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CHAVES

Olhares sobre o "Reino Maravilhoso"

14
Dez16

Cartas ao Comendador

cartas-comenda

 

Meu caro Comendador (3)

 

 

Sem querer tirar-lhe nenhuma parte da admiração que por si tenho, já em tempos tinha pensado isso mesmo! E apesar de o saber tão bem como o senhor, não deixo de ter alguma esperança em que um dia as coisas possam ser diferentes, embora não saiba diferentes em quê, digo diferentes do que são agora.

 

Podemos, julgo eu, em qualquer caso, fazer um esforço, grande ou pequeno, agora isso depende da maior ou menor facilidade que temos em sair do real, de imaginação e visualizar como nos comportaríamos se, na situação do outro, estivéssemos nós!

 

Concordo consigo em que será sempre uma ficção da nossa parte, essa tentativa de tornar ou fazer parecer real coisas que o não são. É certo que nunca conseguiremos deixar de ser quem ou como somos para temporariamente desempenhar o papel do outro e que todo o nosso empenho nisso nunca será o que baste para servir de ideia ao outro ou ele ter sequer a noção disso. Mas, impossibilidade por impossibilidade, não lhe parece a si que nesse esforço, eficaz ou não, haverá um benefício mútuo? Não será um acto probatório julgarmo-nos um outro para nos podermos julgar a nós próprios? Não poderá vir daí um maior conhecimento a nosso respeito? Tem toda a razão, eu também me pergunto sobre a utilidade disso! Hipoteticamente ela parece poder ter algum valor, mas é muito discutível em que é que na prática isso opera! Umas vezes talvez possa e outras vezes talvez não. Quando as coisas são assim, acha que vale a pena? Perder algum tempo com o que não interessa para poder tirar disso alguma coisa que finalmente nos interesse?

 

Bem sei. Falo consigo como falo comigo! E sabe que isso me coloca uma questão: o que diria eu se fosse o senhor a perguntar-mo? Passamos da retórica à dialéctica ou isto não lhe faz nenhum sentido?

 

No que respeita à carta, gostava de saber responder de forma objectiva às perguntas claras e inequívocas que suponho que faz, mas por causa daqueles dois de quem anteriormente lhe falei, não me consigo pôr de acordo. Repare o senhor que conforme varia o ângulo de visão, assim varia o que é visto e o que é visto nem sempre é o mesmo que o que é observado! Dependendo do nosso estado de espírito, do sonho que tivemos durante a noite, do sonho com que acordámos com vontade de realizar, das pequenas vitórias diariamente conquistadas ou das outras, batalhas onde morremos sem termos tido tempo para lutar, assim vemos o vasto campo que se estende à nossa frente quando abrimos, para ele, os olhos. Mas até o abrir dos olhos às vezes cansa, quando pensamos que pode acontecer ver menos com eles abertos do que com eles fechados! Nunca lhe aconteceu isto? Abrir os olhos e ter preferido não os ter aberto por ter deixado de ver o que antes claramente via? Nunca se lhe turvou a visão por incidência directa do Sol quando o dia estava chuvoso e, apesar disso, dentro de si tudo era claro, límpido, transparente, desobstruído?

 

É como lhe digo, para ser fiel aos meus princípios, só dizendo por um lado sim, por outro lado não, é que consigo responder não à primeira, mas a todas as questões que o senhor colocaria. Como poderia eu dizer-lhe a si, concretamente a si, um sim ou não, se em si tudo é grande e tudo no que é grande pode caber?

 

Fazendo-o, parece-me, correria o risco -risco é talvez demasiado, mas deixemos estar- de ser outra vez incoerente e o senhor sabe que eu tenho um problema grave com isto porque nunca sei de que lado estou! Foi já diagnosticado por mim, um problema em mim de lateralidade, de não saber se o que está ao meu lado esquerdo não o estará antes do lado direito e sei, ao menos identifico eu, que a origem de isso ser não é tanto um sintoma de falta de orientação ou mesmo desorientação, sendo que estas coisas nada têm a ver uma com a outra, mas é em vez disso, ou melhor, antes disso, um vazio na referência! Explico-me melhor, se bem que já o tenha entendido: do lado esquerdo de quê ou de quem? O que define isto?

 

Não estou eu do lado esquerdo de quem me está à direita? E o contrário também? O meu lado esquerdo sou eu que o elejo e se o senhor fizer o mesmo, mas de forma oposta, entramos em conflito. Quem o provocou? Eu posso ser responsabilizado por aquilo que penso, mas que culpa é que tenho de o senhor não estar de acordo comigo?

 

Hoje, deixo-o aqui. Tenho ainda outras cartas para escrever onde, à semelhança do que faço consigo, questiono pelo estado das coisas, das pessoas e do mundo. E sabe que me não respondem?

 

Às vezes receio não ser suficientemente claro no colocar das questões ou tratar-se apenas, sendo claramente optimista, de um qualquer erro no endereço!

 

Consigo é diferente, consigo eu posso contar! Para além de corrigir sempre assertivamente o meu défice, não só em vocabulário, mas em todo o resto, o erro no endereço está fora de questão!

 

Do sempre seu, amigo,

 

José Francisco

 

 

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