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CHAVES

Olhares sobre o "Reino Maravilhoso"

15
Dez16

Palavras colhidas do vento...

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 Para alguns Aleppo fica muito distante, assim como outras “Aleppos”.

 

Se percorrêssemos com o nosso olhar o mapa-mundi e nele viessem assinalados todos os conflitos bélicos, não seria de estranhar que na maior parte ficaria colorido com uma mancha enorme e sangrenta. E se acrescentássemos os estados onde os mais elementares direitos do homem são ignorados, esmagados, então essa mancha com uma tonalidade de matiz mais esbatida, mas não menos cruel e sangrenta, seria um enorme campo de batalha.

 

E se num esforço de análise e de olhar em frente e não para o lado, recolhêssemos todos os incidentes diários nos quais observamos desumanidade, injustiça, desigualdade, prepotência... por esse mapa, então deixá-lo-íamos de ver e todo ele seria um gigantesco ponto negro com raros e pequenos traços em cinzento.

 

O que se passa em Aleppo?

 

Entre as declarações opostas e contraditórias dos beligerantes e aliados, de algumas instâncias internacionais, são os poucos relatos da imprensa, alguma a quem se lhe reconhece verosimilhança, por noutras circunstâncias terem assumido corajosamente a independência perante os poderes políticos, que nos permite conhecer um pouco a realidade perante o véu espesso da mentira, da hipocrisia… e da indiferença.

 

foto amnistia.jpg

Foto da Amnistia Internacional

 

O que se passa em Aleppo e passou por toda a Síria, são massacres e execuções sumárias de civis, tão só por o destino da guerra lhes ditar, estarem num ou noutro bando ou no caso específico de Aleppo, por terem levantado a voz contra o regime de Basher Assad, sem no entanto pertencerem ao Daesh.

 

São as chamadas vítimas “colaterais”, cadáveres a distribuir pelos interesses geo-estratégicos das potências mundiais, das suas economias e da sua indústria armamentista. E não me venham com escolhas de campo… pois, aqui pouco importa a ideologia, cada potência escolhe o tirano ou o poder opressor de turno que melhor serve os seus interesses na luta pela liderança.

 

Sim… tragédias humanitárias, tragédias de guerra.

 

Como os “desastres de guerra” de Goya ou a famosa “Guernica” de Picasso.

 

A história também deveria ser conhecida num longo percurso, por Katyn, My Lai, Wiriamu, Camboja, Afeganistão, Iraque, antiga Jugoslávia, Bataclan (Paris). Promenade des Anglais (Nice) …

 

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O que me motivou a escrever sobre Aleppo, não é só o que escrevi antes, mas também o que vem a seguir.

 

Uma cigana romena pedia junto à estação de correios naquele salmodiar de pedir esmola habitual. No final desejava um bom natal a quem passava. As pessoas ladeavam-na e prosseguiam nos seus afazeres. Pois bem, no tempo que pude ver, quatro pessoas das que por ela passaram, insultaram-na.

 

Aceita-se, quem lhe dê esmola e quem não dê, a ignorem ou agradeçam os votos de boa saúde e bom natal. Agora, ninguém tem o direito de a ofender, por pedir, ser cigana, romena e seguir maioritária ou minoritariamente a tradição de sua etnia. Agora, por certo, que o insulto daquelas pessoas não deixou de contribuir para ela, na sua sina, aceitar, encorajar ou praticar os actos ilícitos que o vulgo atribui à sua casta…

 

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Conheci com alguma proximidade o drama de uma família do concelho de Chaves, que, como tantas outras emigraram para França. Primeiro ele, depois a mulher, e os dois filhos já nasceram em Paris. Habitavam num bairro com muitas famílias árabes… de Argélia, Tunísia… Os filhos frequentaram a escola francesa. E tinham colegas árabes… seus vizinhos. Os pais seriam de umas das primeiras gerações de emigrantes… endireitaram a vida, pensaram edificar casa na terra natal, mas, a sua vida já estava organizada em França e preferiram adquirir um apartamento no Algarve, para passar férias, que nunca fizeram, e sim em Trás-os-Montes, junto da família.

 

Os filhos e principalmente o rapaz, preferia ficar em França. No auge do recrutamento do Daesh na Europa, ele não ficou imune à sua convivência na escola e no bairro onde morava, com os colegas muçulmanos. Comungava com eles o espírito de rebeldia, não aceitava, como eles, a resignação dos pais perante a sobranceria como eram tratados pela sociedade francesa, serem postos de parte ou mesmo vistos com ares de desaprovação ou mesmo ódio racial.

 

gerald bloncourt-1.JPG

 

 

Eram e poderíamos dizer como no presente, tempos da Front National e dos seus resultados encorajadores nas eleições…

 

Partiu para o Iraque…

 

Depois de dois ou três anos de ausência de notícias… alguém comunicou o falecimento em combate à família. Não disseram onde, nem quando…

 

Limito-me à descrição dos factos como os conheço.

 

Porquê um jovem, que não teve as dificuldades dos pais em procurar uma nova vida, do bem-estar que não tinham, acaba por morrer ingloriamente no Iraque?

 

Eu responderia, as razões aventadas no início, a cultura de gueto, a desigualdade, a sobranceria como os estrangeiros são tratados, o racismo nas suas diferentes formas, o desrespeito pelas minorias, pela diversidade étnica e religiosa, o discurso de ódio de alguns partidos políticos…

 

Ficamos por aqui, e como vêem, Aleppo não fica assim tão longe…

 

Mário Esteves

 

 

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