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CHAVES

Olhares sobre a cidade de Chaves

Cidade de Chaves, um momento

07.03.17 | Fer.Ribeiro

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É ao olhar para uma imagem como a que hoje vos deixo que sei o que é ser flaviense, e a conclusão é muito simples, é que ao longo desta rua, destes passeios, da esquina do Vilanova, das freiras ao fundo e principalmente do edifício da esquerda, o Liceu, tenho momentos passados, emoções vividas, olhares trocados, sorrisos oferecidos, alegrias vividas, brincadeiras, conversas sérias e outras que nem tanto... Mas é do liceu que mais sentimentos guardo, não só por ser uma das casas que contribuiu para a minha formação e educação, mas por todos os momentos lá vividos, amizades que se fizeram para toda a vida e claro, amores e paixões. Mas esta esquina do Liceu marca dois momentos importantes da minha vida dentro dele, as duas salas de aula. Em baixo o anfiteatro que foi a minha sala de aulas no primeiro ano que frequentei o liceu e por cima, a sala de desenho onde precisamente à disciplina de desenho (ou geometria descritiva) encontrei um dos melhores professores daquela casa, o Dr. Costa. Sala essa que foi também a minha sala de aulas do último ano em que frequentei o Liceu. Quase poderia dizer que entrei por esta esquina em criança e por ela saí já adulto.

 

 

Chaves D'Aurora

07.03.17 | Fer.Ribeiro

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  1. CONTROVÉRSIAS.

 

O rapaz logo discorreu sobre dois factos óbvios (pelo menos para ele): a tão sobejamente conhecida imaginação dos miúdos, em geral e os delírios de Lúcia, em particular. Esta lhe parecia sofrer de algum mal que lhe afetasse a mente, como parece ter ocorrido com Joana D’Arc e outros santos, embora fosse um tipo de enfermidade (a esquizofrenia) que ele, àquela altura, não sabia nomear.

 

Inquiriu – Ora me dizei, querida tia, porque, nesses relatos tão pueris, a mãe de Jesus havia de aparecer daquele jeito, com um manto que, pela descrição dos miúdos, mais parece o das imagens das igrejas, essas que todo mundo vê nas estampas e nos altares? Porque não estaria com os trajos da Palestina, dos tempos em que ela por lá viveu e que podemos ver nas gravuras de algumas edições do Novo Testamento? Porque a Santa veio cá nos aparecer tão jovem e formosa, se ela foi uma mulher do povo e morreu já madura, após muito padecer com as maldades que fizeram ao grande Profeta, seu filho?!

 

Para o rapaz, Cristo tinha sido apenas um sábio e admirável profeta, dentre os tantos que, àquela altura, habitavam a Palestina. Algo, porém, deixou-o ainda mais exaltado – E os pedidos da Santa? Com tantos pobrezitos à volta, neste nosso tão sofrido Portugal, a Mãe de Misericórdia pede que o dinheiro doado pelos devotos seja convertido em ANDORES?! E é tão vaidosa assim, ao ponto de pedir que se erga uma capela EM SUA homenagem?!

 

A se horrorizar com tais vitupérios, Florinda tentou contestá-lo, mas o jovem disparava – E já que citamos o sofrimento de Jesus, porque a aparição insiste tanto em falar de pecado, penitência, inferno e purgatório, pra toda essa pobre gentinha que já vive, em seu dia a dia, a comer o pão que o Diabo amassou? Ao que então vos pergunto: quem, quem, QUEM é o Diabo?

 

Ele mesmo respondia – O Diabo, ou melhor, os diabos, se calhar são os capitalistas, os poderosos do mundo do Capital, que estão a amassar esse pão em seus palácios, para depois jogarem os farelos aos pobres, como se fosse aos cães. E ainda ficam a se divertir em vê-los devorar esse miolo amassado, com os poucos dentes que ainda restam aos pobres coitados.

 

Enquanto Reis e Afonso escutavam o rapaz com alguma atenção, as duas meninas mais velhas mostravam-se assarapantadas, por tudo aquilo que ouviam da boca de Rodrigo e, o tempo todo, ficavam a dar alguns toques discretos em Mamã; a cutucá-la, como se diz ao Brasil. Florinda arguiu

 

– E do milagre do Sol, que me dizes tu? – e o rapaz riu, gostosamente – Milagre, tia? Mas que milagre?! Desde que a Santa Madre Igreja quase mandou o senhor Galileu para a fogueira, sabemos que a Terra gira arredor do Sol – e prosseguiu – Ora, pois, aí está! O Astro-Rei jamais poderia, lá no firmamento, dar voltas e ziguezagues, sem que nos sobreviesse, cá no planeta, um verdadeiro apocalipse de maremotos e tremores de terra. Se estiveram a ocorrer, mesmo, todas aquelas coisas que a multidão, exaltada, jura ter visto, levada sabe lá por quantas histerias coletivas, como é que, no resto da Terra, esse mesmo Sol ficou lá no seu sítio, quietinho, a banhar de luz as praias de Angola, os laranjais da Califórnia, os arrozais do Japão?

 

 – Mas se tudo isso foi visto pela multidão! – interveio Reis, ao que Rodrigo – Todos, não, meu tio, nem todos! Na verdade dos factos, apesar do que se diz nos jornais e nos púlpitos, esse fenómeno não parece ter sido visto por todos os que lá estavam. – e, excitado pela bomba que ele, com o seu terrorismo verbal, estava prestes a explodir na Quinta, para já sacou, de seu bornal de pano (seu mundo ambulante, com livros, revistas, anotações e mais que tais) um recorte de jornal que a todos mostrou, com ares de triunfo – Aqui, ó pá, vejam! Vejam! Há testemunhos de pessoas como o escritor António Sérgio, que afirmam não terem visto nada, ai que nada mesmo, disso tudo aí, de que tanto falam os beatos! ”Nada de estranho aconteceu com o Sol”, disse o ilustre senhor.

 

Rodrigo pegou, então, uma página inteira de jornal – Vejam, vejam mais! Há depoimentos até de um militante católico, um beato insuspeitíssimo como o senhor Domingos Pinto Coelho, que ó, vejam, ele mesmo declarou na imprensa que a nada assistiu de assombroso ou sobrenatural naquele santo dia. – e continuou – O que me parece estranho nisso tudo... e cá vos digo, uma enorme pulga me cai atrás da orelha e fica a perguntar, bem cismadinha – afinou então a voz, como se fosse a do inseto – Ai, Rodriguito, se calhar... não te parece que os padres de algumas aldeias estão a meter seus veneráveis dedos nessa história da Cova da Iria?

 

Concluiu, com a voz normal – É que tudo isso... não percebeis, meus caros tios, que tudo isso veio a calhar hoje em dia, justamente quando os proletários estão a ganhar o governo da Rússia e os republicanos continuam odiados pelo Clero, que os têm como perseguidores, mormente agora que até o nosso Primeiro-Ministro, senhor Afonso Costa, segue avante em sua campanha anticlerical?!

 

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