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CHAVES

Olhares sobre o "Reino Maravilhoso"

29
Mar17

Cartas ao Comendador

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Meu caro Comendador (18)

 

O que mais lamento nos outros é serem quem são, quando podiam ser outros! E embora o senhor me não faça a pergunta porque sabe a resposta, pode haver quem pergunte se eu me não ponho essa questão em relação a mim! E, podendo ser não, não constitui isto arrogância nenhuma a meu ver, porque no meu caso estou consciente disso e mantenho-me assim por decisão própria. Ainda que ela tenha muito de involuntário, tem também muito de racional.

 

Respondo-me contudo à eventual pergunta: quem poderia eu ser em vez de mim ou no meu lugar? Talvez alguém diferente, mas nunca ninguém melhor! Conheço os riscos desta afirmação, as consequências, as implicações, as contrariedades, e não vejo nenhum aspecto nisso que acrescente ou justifique o mudar de personalidade. Sinceramente acho que seria capaz, se a isso me dispusesse. O senhor sabe desta minha facilidade em criar personagens de pura ficção, de construir um boneco coerente, credível, aceitável por maioria e perfeitamente adaptado aos valores da nossa sociedade, fazendo-o até parecer real! Sabe também que não me custaria rigorosamente nada fazer dele um herói, um líder, uma mascote, um exemplo a seguir, uma referência. Sabe ainda que sustentaria, se fosse meu propósito, essa imagem ao longo do tempo sem qualquer dificuldade, posto que consigo fazer parecer através de uma imagem o que um artista se propõe fazer passar numa das suas obras de arte. No caso do ser humano é ainda mais simples, basta dar corda ao boneco! Sim, tem absoluta razão, trata-se de um jogo do qual conheço as regras, a forma de as contornar, de as superar, de as fazer parecer o que eu decido que quero que elas pareçam. E, não tenho para isso necessidade de fazer qualquer legenda, porque sei construir à volta disso uma história que verdadeiramente a justifique e a faça perpetuar ao longo dos tempos! Mas, não quero nada disso! Quero o contrário disso!

 

O que me atrai é a autenticidade, o ser genuíno, ainda que isso só me traga complicações em termos sociais:

 

“Não diga isso, não seja assim...”

 

Pergunto-me se as pessoas têm a noção do papel ridículo que nesse contexto desempenham! É honesto pedirem-nos para sermos diferentes do que somos? Se fossemos fazer o jeito a todos os que nos querem como diferentes do que somos, seriamos marionetas nas mãos dos outros! É então isso que nos pedem? É disso que gostam? As pessoas gostam é delas e como não têm coragem de o assumir, porque é relativamente chato olhar para o espelho e perguntar se “existe alguém mais belo do que eu?”, pedem aos outros para serem diferentes, iguais ou semelhantes a elas, para que depois lhes seja relativamente fácil dizer: “Eu amo-te!”

 

E é isto que eu lamento, que as pessoas tenham esta tendência de castração para tudo o que lhes é alheio, diferente ou se calhar superior! Ora aí está! Sem querer, encontrámos talvez a verdadeira razão disso ser: não conseguimos lidar com o que nos aparece como desconhecido e que de forma inconsciente apelidamos de inferior a nós, porque a arrogância e as limitações que temos, só nos permitem saber lidar com o que já conhecemos e que por isso dominamos!

 

Ao contrário, o senhor sabia, mas não conseguiu! Um dia confessou-me, e isto em si é pontual, que há mais de trinta anos o não dizia a ninguém! Na altura fiquei, confesso-lho hoje, mal surpreendido porque interpretei o facto como uma enorme dificuldade da sua parte em manifestar sentimentos e isto para mim era e é uma limitação do ser humano com que eu lido mal! Percebo hoje que o motivo é este de que aqui lhe falo! Sabia reconhecer nos outros, em certos níveis ou aspectos, uma superioridade em relação a si e nunca mo explicou porque achava que eu o percebia! Pois não foi verdade, assustei-me até com essa afirmação parecendo-me na altura que teria um coração de pedra a funcionar artificialmente, por oposição ao cérebro que me parecia humano! Hoje sinto-me ridículo por ter pensado isso!

 

O senhor acha que eu me contradigo?

 

Um abraço do

José  Francisco

 

 

28
Mar17

Chaves D'Aurora

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  1. MOSCAS E MOSQUITOS.

 

Apesar de morar tão próximo de Hernando, Aurora passou muito tempo sem vê-lo. Como acontece quando se espanta uma incómoda mosca, mas o inseto persiste em voejar em torno do incomodado, assim estava a menina a tentar nunca mais pensar nele. Esse mosquito maroto, no entanto e por diversas vezes, vinha que lhe vinha pousar à lembrança ou, até mesmo, materializar-se em carne, osso e sedução. Tal ocorreu a um entardecer, em que ela estava a passear com os familiares, por entre as alamedas do Jardim Público.

