegou aqui muito cansada. A burra pôs a pata da frente sobre esta laje e escorregou. Para não pregar com a Virgem no chão, enfincou a ferradura com tanta força que a enterrou na pedra, partindo a pata redondinha. Da bouba escorreu algum sangue que ainda se pode ver naquela mancha vermelha. A Virgem Nossa Senhora, para premiar a burrinha e para não ter de continuar a pé, guiou-lhe milagrosamente a pata. Passando por Loivos, a burrinha, pediu ao povo que construísse, em Cova do Ladrão, uma capelinha em honra do milagre. Sim, porque nesse tempo os animais falavam!

 

Assim foi!

 

Encantava-me aquela história, repetida tantas vezes. Parecia-me sempre nova com inventados pormenores. E quando olhava para a singela capelinha de Cova do Ladrão, imaginava o quadro de Nossa Senhora e da burrinha descendo a Costeira e conversando sabe-se lá de quê.

 

− Como é importante a minha terra − pensava eu − que até mereceu uma visita da Virgem Mãe muito antes da Cova da Iria!..

 

Depois chegávamos à vinha, o mais das vezes, apenas para a inspecionar.

 

1600-uvas

 

No tempo em que o bago já pintasse, o paizinho fazia questão de que comêssemos, antes da volta, um cacho das uvas sem grainha que colhia de uma latada à porta do pardieiro que servia de abrigo nos dias em que os trabalhos não permitissem regressar a casa. E que uvas aquelas!.. Curioso é que nunca deixava de cortar um generoso cacho para a Feiticeira. Sobre uma manjedoura, a égua, até fazia lume com os dentes!

 

− Apesar do bitcho não ter alma e não poder beber um copo, sequer ao menos, que larpe uma uva de Cova do Ladrão antes que ela faça o binho. Bitcho que é bitcho também gosta de coisas boas! Além do mais como é que alombaria connosco Costeira acima sem comer nada?..

 

− Belas palavras as do paizinho e generosas!

 

Coisas do vinho e da vinha!

 

Gil Santos

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