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CHAVES

Olhares sobre o "Reino Maravilhoso"

20
Dez16

Chaves D'Aurora

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  1. VENCIDOS.

 

 Durante todo aquele 8 de julho de 1912, ouviram-se tiros e gritos ao longe. Mais forte ainda era o troar de canhões ao Forte de São Neutel. As escaramuças continuaram, até que se ouvissem apenas alguns tiros esparsos, mas cada vez mais próximos da Estrada do Raio X. Apeados, a cavalo ou em carroças, viam-se passar pela estrada, aos magotes, os aguerridos monárquicos em fuga. Certamente influenciados pelos curas de suas freguesias, eram em geral aldeães muito jovens, alguns deles pouco mais do que um puto, bastante feridos ou já agonizantes, com as mãos a tentarem segurar suas vísceras expostas.

 

Eis que se deteve, à frente da casa dos Camacho, uma dessas viaturas com baleados e estripados. Um dos rapazes, o que apresentava melhores condições de sanidade física e mental, correu até à porta de entrada e gritou – Ó de casa, pelo amor de Deus! – mas obteve, em resposta, um silêncio de medo, parecendo que ninguém habitava por ali. O monárquico insistiu – Abra, pelo amor de Jesus Cristo Nosso Senhor!

 

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 Fotograma do filme "Chaves, incursões monárquicas" 1912

 

Abriu-se. Quando o dono da casa apareceu, o fugitivo perguntou, de arma em punho – De que lado são os senhores, monárquicos ou republicanos? – o velho não sabia o que responder, por não conseguir diferençar, àquela altura, de que lado estavam os intrusos. Hernando, porém, então rapazinho, valeu-se do oportunismo e da sagacidade que sempre haveriam de marcar o seu caráter – Nem uma coisa nem outra, somos ciganos.

 

Muito a contragosto, seu pai, Germano Camacho acabou por mandar os fugitivos se acoitarem ao pátio, para que bebessem água e vinho, comessem alguns nacos de pão e, dentro do possível, os sãos cuidassem dos feridos, até que chegasse o momento propício de todos se evadirem em segurança.

 

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  1. VENCEDORES.

 

Algumas horas depois, as criadas da Grão Pará já haviam descido para dormir, quando bateram de leve à entrada do porão – Abram, abram se faz favor! – e a Zefa temerosa, mas expedita – Ó de lá, quem é? Cá não está ninguém, só eu e Deus. Os patrões estão a andar pelo Brasil – mas a voz insistia – Abre, tiazinha, abre se faz favor! – e a Zefa, hesitante – Ai, Maria! E se calhar é o meu sobrinho Felício, que está para chegar a Chaves? – Não faz isso, Zefa, olha que tu nos pões a perder, a nós e a todos os lá de cima!

 

Zefa pegou uma vela e, afinal, abriu a porta bem de leve. A mão de um homem empurrou-a forte para dentro – Obrigado, tia! – e após olhar bem para as duas – O que são cá as minhas tias, monárquicas ou republicanas? – ao que Maria, movida por pura ingenuidade, imitou sem saber o jovem Camacho – Nem isso nem aquilo, somos barrosãs.

 

Era um rapaz de uns dezanove anos, que estava a servir no quartel de Chaves e apresentava alguns ferimentos leves, além de se mostrar visivelmente abatido, cansado, faminto e sedento. – Expulsamos os filhotes de El-Rei e fomos atrás dos canalhas, mas um deles quase me acertou de jeito! – as duas o ajudaram com alguns curativos, água, vinho, pão, presunto e umas enxergas para descansar. Não sabiam elas que, a um migalho depois, iriam fazer o mesmo a outro jovem, um pouco mais novo do que o primeiro, dessa vez monárquico.

 

O segundo rapazola estava em idênticas condições físicas, mas com o moral bem mais abatido. Havia pulado o muro e entrara pela porta dos fundos, a qual Zefa, por distração, deixara aberta. Ao ver chegar o inimigo, o republicano ergueu-se a um pulo rápido e tentou sacar da arma. Estava sem munição. O outro, desarmado, atirou-se contra ele e começaram a lutar.

 

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  Fotograma do filme "Chaves, incursões monárquicas" 1912

 

Zefa e Maria ficaram apavoradas, temerosas de ver o patrão e o Manuel descerem e atirar nos dois, se bem que os fatigados vigilantes da Quinta Grão Pará já estavam a cochilar na sala, há muito tempo, malgrado o desconforto de seus postos de sentinela. Maria de Tourém tomou coragem, atirou-lhes uma botija com água fresca e se interpôs entre os moços – Parem! Parem com isso e vão lavar os seus cueiros cagados, seus fedelhos! Parem, que a guerra é lá fora!

 

Talvez os jovens só precisassem dessa voz enérgica e, ao mesmo tempo maternal, como pretexto para cessar a contenda. Dentro de alguns minutos, já lá estavam a beber o vinho da mesma garrafa e a contarem histórias e anedotas das gentes de suas respetivas aldeias. Pela manhã, Zefa os surpreendeu a dormir juntinhos, aconchegados sob os lençóis, devido ao ar fresco dessas madrugadas amenas de verão. A essa altura, uniam-se contra um inimigo comum, o cansaço.

 

Após o rápido pequeno-almoço que lhes fora obsequiado, aquele que já se pressentia vencedor disse ao vencido – Vem, levo-te ao Hospital Militar, no Forte de São Francisco. Tens que ver essa perna, que bonita não está! – ao que o outro rapazola, quase a chorar – Não, não, preciso voltar à minha aldeia. Se me levas a Chaves, acho que me vão passar aos fuzis ou me fazer malhar com os ossos na cadeia! – mas o vencedor tirou-lhe as fitas e os símbolos da monarquia – Não fuzilamos prisioneiros. Mas pronto, agora já não és mais monárquico. Nem republicano. És apenas um rapaz como eu – e os dois saíram pelo Caneiro afora, rumo ao centro histórico de Chaves, o que estava mais são a apoiar o mais ferido, como se fossem velhos e queridos camaradas.

 

filme "Chaves, incursões monárquicas" 1912 - Sem som

 

 

 

 

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