 

 Era véspera do feriado em que se iam comemorar cinco anos da vitória dos republicanos, contra a incursão monárquica em Chaves. O florido parque, construído entre as margens do Tâmega e a Avenida Dom João I, na Madalena, relativamente próximo à Quinta Grão Pará, ainda hoje é um belo e bucólico recanto. Naquele tempo, aos fins de semana, Reis tinha o costume de levar a família a passear, para usufruir, nos dias soalheiros, do excelente passeio pela fresca das brisas que as árvores proporcionavam.

 

Nessa noite de 7 de Julho de 1917, o Jardim Público apresentava-se ornamentado com uma profusa iluminação elétrica, para fazer jus a um festival de grandes atrações: concerto de canto coral com alunos da Liga Flaviense; queimação de vistosos fogos-de-artifício, pelos mais hábeis pirotécnicos da localidade; um grupo de “gentis damas da sociedade de Chaves” a vender sortes, no recinto de um bazar organizado às proximidades do coreto e cujas rendas, incluindo o aluguel de cadeiras, seriam revertidas em favor da subscrição nacional pelas vítimas da guerra e suas famílias órfãs. Haveria também a distribuição do bodo (roupas e alimentos) aos pobres.

 

 

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Jardim Público de Chaves. Coreto. (PT). Foto de Raimundo Alberto (2010).

 

Máxime seria o Hino Nacional cantado pelos praças da Cavalaria 6 e da Infantaria 19, juntamente com a admirável Banda dessa Infantaria, a qual, como já o fazia habitualmente, iria tocar lindas peças musicais: “O Barbeiro de Sevilha”, Ouverture, de Rossini; “Madame Butterfly”, de Puccini; “Segredo do Rajá”, de P. Ribeiro; “Regresso a Chaves”, de O. Douvens; “Tanauser”, opereta, seleção, de Wagner; “Cantares da Aldeia”, de B. da Costa e outros melódicos manjares, dentre os quais algumas mazurcas e zarzuelas.

 

Comentava-se elogiosamente que, com a nova iluminação do Jardim, os integrantes da Banda podiam agora ler melhor as partituras, sem a deficiente luz elétrica anterior, pois, às vezes, aquela chegava a interferir no desempenho das mãos ou da boca dos músicos. Até então, muitas vezes, tornava-se bem difícil aos olhos destes conseguir, com exatidão, descobrir o que se estava a enxergar nos pentagramas. Já não bastassem os pequenos insetos, que teimavam em pousar sobre as partituras e se confundirem com as notas da composição! Disso tudo, resultavam desafinações eventuais, nada agradáveis e eufónicas aos ouvidos do público, menos ainda aos componentes da Banda. Para os músicos, realmente, isso era constrangedor.

 

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27
Mar17

Quem conta um ponto...

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335 - Pérolas e diamantes: Só os burros…

 

Confesso que as entrevistas já me começam a aborrecer um bocadinho. Algumas são tão enfadonhas que dão sono logo na primeira resposta. Outras prolongam o enfado e o sofrimento até à segunda pergunta. Existem porém outras que se podem ler até ao fim. Mesmo que, por vezes, nos provoquem um abrir de boca lá pelo meio, que nós disfarçamos para podermos continuar a lê-la sem problemas de consciência ou de pudor.

 

Foi o caso da entrevista de António Barreto ao Sol. A mim avivou-me a memória, o que desde já lhe agradeço. De facto, a nossa entrada no século XXI tem sido um bocado dura. Sobre o futuro, o tempo o dirá. Mas o século passado foi um horror. E dos grandes. Foi o pior século de todos, mesmo parecendo o contrário.

 

Do ponto de vista das realizações positivas podemos lembrar a paz e a riqueza, a penicilina, a aspirina, a esferográfica, a televisão, os computadores e os telemóveis. Mas o século XX ficará na História como o século onde se desenrolaram as piores guerras da Humanidade, onde houve o maior número de mortos e torturas da Humanidade. Execuções sumárias, campos de concentração, prisões em massa, intolerâncias inimagináveis, comunismo, fascismo e nazismo.

 

Pelo menos numa coisa Mário Soares teve razão: o comunismo é o grande embuste da História.

 

Mas deixemos falar António Barreto: de tudo aquilo que o comunismo prometeu, nada realizou. “Nem o internacionalismo, nem a paz, nem a igualdade, nem o progresso científico e tecnológico, nem a democracia. Tudo isso, o comunismo destruiu. E o comunismo tem no século XX tantas responsabilidades ou mais que o nazismo… o comunismo foi uma das grandes chagas do século XX.”

 

Para não nos ficarmos só pelos pareceres vagos das palavras, passemos aos números. Na União Soviética, o comunismo foi responsável por cerca de 45 milhões de mortos. Na China o número ficou-se pelos 35 milhões. Já para não falar do vergonhoso tratado feito entre a União Soviética e a Alemanha nazi que deu de barato dois anos para Hitler invadir a Europa e incendiar o mundo.

