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CHAVES

Olhares sobre o "Reino Maravilhoso"

02
Dez16

Exposições do "Outono Fotográfico" em Chaves

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A partir de hoje e até ao final deste mês estarão patentes ao público duas exposições de fotografia integradas no Festival Galego de Fotografia – Outono Fotográfico, este ano com a tema “Dentro-Fora / In-Out”.

 

Uma exposição Individual de Fernando DC Ribeiro, na Adega do Faustino intitulada “Um mundo que acaba”

 

Um mundo que acaba

Por dentro e por fora do que resta de um mundo rural e de artes que acabam sem retorno possível. Um mundo de resistentes que por amor ao berço disseram não aos convites da partida.

 

Uma exposição que tenta ir de encontro à temática da 34ª edição do Festival Galego de Fotografia – Dentro/Fora, In/Out - com uma mostra de momentos captados no mais puro que há dentro do mundo rural, de um mundo de artes e saberes, de uma cultura singular, interior, telúrica, hoje feita de resistentes,  a contrastar com a provocação/sedução do glamour, dos neons, num ruído de culturas onde o multiculturalismo dos que partiram se globaliza e acultura, onde as berças ficaram para sempre sepultadas ou fazem doer a memória sobrevivendo apenas na saudade.   

 

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Cumplicidades

A outra exposição, coletiva, é da Associação de Fotografia – LUMBUDUS e depois de ter estado patente ao público durante o mês de novembro em Verin, chega agora à cidade de Chaves, onde estará patente ao público na Biblioteca Municipal até ao dia 30 de dezembro.

 

Nesta coletiva participam os fotógrafos Lumbudus António Souza e Silva, Fernando DC Ribeiro, Humberto Ferreira, João Madureira, Lamartine Dias, Paula Dias e Sergio Crespo. Intitulada “Cumplicidades” mostram o quotidiano, enquanto unidade de espaço e tempo, onde nos permite apreender as heterogeneidades do espaço vivido, concebendo novos sentidos e significados às experiências que vivenciamos, que envolvem e elaboram relações contraditórias entre o dentro e o fora, o antes e depois, mudança e permanência, espaço e tempo, apreendidas por distintos meios como os olhares dos fotógrafos.

 

 

02
Dez16

Discursos Sobre a Cidade

SOUZA

 

DA ORGANIZAÇÃO URBANA (OU PLANEAMENTO URBANO)

AO DISPARATE DA NOVA INTERVENÇÃO NO LARGO DAS FREIRAS

 

Não nascemos em Chaves. Optámos, contudo, por fazer dela a nossa cidade, a nossa terra.

 

Tendo família já aqui a viver, e estudante na capital do distrito, quando adolescente, costumávamos vir, pelo período do Natal, Páscoa e Férias Grandes, a Chaves. E, com efeito, deliciávamo-nos o palpitar que, naquela altura, no designado Largo das Freiras, se vivia. Era uma mistura interessante de estudantes, professores, tropa, forasteiros e flavienses comuns que, circulando entre o Bar Aurora e o Café Sport, tendo como linha de articulação a Rua de Santo António, davam movimento, cor e vida àquele local. Por ali, tudo quanto a Chaves dissesse respeito, acontecia.

 

Hoje, está tudo completamente mudado. E temos pena, nostalgia, saudade de um lugar que antes era a imagem de marca da sua cidade e atualmente se encontra despido e sem vida. Alguns apontam o dedo aos que, na sua opinião, são os causadores deste tamanho assassinato urbanístico – os senhores do poder local.

 

Gostaríamos, aqui de participar nesta discussão à volta do Largo das Freiras e do verdadeiro disparate das obras que, neste momento, estão ali a ser feitas, ou seja, um arranjo cosmético, dizemos nós, que não vai trazer mais vida ao local. Enfim... Como o dinheiro é de todos nós, que infelizmente não o controlámos efetivamente, displicentemente passamos aos nossos autarcas um cheque em branco para, na nossa cidade, fazerem o que muito bem entendem.

 

Da nossa parte desejamos acarear e trazer a este já longo debate a nossa perspetiva. Por duas ordens de razões: a primeira, porque sempre nos interessaram as questões ligadas à geografia, urbanismo e planeamento, por gosto e também por razões profissionais; a segunda, porque reputamos de importância fundamental que discutamos a nossa cidade e opinemos sobre a sua evolução, o que dela queremos. Todos.

