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CHAVES

Olhares sobre o "Reino Maravilhoso"

07
Dez16

Cartas ao Comendador

cartas-comenda

 

Meu caro Comendador (2)

 

Compreendo que a minha carta o tenha deixado inquieto, em nada isso me surpreende, porque a ideia ou realidade que sei ter a meu respeito, não é a desse ser consciente que lhe escreveu!

 

Saiba que há dois em mim, para não dizer mais, a seu tempo falarei dos outros, e saiba ainda que nem sempre um é fiel ao seu outro. Quero dizer, ainda que um deles tenha certamente uma personalidade mais forte e acabe por se impor no concluir das coisas, nem sempre é assim! Tento dominá-los, ao menos controlá-los, pô-los de acordo para não ser incoerente, mas os gostos e as tendências das pessoas são diferentes e eu não posso cortar as pernas nem as asas à criatividade ou ao ser de cada um deles. É difícil para mim decidir nesse ponto: qual deles escolho?


Saiba o senhor, insisto nisto, que nem sempre me é fácil enveredar por um ou outro caminho. Há dias em que me inclino mais por um e dias em que me inclino mais por outro e não me preocupa o facto, pode talvez estranhá-lo, de com quem me identifico mais! Acontece até, por vezes, que me identifico neles em coisas opostas, porque um deles vê um lado e o outro vê outro e eu vejo os dois através deles!

 

Perguntará então, atento como é, como é que eu lido com eles os dois? Bem, respondo-lhe. Claro que isso exige algum equilíbrio e muita racionalização, o que funciona comigo como um exercício permanente a que me obrigo e que acaba por me desenvolver ou dar elasticidade, ao raciocínio. Trata-se efetivamente de um músculo como qualquer outro. O raciocínio, se o poupamos, fica preguiçoso, lento e atrofia. Se um dia precisamos dele, assim de repente, ficamos encurralados. Se bem que tenhamos, como não, sempre características de reserva que em situação de emergência podemos accionar.

 

Mas, falando ainda sobre a minha carta, não valorize o que leu nas entrelinhas, se eu pretendesse isso, tê-las-ia lá colocado!

 

Sei que não é simples para si fazer isso, porque me conhece demasiado bem e consegue ler até o que eu não escrevo, mas tem de fazer um esforço! Leia de fora para dentro em vez de de dentro para fora.

 

Em parte a responsabilidade de isso acontecer também é minha: habituei-o a ser-lhe transparente e isso cria-lhe alguma dificuldade em me ver vestido. Tem de arranjar uma maneira! Uma, talvez pouco inteligente mas funcional, é vestir-me um traje antes de me começar a ler:

 

Um fato cinzento, do mais discreto que a sua imaginação possa criar, a camisa quase lisa, sendo de relevo, muito ténue e sendo às riscas, essas, do mais fino que lhe possa pôr. A gravata, bem, até isto o senhor já sabe, tem de ter uma cor forte, de fogo, de incêndio, qualquer coisa a arder, nem que seja em pensamento. Não se esqueça do relógio, nunca lhe perdoaria isso, qualquer que seja a caixa, mostrador sempre branco e ponteiros finos. Qualquer que seja a caixa, é maneira de falar, escolha uma que contraste com a discrição do fato mas, ainda assim, discreta. O senhor sabe perfeitamente que quanto mais discreto tanto mais elegante e só a elegância é que chama a atenção. O meu amigo sabe-me vaidoso e, podendo ser isso um defeito, não deixa de ser uma qualidade notá-lo!

 

Deixe-me perguntar-lhe, e considere que não o faço em tom de desafio: o senhor tem consciência, em mim, de quando é um ou outro que fala? Vista também esse! Alfaiates diferentes, certamente, nunca o traje que serve a um serviria ao outro. Este é mais arrojado, vamos substituir-lhe a gravata por outro adereço, que lhe parece? Não, nem pensar nisso! Falo de um lenço de seda grande, como o das mulheres, mas de estampado diferente, riscas ou quadrados, não pode sair muito disso, talvez nos dias mais quentes possa aceitar uns círculos, umas pintas ou bolas, muito pequenas e de cores sóbrias, mas, ainda concordando com os dias, quentes.

 

Depois de os ter completamente vestidos e à sua frente, consegue, sem que eles falem, distingui-los? Quem de quem?

 

Interrompi uns segundos para reler o que lhe escrevo e soltou-se-me uma gargalhada franca, interior. Pretendia eu com esta carta descansá-lo e retirar-lhe, como dizer, o cariz preocupante ou desconexo que deixei escapar na última e eis que esta se me afigura um tanto mais terrível que a primeira de que falo.

 

Desculpe se falhei no meu propósito, mas quando começo a escrever separo-me do que em mim escreve e a única coisa que faço durante esse acto da escrita, é segurar na caneta, para que a caligrafia lhe seja perceptível.

 

Dizia, quando ainda consciente, que me faço, às vezes, a pergunta: como é que eu os  sento à mesma mesa? E antes que se me elabore uma resposta satisfatória para ela ou que me agrade, faço outra: será isso absolutamente necessário? Pois não é! Por que razão objectiva haveríamos nós de forçar a convivência entre seres tão opostos ou, ainda que nem sempre opostos, tão diferentes?

 

Concordo por isso consigo, que só por exercício de pura retórica isso seria de praticar. Também não vejo outro propósito e como o propósito não é esse, não o pratico. Resolvo a questão: sento-os em mesas diferentes, mas vem-me logo outra pergunta que fica por responder: e eu, em qual delas me sento? O que faria, no meu lugar, o senhor?

 

Um abraço

deste sempre seu, desta vez tanto quanto a real efemeridade o queira desejar,

amigo

 

José Francisco

 

 

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