 

Como não podia deixar de ser, os entrevistadores conduziram o entrevistado para os caminhos de confronto com o seu antigo partido. O PS acha que António Barreto é agora um bocado de direita. Ele responde que os socialistas “terão feito mais arranjinhos com a direita” do que ele. “Com a direita política, com a direita económica, com a direita financeira, com a direita cultural…”

 

E dá exemplos: tudo o que aconteceu na economia e na banca. “Houve uma grande promiscuidade entre os interesses económicos e políticos de alguma direita e de alguma esquerda do PS.”

 

Daí nasceu a “peste negra que é o BES e a família Espírito Santo”. Que coincidiu com uma “espécie de praga, a praga Sócrates. Faz lembrar uma praga bíblica”.

 

Ele há cada coincidência. É como a crença na existência das bruxas.

 

“Tudo o que correu mal em Portugal acaba sempre por pôr em realce a ligação entre o BES e o PS de Sócrates.”

 

António Barreto interroga-se, como nós nos interrogamos, de como é possível que exista um buraco de seis mil milhões na CGD, de quatro ou cinco mil milhões no BES, de três ou quatro mil milhões no BPN e ninguém saiba de nada. “Não há culpados nisto tudo? Não há ladrões?”

 

De facto, “a democracia portuguesa está penhorada e cativa por causa da economia e do sistema financeiro”.

 

Se dos processos do BES e de Sócrates, e da CGD já agora, nada resultar de substantivo, haverá “uma espécie de afundamento definitivo da Justiça portuguesa, talvez da democracia portuguesa”. 

 

Sinto que por vezes há necessidade de sermos conservadores porque há coisas do passado que é importante guardar: certos afetos familiares, alguns valores identitários, carinho pela História e por algumas tradições. Rejeitando, no entanto, as velharias bafientas e a autoridade sem sentido, nem objetivo. Mas também existe a necessidade de ser progressista, porque o futuro é uma coisa que devemos construir em comum e em liberdade.

 

Além, disso, e como dizia Mário Soares: Só os burros é que não mudam de opinião.

 

 João Madureira

 

 

26
Mar17

O Barroso aqui tão perto... Sezelhe

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Hoje em “O Barroso aqui tão perto” tocou a sorte a Sezelhe ou Seselhe, não sabemos bem, pois o topónimo da aldeia aparece grafada de ambas as formas e embora o mais comum seja Sezelhe com z, no sítio da freguesia e no livro Montalegre aparece o seguinte: “Os documentos conhecidos não autorizam a grafia deste topónimo com z como por aí se vê escrever”.

 

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Mas antes de irmos mais a fundo a esta coisa do Z ou S de Sez(s)elhe, façamos uma breve abordagem pessoal à aldeia ou redondezas, pois uma coisa é passar na estrada com a aldeia ao lado ou estar na albufeira com a aldeia lá em cima e outra coisa é entrar na sua intimidade.

 

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Pois passar na estrada ou usufruir do parque de lazer da albufeira, já há muitos anos que o fazemos, penso que a primeira vez que fui por aqueles lados foi em meados dos anos setenta, à procura de uma nascente que prometiam curar os “cravos” que uma das minhas primas montalegrenses  tinha nos dedos. Fiquei sem saber se a nascente era assim tão milagrosa, mas a verdade é que deu para nunca esquecer o local.

 

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Pois sejamos sinceros, passei à beirinha de Sezelhe muitas vezes mas os nossos destinos nunca permitiram que entrasse na aldeia, isto aconteceu até dezembro passado em que um dos destinos era mesmo entrar em Sezelhe, conhecer a aldeia, trocar uma palavras com os residentes (cada vez mais difícil porque cada vez são mais difíceis de encontrar) e fazer a recolha fotográfica para este post.

 

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E com Sezelhe aconteceu o que vai acontecendo com outras aldeias que lhe vamos passando ao lado sem entrar nelas. Uma coisa é deitar-lhes um olhar ligeiro desde a estrada ou vê-las ao longe, e outra coisa é a sua intimidade, e se às vezes a aldeia ao longe promete para quando entramos nela encontrarmos outra realidade, outras vezes ao longe quase nem damos por ela e quando lá chegamos a aldeia surpreende-nos a cada passo que adentramos nela. Pois Sezelhe surpreendeu-nos pela positiva na sua integridade física de aldeia barrosã.

 

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Pessoalmente destaco o cruzeiro integrado num bebedouro no centro da aldeia, a igreja, as alminhas/rochedo na entrada da aldeia, o conjunto do casario típico transmontano/barrosão e os canastros, isto na aldeia. Desde a aldeia, sem dúvida alguma que destaco as vistas sobre o conjunto da veiga do Cávado a terminar na vila de Montalegre com o Larouco de fundo, embora ao lado. Nota positiva para a aldeia, mas com um lamento, o lamento do costume de as aldeias estarem sem vida humana que lhes alegre as ruas, as esquinas, as casas, os largos e tudo que têm de bom.  