 

Segundo supomos saber, a intervenção feita naquele local foi no âmbito do Programa Polis. Temos para nós que, salvo raras e honrosas exceções, a grande maioria das intervenções deste Programa visa(ra)m aquilo a que designamos como a obtenção da cidade espetacular ou monumental. Mas, muitas vezes, estas intervenções levam à perda da noção de lugar ou, como diz Carla Narciso, na sua obra Espaço Público – Desenho, Organização e Poder, do genius locci, provocando a dispersão de grupos sociais que até ali exerciam as suas atividades, quer profissionais, quer de lazer.

 

Ou seja, não nos pareceu ter ali havido uma intervenção urbana equilibrada, no pressuposto da “compreensão das diferentes escalas territoriais de inserção, nos processos de reestruturação, nos elementos arquitetónicos, na morfologia urbana existente e nas tradições” (Carla Narciso, ob. cit.).

 

Estamos de acordo ainda com aquela autora quando, no mesmo passo, diz que as intervenções urbanas não devem significar uma perda da cidade, mas sim uma melhoria social e estética. Mas frisa. Na obtenção deste desiderato é igualmente necessário a participação das comunidades locais nas discussões e intervenções a serem implementadas.

 

Não sabemos se os meios de consulta pública, para além dos que a lei estipula e prescreve, foram implementados e levados a cabo de uma forma verdadeiramente participativa. Circunstâncias várias da nossa vida impediram-nos a presença em Chaves naquela altura.

 

Hoje em dia é frequente vermos uma cidade, e os seus espaços públicos, como se fossem uma simples mercadoria. Que é de todos, mas usufruído por muitos poucos. É uma lógica de produção e reprodução do sistema económico que aí está em vigor.

 

Os espaços públicos que antes eram destinados à sociabilização, o verdadeiro espaço vivenciado, como define Henri Lefebvre, convertem-se na representação de um espaço artificial, desligado dos residentes e usuários, onde não se considera as tradições e as identidades locais, onde a escala do projeto não corresponde à escala do ser humano.

 

As atuais estratégias de desenvolvimento compreendem a cidade como uma comunidade onde existe uma vida local e lugares requalificados.

 

Infelizmente, o conceito utilizado tem sido o da requalificação através da arquitetura/espetáculo para ser exibida, gerando uma verdadeira teatralização e/ou turistização do espaço público.

 

O que importa, nesta forma de fazer cidade,  é a diferenciação e a capacidade de ilusão que as obras provocam na sua passagem, desprendidas da  vivência e do quotidiana das pessoas que aí vivem, traduzindo-se, assim, num aniquilamento do lugar.

 

É certo, como dizem Borja & Forn, em Políticas da Europa e dos Estados para as Cidades, que o maior desafio do planeamento urbano contemporâneo é aumentar o potencial competitivo das cidades no sentido de responder às procuras globais e atrair recursos humanos e financeiros internacionais. Mas, de acordo com vários exemplos que temos assistido, o planeamento tem sido feito à margem da cidade, com total esquecimento das pessoas que ocupam e vivem nesses espaços.

 

O que, infelizmente, se pretende é construir uma cidade cujos seus espaços cativem o olhar do forasteiro ou turista ou que, em termos mais gerais, propicie uma atratividade em termos económicos, no conserto de uma sociedade totalmente rendida ao mercado, transformada em verdadeira mercadoria, em que as pessoas que a habitam, na grande maioria dos casos, são esquecidas.

 

E é bem certo que muito políticos e técnicos se esquecem que o espaço público tem como objetivo principal a apropriação pelo ser humano, seu habitante habitual.

 

O projeto de arquitetura deve dirigir-se aos anseios e aspirações da população que dele vai usufruir, otimizando características fundamentais à sua apropriação. Estes devem possuir características próprias e identitárias que mantenham relações de proximidade e até mesmo de afeto com os mesmos.

 

Desta forma, no que à intervenção do arranjo do Largo das Freiras diz respeito, somos a considerar que poderemos, eventualmente, estar não em presença da ativação ou da (re) construção de um património dos flavienses. Pelo contrário, assistimos à  morte de um legado patrimonial, com fortes poderes de identificação simbólica. Que não lhe conferiu nova vitalidade, como seria de esperar. E presumimos que aquela intervenção tenha sido feita com base, quase exclusiva, na representação meramente económico-turístico, baseada na moda, e na redução dos espaços públicos a mera mercadoria, numa lógica neoliberal.

 

Mas, na nossa modesta opinião, não se pode apenas apontar o dedo aos autarcas, apesar de termos de debater e por em causa a visão que o poder político tem sobre o território sobre o qual exerce poder.

