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CHAVES

Olhares sobre o "Reino Maravilhoso"

23
Dez16

Discursos Sobre a Cidade

GIL

 

AS MANHAS DO CITOTE

 

Abel Apolinário era Citote no tribunal da comarca.

 

Nascido em finais do século XIX, nos corgos do Brunheiro, assentou praça no 19 quando fez vinte primaveras. Rude como as fragas que o pariram, não lhe poderia ter calhado melhor sorte. O serviço militar trouxe-o à cidade e abriu-lhe as portas a um mundo novo. Foi o rei da mandingança, no velho quartel do castelo.

 

Do Brunheiro vinha afeito a carolos de centeio ressesso e a caldo de tresontonte, sem pingue e, por conseguinte, não era biqueiro! No quartel, rancho e casqueiro era comida de lorde!..

 

Aprendeu a ler e a escrever na Escola Regimental e, por isso, foi graduado em Soldado Arvorado. A necessidade fê-lo guitcho e a mobilização para a Grande Guerra foi a melhor desgraça que lhe poderia ter acontecido. Sorteado para França, em Agosto de 1917, de onde pensava não regressar vivo, partiu, à pata, com os demais, numa madrugada, carregado como um ouriço-cacheiro para Mirandela, a fim de apanhar o comboio para Bragança e mobilizar com o 30.

 

Daí a três dias embarcou, no Cais de Alcântara, rumo a Brest, na segunda semana de setembro. Durante os três dias e as três noites da viagem, a bordo do navio Inglês Flavia, cuidou de morrer de tanto vomitar.

 

Malvada Biscaia que o ia tchimpando!

 

Entre lixo, mulas e machos, pulgas e percevejos e muito sofrimento, chegou a Brest mais morto do que vivo. E foi uma sorte ter lá chegado, porque muitas vezes teve de meter cortiças ao peito pela ameaça de ir ao fundo à conta dos submarinos alemães.

 

Depois foram mais três dias de comboio até à Flandres, onde comeu o pão que o diabo amassou!

 

Passou muita fome e muito frio.

 

Andou dias e dias ensopado.

 

Foi pasto de pulgas, piolhos e carrapatos.

 

Escornou camones e franceses.

 

Limpou o sebo sei lá a quantos boches, por quem tinha um ódio figadal fabricado pela propaganda de guerra.

 

Organizou patrulhas de combate, de reconhecimento e de escuta.

 

Atirou birilaites (very lights) sem conta.

 

Esfourou-se todo a cortar prego!

 

Rilhou arame farpado e excomungou a Terra de Ninguém, a que os camaradas chamavam Avenida Afonso Costa.

 

Cantarolou o Fado do Cavanço, nas noites de luar, para esconjurar o medo!

 

Comeu latas e latas de corneed-beef e bebeu o chá das cinco, feito com a água quente do cano de arrefecimento da Luísa. Mas nunca lhe chaldrou! Antes queria batatas e couves regadas com um fiozito de azeite e um copo de tinto. Chá era para as senhoras e para os pandeleiros dos beefs, como ele dizia!

 

Desviou muito feijão vermelho, batatas e pencas das quintarolas dos paisanos.

 

Assobiou às donzelas francesas, mas não foi capaz de conquistar o coração de nenhuma, apesar de dominar o patoi como poucos.

 

Arreganhou os dentes dos escoceses a quem chamava mademoiselles de tranché.

 

Visitou por diversas vezes o Drapeau Blanc em Merville pelas buscates. Era o único consolo que lhe restava naquela guerra excomungada. Nem sequer pensava no risco de uma sífilis que o tolhesse. Teve sorte, nem sífilis nem gonorreia. Não havia bitcho que o penetrasse!

 

O roulement punha-o seis dias nas linhas da frente e outros tantos na retaguarda. No front, entrincheirado, resistia à fúria da metralha, à doença, ao medo, ao frio e à fome. Na retaguarda, para esquecer, embebedava-se nos Estaminets!

 

Mas, aquela maldita madrugada de 9 de abril ia sendo a sua derradeira!

 

Escapou por obra e graça da Virgem Maria de quem era aturado devoto.