 

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E agora regressemos à questão do S ou Z de Sez(s)elhe. Pois quanto a esta de Sezelhe com z ou Seselhe com s, desde já para não estar sempre a escrever o topónimo da aldeia de ambas as formas, passaremos a grafar o topónimo com z, pois é o mais comum.

 

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Mas antes vamos ao que se diz a respeito de Sezelhe, aldeia e ex-freguesia autónoma, agora pertencente à União de Freguesias de Sezelhe e Covelães, no sítio oficial Município de Montalegre na WEB (os sublinhados são meus):   

 

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“ União das Freguesias de Seselhe e Covelães

 

Ambos os lugares desta freguesia foram sede de freguesia, porém anexas a Santa Maria de Montalegre. Todos os edifícios de ambas as localidades estão construídos entre os novecentos e os mil metros de atitude. Como o resto do concelho são terras de produção agro-pecuária, de largos montes de caça e de boas manchas de arvoredo para madeira e lenhas. Os documentos conhecidos não autorizam a grafia deste topónimo com z como por aí se vê escrever. (…)

 

  • Área: 22.8 km2
  • Densidade Populacional:1 hab/km2
  • População Presente:254
  • Orago:Santo André(Sezelhe), Santa Maria(Covelães)
  • Pontos Turísticos:Torre do Boi (Travassos), Barragem do Alto-Cávado(Sezelhe), Moinhos, Espigueiros com relógio de sol, Pisão com engenho hidráulico (Paredes) e Relógio de Sol (Covelães),  .
  • Lugares da Freguesia(4):Travassos, Seselhe, Covelães e Paredes do Rio.
  • Morada:União de Freguesias de Seselhe e Covelães, Rua da Costa do Vale, n.º 2, Travassos do Rio,5470-472 Sezelhe - Montalegre.”

 

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Atenção que os dados que ficam atrás (área, população, etc) são dados da União das Freguesias de Sezelhe e Covelães. Mas voltemos ao topónimo de Sezelhe com Z e Seselhe com S, se repararem nos sublinhados, no primeiro diz que os documentos conhecidos não autorizam a grafia com z, mas logo da primeira vez que a seguir a aldeia é referida, onde diz  “Orago: Santo André (Sezelhe)” a aldeia é grafada com o tal z não autorizado. Como costuma dizer o povo “ foge a boca para a verdade”, neste caso a escrita. Isto pode parecer um preciosismo meu, pois tanto nos faz que seja com S ou com Z, mas uma vez que na apresentação oficial da aldeia no sítio oficial do concelho na WEB e no livro (monografia) de Montalegre também se defende o S, penso eu que em tudo que é informação escrita e na página oficial do Município de Montalegre, deveria aparecer grafada com S, no entanto que por lá predomina é o Z, basta fazer uma pesquisa dentro da página ou no que consta nos mapas turísticos do concelho, e o Z é rei e senhor para SeZelhe.

 

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O mesmo acontece no livro Montalegre, onde por exemplo na pág. 48 aparece “Vila da Ponte, Negrões, Meixedo, Sabuzedo, Santa Marinha, Santo André, Penedones, Antigo de Serraquinhos, Sezelhe, Travasços do Rio, Vila da Ponte, Bustelo e Parafita!” e a seguir na pág. 145 aparece: “Os documentos conhecidos não autorizam a grafia deste topónimo com z como por aí se vê escrever.” Resumindo, como costuma dizer o povo “A letra não condiz com a careta”.

 

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E quanto à localização de Sezelhe, o que temos a dizer? – Pois é simples, já atrás dissemos que fica no vale do Rio Cávado, na sua margem direita, a jusante do Cávado/Montalegre, junto a uma das seis albufeiras de Montalegre, a do Alto Cávado, ou Sezelhe, na única estrada  (M308) que sai de Montalegre ao longo do Cávado, a aproximadamente 7 km a poente da Vila de Montalegre. Mas para ser mais exato aqui ficam as coordenadas seguida da nosso habitual localização no nosso mapa:

 Coordenadas GPS
  - DD.DDDDDº:  41.81149º  -7.874487º
  - DDº MM.MMM':  N 41° 48.689'  W 7° 52.469'
  - DDº MM' SS":  N 41° 48' 41"  W 7° 52' 28"

 

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Nos registos paroquiais portugueses para a genealogia, a respeito de Sezelhe,  encontrámos o seguinte:

"1808

HISTÓRIA ADMINISTRATIVA/BIOGRÁFICA/FAMILIAR

Segundo a estatística parochial de 1862, Sezelhe esteve anexa à reitoria de Santa Maria da Vila de Montalegre, sendo da apresentação do reitor desta. 

Uma vez reitoria independente, esteve-lhe anexa a freguesia de São Martinho de Travancas do Rio. 

Freguesia do concelho de Montalegre composta pelos lugares de Sezelhe e Travassos. 

A paróquia de Sezelhe pertence ao arciprestado de Montalegre e à diocese de Vila Real, desde 22 de Abril de 1922. O seu orago é Santo André."