 

O poder municipal é o principal impulsionador do espaço público e, em particular, ao nível das cidades pequenas e médias. Pela forte concentração do poder e/ou pela maior visibilidade que ele pode ter”, o resultado destas intervenções podem induzir a persuasão do voto. Basta considerarmos as sucessivas inaugurações de parques, praças e jardins em plena época eleitoral.

 

Desta forma, o espaço público reflete a corporificação da preocupação e da capacidade especial da autoridade e, deste ponto de vista, surge como um produto personalizado que compromete o voto. A pressão ao nível dos técnicos é claramente elevada ao conceito de arranjo e assim destitui o espaço de uma forma que o deve caracterizar e individualizar. (Sobarzo, em A Produção do Espaço Público: da dominação à apropriação). É, positivamente, nesta altura, é o que estamos a observar pela nossa cidade, com especial incidência no dito Largo das Freiras.

 

Mas também temos de entender a dinâmica das cidades e dos seus ocupantes. E de refletir sobre a(s) nossa(s) identidade(s) e apropriação (ões) dos lugares feita pelos cidadãos pertencentes a uma determinada comunidade.

 

As cidades não são estáticas. Têm espaços que desempenham funções. Funções que servem os seus habitantes e os quais delas se apropriam. A forma como as vivem, e delas se apropriam, distingue-as dos demais. E tornam-se, assim, elementos identificadores específicos de uma determinada comunidade. Que querem preservar, pois são o seu selo, a sua marca distintiva. Mas a circunstância dos constantes gritos ou desta revolta que, ao longo do tempo, temos visto espelhado à volta deste assunto relacionado com o Largo das Freiras, não reflete esta dinâmica, ou seja, o ir às razões porque aqui chegámos. Parece-nos mais um saudosismo, que não atende e entende a dinâmica dos lugares, em particular das cidades.

 

E, chegado aqui, algumas perguntas deixamos no ar:

  • Será que houve novas centralidades que desempenharam esta função?
  • Até que ponto o Largo das Freiras era efetivamente um verdadeiro espaço público de convívio, partilha, e porque não dizê-lo, de exercício efetivo de cidadania, a partir de determinado momento da história da nossa cidade?
  • Porque os flavienses deixaram de se identificar com aquele lugar como património da sua cidade ao ponto de permitirem este estado de coisas?
  • Será que o novo arranjo, que, em nosso entendimento, não passa de um verdadeiro disparate, onerando mais o erário público, irá restituir ao flaviense do século XXI, a função identitária que tinha? O que verdadeiramente se pretende com este novo arranjo? O que os flavienses querem, desejam? Foram ouvidos para o efeito?
  • Será que Chaves tem massa crítica suficiente para fazer face aos senhores todos poderosos do poder político-partidário autárquico, imbuídos de uma mentalidade mercantilizada da coisa pública, quiçá, não raras vezes, pela nossa passividade, senhores do quero, posso e mando, fazendo, na prática, o que lhes dá na real gana?

 

Nas discussões, e em particular quando está em causa o bem público, não podemos ser redutores: temos de abrir o enfoque da nossa visão para ver as coisas. Não há apenas o eu e os outros. Há também o nós.

 

E nós, flavienses, discutimos e opinamos pouco sobre o nosso espaço público. Pouco nos preocupamos com a criação e preservação dos lugares de convívio, partilha, socialização e identidade local.

 

Narcisicamente é-nos mais cómodo partilhar e conviver através das redes sociais!

 

Mas todos sabemos - e está provado -, que estas redes são lugares pobres de efetiva partilha, de criação de socialização e convívio e nulo na construção de identidades genuínas.

 

Aproximam-se aí as eleições autárquicas. Vemos algumas forças políticas - e muito bem - movimentarem-se e discutirem o futuro da nossa cidade e do nosso mundo rural. Mas esta preocupação e discussão deve ser genuína, ou seja, não deve ser feita apenas na aproximação dos períodos eleitorais. Tem de ser assumida pelos flavienses - instituições e pessoas - como uma prática quotidiana, fundamental para uma verdadeira construção e desenvolvimento do nosso território concelhio, em que a nossa qualidade de vida, de acordo com uma nova visão e de um novo modelo de desenvolvimento dos nossos territórios para o século XXI.

 

A cidadania não tem lugar apenas nos dias em que somos chamados a votar. Exerce-se todos os dias, ao nível das mais diversas formas de organizações dos cidadãos, que compõem e habitam um determinado espaço.

 

António de Souza e Silva

 

 

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