 

Integrado na célebre Brigada do Minho, no 8 de Braga, caiu prisioneiro dos alemães pelas 6 da manhã de 9 de abril de 1918. Engrunhadinho numa cova de morteiro, semienterrado na lama, viu chegar um boxe rude que lhe encostou a baioneta ao peito dizendo:

 

Hund, werden sie trinken kaffee nach Deutschland!

 

Não percebeu nada, nem lhe interessou perceber! Aquelas palavras foram a sua salvação! Levantou as mãos, tão alto quanto pôde e rendeu-se:

 

Sui bom prisionére, sui bom prisionére, salve moi good boxe!

 

Andou três dias e três noites a enterrar alemães mortos nessa Batalha de La Lys. Depois foi com mais 6 500 camaradas para a Citadelle de Lille, onde ficou três dias a pão (pouco) e água. Dali partiu para Friedrischsfeld de onde o separaram dos oficiais e o mandaram por diversos campos ao longo do vasto império alemão.

 

Sobreviveu à miséria dos campos de prisioneiros, à raiva dos alemães e às baionetas das Mausers. Mas da fome, negra, não se livrou, pese embora a misericórdia dos prisioneiros franceses que lhe davam a sopa de beterraba que não comiam.

 

A Grande Guerra acabou a 11 de novembro de 1918 e ele regressou à nação pátria apenas em fevereiro de 1919, escanzelado!

 

As peripécias da guerra e do cativeiro marcá-lo-iam ainda mais do que o próprio gás mostarda dos alemães.

 

Fixou residência em Chaves e não mais quis saber da aldeia que o viu nascer. Visitava-a apenas em dias de festa e para receber a paga dos favores que fazia. Casou e arranjou emprego no tribunal da comarca como Oficial de Justiça ou de Diligências como alguns, poucos, sabiam dizer. Para a maioria era o Abel Citote e para outros, os mais marotos, simplesmente o Piçote!

 

Um ótimo emprego aquele e ainda para mais num lugar tão importante. Uma ocupação em que chegava a ganhar, por fora, mais do dobro do seu salário!

 

Dada a iliteracia do povo, a complexidade e o temor dos assuntos da justiça, qualquer amigo, ou conhecido que se enrolasse no tribunal passava, invariavelmente, pelo Piçote. Do favor prestado saía com as mãos bens untadas, mesmo quando nem uma palha mexia!

 

Tinha a tenda bem armada o sacripanta!

 

Por tal, gozava de grande prestígio junto dos conterrâneos planálticos. Quando ia pela aldeia, os vizinhos até se engaliavam para que aceitasse um copo e uma lisca de presunto nas suas adegas!

 

Ora, o Ti Gregório Floriano tinha uma desavença antiga com o vizinho Higino Catrapisca, por causa de uma passagem para umas leiras de cultivo. O Gregório era proprietário de uma touça encravada entre a estrada nacional e a cortinha do Higino que fora herdada de seu sogro. O Catrapisca, para poupar caminho, quando queria aceder à propriedade, atalhava por uma rodeira que atravessava a touça a meio. Gregório, reclamava o direito do seu uso exclusivo e queria privá-lo da dita passagem. Aquele ateimava, reclamando a servidão de passagem.

 

Não havia maneira de se entenderem!

 

O assunto vinha-se arrastando há anos e pelos arrufos crescentes, adivinha-se que pudesse acabar mal! O Higino era das felpas do diabo. Todos o temiam. Andava quase sempre armado e metido em zaragatas. Já tinha, inclusivamente, estado preso por esmoucar os de Loivos na festa do Fernandinho! Por isso, o Gregório, cortava-lhas e então começou a ponderar recorrer ao tribunal para lhe tirar pela justiça o que não se atrevia a tirar-lhe de outra forma.

 

Mas como é que o havia de fazer?

 

Teria, certamente, de recorrer aos serviços de um advogado.

 

Consultou o Dr. Fagundes Seitouras que depois de ouvir o caso o esclareceu de que se tratava de um direito de servidão e como tal o Higino, uma vez que não tinha alternativa para acesso à cortinha, o poderia fazer através da touça. Mas que se ele quisesse, que ainda assim, meteria o caso em tribunal e deixaria que fosse o juiz a decidir. Pagou a consulta e pediu-lhe alguns dias para pensar.