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Num outro sítio da WEB, e respeitante à igreja da aldeia, encontrámos o seguinte:

“Este Templo religioso é o mais representativo elemento da aldeia. De planta longitudinal e de uma única nave rectangular com a torre sineira encimada do portal. Ao contrário dos outros Templos das aldeias vizinhas, este sofreu uma restauração.

E como esta aldeia não foge à regra, também sofre de quase abandono, com os seus poucos habitantes, sendo escassa a passagem de visitantes, mesmo estando situada no Parque Nacional Peneda-Gerês.

Situados no lado sul da Igreja de Sezelhe, cada um foi totalmente esculpido num único bloco de granito, apresentando um formato antropomórfico.

Medem um metro e setenta e cinco e um metro e oitenta centímetros, respectivamente, estando um deles fracturado nos pés enquanto o outro está intacto.”

 

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Também na WEB encontrámos em notícias várias referência a um achado arqueológico que reproduzimos a seguir, contudo não encontrámos quaisquer referência as conclusões ou importância dos achados e se as escavações foram ou não concluídas. Mas fica a notícia datada de 3.jul.2016:

 

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“Uma equipa de arqueólogos, chefiada pela barrosã Carla Cascais, acredita que estamos perante um achado arqueológico romano na aldeia de Sezelhe, concelho de Montalegre. Os indícios, descritos ao longo do tempo pelo povo, despertaram uma curiosidade agora confirmada. O próximo passo, garante a autarquia, é estudar o melhor caminho que preserve este «documento expressivo da história do concelho».

Um terreno particular agrícola da aldeia de Sezelhe, concelho de Montalegre, escondia até há poucos dias um conjunto de vestígios romanos. O povo há muito que dizia que no lugar da “horta do padre” havia mais que terra. De quando em vez, apareciam telhas diferentes. O coro de vozes subiu de tom até chegar à Câmara de Montalegre. Esta contratou uma equipa de arqueólogos, liderada por Carla Cascais, para tirar a poeira à dúvida. Bastou um primeiro contacto, confessa a arqueóloga: «Não me surpreendeu o que encontrei, porque na primeira vez vi logo que havia aqui alguma coisa que indiciava vestígios. Agora concluímos que é verdade. O próprio caminho que está junto do terreno indicia ligações com outros sítios similares, ou até maiores, como é exemplo o castro de Frades».

A cronologia arqueológica aponta para o tempo romano, explica Carla Cascais: «Logo que fiz a primeira visita ao local, confirmei que se tratavam de telhas romanas. Resolvemos fazer uma sondagem de avaliação. O facto é que os vestígios estão cá. Aparecem estruturas, alguns pisos e muros». Uma doce constatação que empolga o trabalho. Todavia, a bola está do lado de quem decide: «O próximo passo não depende de mim. Vamos ver se a autarquia pretende que se invista um pouco mais. Quando falo em investir, falo em conhecimento. A ver se podemos alargar esta escavação para tentar perceber o que realmente aqui temos».”

 

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Nas nossas pesquisas encontrámos também a referência a alojamentos em Turismo Rural, duas casas dedicadas a esse fim: A Casa Entre-Palheiros e a Casa do Canastro. Fica apenas a referência, pois os mencionado alojamentos escaparam às nossas objetivas.

 

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E para finalizar descobrimos um Ilustre Transmontano de Sezelhe, António Dias Vieira, com a referência a um livro que publico intitulado "Histórias da Breca". Trata-se da sua mais recente publicação, um conjunto de contos de humor, a maioria relacionados com a região e as vivências passadas. António Dias Vieira que consta também no Dicionário dos Mais Ilustres Transmontanos e Alto Durienses, de Barroso da Fonte,  com o seguinte texto:

 

