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CHAVES

Olhares sobre o "Reino Maravilhoso"

27
Dez16

Chaves D'Aurora

1600-chavesdaurora

 

  1. NOVOS TEMPOS.

 

Alguns anos depois, bafejado pelos novos ares de mudança da República e ainda a funcionar em um prédio ao Largo do Anjo, o Liceu de Chaves tornara-se um estabelecimento de ensino misto. Algumas raparigas já lá estavam a estudar, ao lado dos rapazes, entre os quais Afonso e Alfredinho, os filhos de João Reis. Entretanto, naqueles primeiros anos do século XX e naquelas paragens, perdidas por trás das montanhas, o patriarca mostrava-se totalmente avesso a qualquer mudança de hábitos pessoais e de costumes da sociedade tradicional. No concernente às meninas, umas já adolescentes como Aurita e Aldenora, outras a se pôr, como Aurélia e Arminda, Reis considerava que a sua excelente situação financeira poderia proporcionar as condições necessárias para que elas desfrutassem, àquela altura, do que de melhor houvesse para as jovens flavienses de boa origem familiar.

 

Na falta de um colégio religioso local que João Reis, face ao exigido por seus cuidados paternos, considerasse estar ao topo do Everest, a educação das raparigas era feita por lecionistas em domicílio. Tais explicadores levavam até à Quinta o que havia de melhor na prosa original de Alexandre Dumas, na boa sintaxe da língua camoniana e nas sonatas de um belo e afinado piano. Além das aulas básicas para o aprimoramento da língua pátria, exigia-se a leitura constante de bons autores portugueses (ou seja, aqueles cuja obra fizesse jus ao Imprimatur da Igreja, por não constarem do Índex de proibições do Vaticano). Tudo isso era um grande privilégio das meninas Bernardes, àquela época, pois segundo o Censo de 1911, em Portugal, cerca de 95% das mulheres com mais de 10 anos de idade eram analfabetas.

 

As lições especiais de etiqueta social, moral e cívica eram transmitidas pela mais rigorosa dos lecionistas, a sisuda (e ossuda) Mademoiselle Margot des Saints, que vinha ministrar às meninas as belas regras de postura e elegância, junto com as normas da Religião e do bom comportamento moral em sociedade. Corpo feito um espigão de milho e afinadíssima voz de gralha, tinha sempre as mãos plenas de vigor para o uso da palmatória.

 

Mademoiselle parecia estar sempre a se deliciar, de um modo especial e pervertido, com esse medieval instrumento de tortura, quando se punha a aplicar dolorosas palmadas às pupilas, com uma indesejável frequência para as vítimas, embora aquilo tudo fosse mais de efeito moral do que físico. Parecia mesmo arfar de prazer em ver aquelas mãozinhas se tornarem púrpura viva, apenas por uma simples colher de prata que fosse erguida sem a devida elegância, ou uma taça para água trocada pela de vinho. Divertia-se mais ainda com as lágrimas revoltadas da pequena Arminda, a mais nova e atarantada do clã familiar.

 

Certa vez, ainda que não o revelasse par finesse, Des Saints ficou muito ressentida com o senhor João Reis, por este não permitir que Aldenora mostrasse os seus dons de declamadora nata, a um sarau no Liceu. O programa, além dos brilhantes poetas e contumazes declamadores, tinha uma parte musical primorosa: “Danae”, de Breuskine; “Célèbre Minuette”, de Boccherini; “Pétite Fleur”, de Telam; “Rêverie”, de Botekini e mais “As Ceifeiras” e o “Fado-serenata”, estes últimos de autoria do senhor doutor Alfredo de Morais, cantados por um grupo de alunos e alunas do colégio.

 

Esforçara-se para explicar em vão que, além do pequeno concerto musical, seria ainda mais divertido para os miúdos assistirem a uma parte dramática, em que se levariam as comédias “Uma anedota” e “À procura d’um emprego”. Os Bernardes, todavia, não compareceram. No pódio literário, onde deveria brilhar a menina Aldenora, os aplausos foram para “a precoce miúda Beactriz Monteiro, que recitou – em Francês! – uma poesia de sua própria lavra, ‘Le courveau et le renard’ “.

 

João Reis também levou alguma tristeza a dona Clementina Bó de Sá, insigne pianista e mestra do teclado. A digna senhora convidou Aurora, que estava a se relacionar muito bem com as partituras, a participar do concerto anual que dona Bó fazia levar ao Cineteatro Flaviense, para mostrar os dotes musicais de suas discípulas. Mais uma vez, o patriarca não deu a sua devida permissão.

 

Ainda resíduo do século XIX, mas um procedimento fundamental para a época, essa educação fazia da loura Aurora e da morena Aldenora, além da singular beleza de ambas, com os seus corpos delgados e belos portes, os mais invejáveis exemplos de raparigas bem instruídas, educadas para a arte de bem casar. Guardadas, no entanto, por milhões de olhos severos de Papá, que pareciam multiplicar-se por toda parte nos recantos da Quinta; escondidas e interditadas por ele da vida social flaviense; tudo isso e mais alguns migalhos dificultavam saber, de facto, quem, onde e quando elas iriam encontrar, em Trás-os-Montes, os noivos tão sonhados, se até os aniversários de qualquer um da família eram festejados somente entre as pessoas da casa, com um e outro raro convidado.

 

 

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