 

Foi almoçar à casa de pasto do Horácio no Tabolado, onde era cliente habitual. Por sorte, ou azar, cruzou-se com o Apolinário no repasto. Conhecido de longa data, Abel convidou-o para a sua mesa e mandou vir uma bacalhoada que o Gregório fez questão de pagar! Depois de uma conversa de ocasião sobre o tempo e as sementeiras, entre umas azeitonas quartilhadas de Brunhais e meio quartilho para fazer boquinha, veio à liça a questão da passagem.

 

Que não se fintasse na treta do Fagundes que apelidou de grande bigairista! Ele mesmo lhe arranjaria um bom advogado com a garantia de que o caso se resolveria a seu favor. Para o efeito mexeria os cordelinhos no tribunal!

 

Feito com o Dr. Donzílio Carrapiço, prontificou-se a marcar-lhe uma consulta para dar andamento ao processo. Que viesse no dia de feira falar com o tal, que tudo se haveria de ajeitar.

 

Assim foi!

 

No dia aprazado lá estava Gregório no escritório do Carrapiço. Marcaram uma visita ao local. Donzílio observou a propriedade de um lado e do outro, analisou caminhos e carreiros alternativos, escrevinhou breves notas e botou a sentença: Que tinha toda a razão! Higino não tinha nada que passar pela sua propriedade, uma vez que havia outras hipóteses de acesso. Contudo avisou que a causa não lhe ficaria muito barata, uma vez que se tratava de um processo complexo e de muitos custos. Cinco contos de reis em aceitando a sua intermediação!

 

Gregório, fazendo fé nas garantias do Citote, aceitou.

 

Claro que a ida do avogado à aldeia não passou despercebida ao Higino, que logo tratou de dar os passos necessários para contrariar o que o outro pudesse estar a congeminar. Aproveitou uma feira e consultou o amigo Piçote. Que tinha toda a razão. Cabia-lhe o direito a passar pela touça do Gregório sim senhor e este não o poderia impedir com base no direito de servidão. Ele próprio manobraria os cordelinhos no tribunal para que a decisão lhe fosse favorável. Mas que consultasse um advogado amigo que lhe trataria das papeladas e em conta. Que fosse ao Dr. Adérito Acúrcio e que dissesse que ia da sua parte!

 

Assim fez!

 

Que sim que tinha toda a razão e que facilmente ganharia a questão, mas que lhe custaria cinco contos de réis.

 

Aceitou!

 

O caso deu entrada no tribunal mas demorou a ser resolvido. Passados meses o juiz decidiu-se pelo tal direito de servidão e deu razão ao Higino.

 

Gregório ficou possesso e foi pedir contas ao Piçote. Raposa matreira, atirou com o fardo para a incompetência do Carrapiço.

 

— Um bigairista esse Donzílio! Nada sabe de leis e anda a enganar meio mundo. Não ganha uma questão o filho da puta! Eu só lho indiquei porque o caso era muito fácil e ele leva barato, além do mais eu tinha a coisa mais ou menos controlada no tribunal, mas correu mal. O bandalho meteu a pata na poça defendendo que havia alternativas de passagem, quando de facto, pelos vistos, só ele é que as viu! Mas deixe estar que o filho de uma cadela sarnenta não há de comer mais ovos que eu ponha! E quanto à passagem, amigo Gregório, deixe lá o Higino passar pela rodeira, ao fim e ao cabo pouco prejuízo lhe dá, assobalha-lhe apenas gestas e tojos!..

 

Como de facto, o Gregório nunca tinha pensado que o prejuízo daquela passagem era, afinal, ínfimo e, além do mais, não era tão frequente quanto isso!..

 

Que se fodesse o Higino e mais os cinco contos!

 

Mais valia a paz entre os vizinhos do que todas as giestas e tojos do mundo!

 

 

— Ó Ti Apolinário vamos, mas é, comer umas alheiras com grelos ao Horácio que hoje quem paga sou eu! (mal ele sabia com que dinheirinho!).

 

Gil Santos

 

 

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