“casado com Berta de Castro Pinto Dias Vieira, tem uma filha Ana Judite. Filho de Paulino Ernesto Fernandes Vieira e Ana Amélia Dias. Nasceu em Sezelhe Montalegre em 5 de Abril de 1944. Frequentou o seminário de Vila Real, onde concluiu o 8.° ano. Incorporado na Escola Prática de Infantaria, em Mafra, a 11 de Janeiro de 1996, ingressou como tenente na Guarda Nacional Republicana em 16 de Novembro de 1970. Comandou a Secção da GNR de Miranda do Douro de 20 de Janeiro de 1971 a 11 de Março de 1973. Chamado para o curso de Capitães embarcou para a Guiné. em 4 de Maio de 1974. onde lhe foi entregue o Comando da 3.a Companhia do Batalhão de Artilharia n.° 6523/73. Regressado da Guiné reingressou na GNR, em 4 de Dezembro de 1974. Comandou a Companhia de Santa Bárbara, a de Bragança desde 4 de Abril de 1975 a 31 de Março de 1979, a de Vila Real de 1 de Abril de 1979 a 30 de Junho de 1992. No ano lecti, o de 1987/88 frequentou no Instituto de Altos Estudos Militares o Curso para Oficiais Superior, sendo Promovido a Major em 1 de Julho de 1988 e a Tenente Coronel a 1 de Julho de 1992. Como Tenente Coronel chefiou, durante 1 ano, a Secção de Operações. Informações e Instrução da Brigada Territorial n.° 2 em Lisboa: comandou durante pouco mais de um ano o Agrupamento de Bela Vista no Porto: instalou o Agrupamento de Penafiel que Comandou até 4 de Fevereiro de 1996. Desde 5 de Fevereiro do mesmo ano exerce as funções de Segundo Comandante da Brigada Territorial n.º 4 da Guarda Nacional Republicana. no Porto. No campo militar foi louvado 4 vezes pelo General Comandante Geral da Guarda Nacional Republicana e uma vez pelo Comandante de Brigada Territorial. Condecorado com a medalha de Assiduidade de Segurança Pública; Medalha de mérito de Segurança e Medalha de Comportamento Exemplar, grau prata. No campo literário tem colaborado em vários jornais regionais. Ganhou o primeiro prémio nos Jogos Florais de Chaves em 1970 em Reportagem Regionalista, com o trabalho "A CHEGA" e o 2.° prémio nos Jogos Florais de Chaves, em 1971 em Estudo com o trabalho "Miranda Cidade histórica". Tem vários contos publicados em jornais regionais, um estudo sobre a Cabra Selvagem do Gerez e outro sobre Os Foragidos Espanhóis da Guerra Civil em Trás os Montes que mereceu do Adido Militar da Embaixada de Espanha, Tenente Coronel Pedro Ruiz Del Castilho Y Navascues o seguinte comentário: "Exmo. Sr. Tem Coronel Inf.a A.F Dias Vieira Meu caro e respeitado T. Cor: Leio no n.°3 da Revista da GNR o seu interessante artigo "A GNR e os foragido Espanhóis da Guerra Civil em Trás os Montes", e é com muita satisfação que o felicito pelo seu conteúdo e a forma de encarar e demonstrar a realidade histórica". No campo social é sócio fundador do Lions Clube de Vila Real de que foi presidente, por três vezes, tendo lhe sido atribuída, em dois anos consecutivos, a medalha de Presidente 100%. Foi ainda Presidente de Divisão do Distrito de Lion 115, durante dois anos tendo lhe sido atribuídas as medalhas de Zone Chairman e Key Member. É sócio fundador da Casa do Concelho de Montalegre, em Lisboa e fundador da Associação de Antigos Alunos do Seminário de Vila Real. É o l.° Presidente eleito da Direcção. Em 1992, foi lhe concedida a medalha de prata do Município, pela Câmara Municipal de Montalegre.”

 

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E ficamos por aqui com as habituais referências às nossas consultas e links para as anteriores abordagens ao Barroso de Montalegre.

 

 

Sitíos na WEB

 

http://www.cm-montalegre.pt/

http://tombo.pt/f/mtr30

https://www.visitarportugal.pt/distritos/d-vila-real/c-montalegre/sezelhe

http://diarioatual.com/montalegre-achado-romano-em-sezelhe/

 

Bibliografia

 

“Montalegre” de José Dias Baptista, edição do Município de Montalegre, 2006

 

Links para anteriores abordagens ao Barroso:

 

A Água - http://chaves.blogs.sapo.pt/o-barroso-aqui-tao-perto-a-agua-1371257

Amial - http://chaves.blogs.sapo.pt/o-barroso-aqui-tao-perto-ameal-1484516

Amiar - http://chaves.blogs.sapo.pt/o-barroso-aqui-tao-perto-amiar-1395724

Bagulhão - http://chaves.blogs.sapo.pt/o-barroso-aqui-tao-perto-bagulhao-1469670

Bustelo - http://chaves.blogs.sapo.pt/o-barroso-aqui-tao-perto-bustelo-1505379

Cepeda - http://chaves.blogs.sapo.pt/o-barroso-aqui-tao-perto-cepeda-1406958

Cervos - http://chaves.blogs.sapo.pt/o-barroso-aqui-tao-perto-cervos-1473196

Cortiço - http://chaves.blogs.sapo.pt/o-barroso-aqui-tao-perto-1490249

Corva - http://chaves.blogs.sapo.pt/o-barroso-aqui-tao-perto-corva-1499531

Donões - http://chaves.blogs.sapo.pt/o-barroso-aqui-tao-perto-donoes-1446125

Fervidelas - http://chaves.blogs.sapo.pt/o-barroso-aqui-tao-perto-fervidelas-1429294

Fiães do Rio - http://chaves.blogs.sapo.pt/o-barroso-aqui-tao-perto-fiaes-do-1432619

Fírvidas - http://chaves.blogs.sapo.pt/o-barroso-aqui-tao-perto-firvidas-1466833

Frades do Rio - http://chaves.blogs.sapo.pt/o-barroso-aqui-tao-perto-frades-do-1440288

Gralhas - http://chaves.blogs.sapo.pt/o-barroso-aqui-tao-perto-gralhas-1374100

Lapela   - http://chaves.blogs.sapo.pt/o-barroso-aqui-tao-perto-lapela-1435209

Meixedo - http://chaves.blogs.sapo.pt/o-barroso-aqui-tao-perto-meixedo-1377262

Meixide - http://chaves.blogs.sapo.pt/o-barroso-aqui-tao-perto-meixide-1496229

Negrões - http://chaves.blogs.sapo.pt/o-barroso-aqui-tao-perto-negroes-1511302

O colorido selvagem da primavera http://chaves.blogs.sapo.pt/o-barroso-aqui-tao-perto-o-colorido-1390557

Olhando para e desde o Larouco - http://chaves.blogs.sapo.pt/o-barroso-aqui-tao-perto-olhando-1426886

Padornelos - http://chaves.blogs.sapo.pt/o-barroso-aqui-tao-perto-padornelos-1381152

Padroso - http://chaves.blogs.sapo.pt/o-barroso-aqui-tao-perto-padroso-1384428

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Pomar da Rainha - http://chaves.blogs.sapo.pt/o-barroso-aqui-tao-perto-pomar-da-1415405

Ponteira - http://chaves.blogs.sapo.pt/o-barroso-aqui-tao-perto-ponteira-1481696

Roteiro para um dia de visita – 1ª paragem - http://chaves.blogs.sapo.pt/o-barroso-aqui-tao-perto-roteiro-1104214

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Vilar de Perdizes /Padre Fontes - http://chaves.blogs.sapo.pt/o-barroso-aqui-tao-perto-vilar-de-1358489

Vilarinho de Negrões - http://chaves.blogs.sapo.pt/o-barroso-aqui-tao-perto-vilarinho-1393643

Xertelo - http://chaves.blogs.sapo.pt/o-barroso-aqui-tao-perto-xertelo-1458784

Zebral - http://chaves.blogs.sapo.pt/o-barroso-aqui-tao-perto-zebral-1503453

 

 

 

25
Mar17

Pedra de Toque

pedra de toque copy.jpg

 

VI-TE, UM DIA…

 

Na tua tez só o sorriso que esboçavas, irradiava.

 

Estavas sentada num banco de um jardim desflorido, poeirento e permanecias inerte às pessoas raríssimas que passavam junto a ti.

 

Gostei dos teus cabelos lisos, despenteados (uma preferência muito antiga).

 

Resolvi depois de dar umas voltas por entre a poeira e o lamaçal, sentar-me num banco algo distante do teu mas donde podia adivinhar-te os pensamentos e a inquietude que te perturbava.

 

 Seguia o teu olhar que parecia medir os troncos despidos das enormes árvores onde não cabia o teu abraço.

 

Senti tremer meu coração, enquanto a brisa esfriava.

 

Num instante cobicei a brancura do mar imenso que não estava por ali, mas tão só o rio que corria remansado.

 

Por momentos olhei-me por dentro.

 

E vi aquele jardim verde (ai verde, que te quero verde…), frondoso, florido, pasto de amores incontidos da juventude onde, o chilrear dos pássaros e a melodia das bandas, enlevavam.

 

Quando despertei vi-te já longe meneando teus cabelos compridos revoltos, seguindo elegante e distinta, para o mundo, para o sonho.

 

O entardecer aos poucos escondeu-te o vulto.

 

Fiquei triste como o breu.

 

Apeteceu-me então rezar à “Nossa Senhora das Coisas Impossíveis que acreditamos em vão…”, que por vezes faz o favor de me aturar.

                       

António Roque

 

 

24
Mar17

Discursos Sobre a Cidade

GIL

 

Flatulências

 

Corria o ano de 1975. A população, em geral, andava embriagada ainda pela liberdade inesperada que abril de 74 precipitara. A população, em geral, e os alunos do Liceu Fernão de Magalhães, em particular.

 

Pese embora não ter estoirado aquilo a que pouco tempo mais tarde viria a chamar-se escola de massas, o Liceu de Chaves já abarrotava de gente que procurava a educação como trampolim para um mundo outro. Um mundo diferente do que havia vivido a geração precedente, num Estado que se dizia Novo, mas que era quase tão velho como quem o desenhou.

 

Contudo, como sempre e em todo o lado, havia quem funcionasse ao arrepio da normalidade. Muitos não se reviam naquela escola afastada da realidade social. Uma escola que, apesar de tudo, apenas respondia às expetativas de uns poucos. Pese embora saber-se que um qualquer curso superior proporcionava emprego seguro, para lhe chegar era preciso dinheiro e muita resiliência para vencer os escolhos de uma escola dura, que, muitas vezes, nada queria saber de quem a frequentava.

 

E, se muitos viam na escola o passaporte para uma vida que os seus pais não puderam ter, muito outros olhavam-na como uma arena onde se exorcizavam diabos e frustrações. Nada queriam com os livros, as sebentas, as sabatinas e a mania dos professores!

 

Da mesma forma, muito como hoje, a realidade familiar de cada aluno era muito diversa. Havia famílias instruídas que proporcionavam berços de oiro, enquanto outras nem de feno. Muitas vezes, os exemplos e as vivências de casa colidiam com as da escola provocando anomias de difícil (di)gestão.

 

Por esta altura, o Liceu de Chaves, tinha turmas levadas do diabo. Gente que fazia negra a vida de qualquer professor, por muito profissional que fosse. Depois, parece que o demo juntava os salafrários a dedo, redundando em autênticas matilhas de predação com comportamentos muitas vezes caricatos.

 

É de um deles que vos venho falar nesta pequena estória.

 

1600-(36573)

 

Em 1975, a turma xpto do 5º ano era levada do catano!

 

Havia professores que, apesar de tudo, conseguiam lidar com estes índios em relativa paz. Outros sofriam a bom sofrer. Algumas aulas eram autênticos circos romanos. Contrariados, por natureza, alguns alunos faziam das aulas um martírio contínuo e para que o tempo passasse em delírio, pintavam a manta. Enquanto pudessem faltar vai que não vai, em estando tapados obrigavam-se a trocar o roço do Tabolado pela sala de aula, o que era catastrófico!

 

No entrudo, eram os peidos chocos e as bichas de rabiar; no natal, os confetes e as serpentinas; na primavera, os grilos e as cobras de água; noutras ocasiões outras coisas variadas. O importante era que a aula fosse divertida e o professor não pudesse lecionar matéria.

 

Ora, certa ocasião, esgotadas as inovações, alguém da turma se lembrou de promover um concurso de flatulência. Arranjaram-se os patrocinadores, elaborou-se detalhadamente um regulamento, definiu-se um júri, o prazo e os prémios.

 

Seria pela segunda quinzena de maio que o concurso começou, pois lembro-me que já apareciam as primeiras cerejas na velha praça das Longras.

 

Aquilo era um foguetório de rebimba o malho, nalgumas ocasiões pior do que o do arraial de Valpaços. E tanto se soltavam os rapazes como as raparigas, pois nesta altura as turmas já eram mistas[1]. Era de toda a forma e feitio: silenciosos e inodoros, abafados e fedorentos, sonoros, fininhos, longos, curtos, altos, baixos, sei lá!.. Aquilo ia progredindo em luta renhida.

 

Era vulgar que quando o professor se virasse para o quadro alguém estourasse sussurrando:

 

Trocaide-me este por miúdos!.. — Não demorava muito que aquela nota se transformasse em moedas.

 

Isto andava a ser insuportável, até que uma professora decidiu queixar-se ao Reitor.

 

Sem saber bem o que fazer, o Reitor decidiu convocou para uma reunião a Encarregada de Educação do campeão, Antenor Barracuda, um gargalhote de maus fígados.

 

Depois de uma abordagem d’amodinho, sem que a mãe tivesse entendido patavina do introito, o Reitor lá se atirou à coisa de forma mais grave:

 

— Saiba Vª Exª que o seu Antenor se anda a portar muito mal nesta escola!

 

— Pois sim senhor Reitor, vai satchar batatas que se cose!

 

— Mas sabe a senhora, exatamente, o que o malandro anda por aqui a fazer?

 

— A apalpar o rabo às raparigas de certo! O macaco sai ao pai! Saiba bossa senhoria que o meu home era lubado do catancho, num se le escapaba um rabo de saia! Mula que se le arreganhasse!...

 

— Não, não é nada disso minha senhora, ele anda a soltar flatulências nas aulas, o que tem causado graves problemas, quer aos professores quer aos colegas!

 

Flatuquê, senhor Reitor? Quer o senhor dezer que o filho da p*** escope p’ró tchão?

 

— Nada disso, senhora, são flatos, flatos que ele solta, à tripa forra, na sala de aula!

 

— Bossemecê é que me cose, não estou a perceber nada do que me diz. Quer ber que o rapaz fala mal na escola, ou andará a mija no recreio?!

 

O Reitor, espumando de raiva, atalhou:

 

— Ó minha senhora, peida-se nas aulas!..

 

Porra, que alíbio! Pensei que era coisa pior! Peidará, peidará, deve ser das cereijas que tenho lá no quintal. Come-as quentes, o sacripanta e depois não é capaz de os arrebater! Saiba o senhor que ele faz o mesmo à mesa e o meu Antóino está sempre a dezer para o deixar cagar à bontade que também se alebeia!..

 

1600-cerejas.jpg

 

O Reitor descorçoado levantou-se e desandou, deixando a mãe a ruminar sobre a gravidade do assunto!

 

Ontem como hoje!

 

Já estou como dizia Aleixo:

 

Descreio dos que me apontam

uma sociedade sã,

isto é hoje o que foi ontem

e o que há de ser amanhã!

 

Gil Santos

 

[1]Decreto-Lei 482/72, de 28 de Novembro

 

 

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