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CHAVES

Olhares sobre a cidade de Chaves

Cartas ao Comendador

08.03.17 | Fer.Ribeiro

cartas-comenda

 

 

Meu caro Comendador (15)

 

 

Pois é meu caro amigo, hoje levantei-me da cama com a convicção dos doidos, inabalável, mesmo quando tudo à nossa volta aparenta e afirma ser, a dizer não é! Confiante de que a felicidade, caso exista, a haveria de encontrar, por mais sórdido que fosse o momento e mais recôndito o local. E achei, subitamente achei! No nada, veja o senhor do que somos capazes quando queremos! Ou do que somos capazes quando disso nos achamos capazes! Poder-lhe-á parecer que brinco, mas não!

 

Basta às vezes decidir para ter, pois foi o que hoje me aconteceu. Deixei chegar as coisas até ao ponto onde elas mais não poderiam ir sozinhas, para que depois elas se voltassem para mim e percebessem, embora sem dizer, a partir daqui preciso de ti! E eu estava lá, onde sempre estive, mas onde só agora fui notado! Funcionam assim as coisas e funcionam bem, o que é preciso é aceitar que assim é!

 

Temos sempre a tendência mórbida de querer alterar as coisas, de as forjar ao nosso pensamento, de as submeter ao nosso destino. Temos um desejo inato de opressão como se tivéssemos nascido tiranos! E não lhe pergunto, desta vez, que explicação tem para isto porque a resposta a ela me não interessa para nada! Simples demais para ser verdade, mas é?! A simplicidade das coisas só entendíveis por espíritos simples, por almas puras, por matéria invisível, por corpos não corruptíveis. Há-os sim senhor, digo-lho eu que os há! Que crianças, que coisíssima nenhuma! Ou hoje o senhor está parvo ou eu encarnei num morto! Claro que sim, uma não exclui a outra e de vez em quando, já reparei e perdoe-me por lho dizer tão francamente, mas o senhor de vez em quando ausenta-se! Se fosse noutro dia, que não o de hoje, perguntava-lhe por onde anda nessas alturas, mas para além de não o querer saber receio que não seja bem nas alturas que anda! Rasteja sorrateiro, dissimulado, como se estivesse no dia de carnaval com o disfarce no bolso, disponível para o colocar na presença daqueles a quem, quando sem ele, não consegue enganar! Muito poucos, concordo inteiramente consigo.

 

Dizia então que foi no alheamento, não misturando nisto distância física, que surpreendi o gato escondido com o rabo de fora! A felicidade cintilava, não basta aqui a palavra brilhava e perceberá rapidamente porquê, sem qualquer ruído audível no que parecia ser um dia normal de sol. A normalidade resumiu-se a que predispôs a que esse sentimento fosse perceptível. A partir daqui as coisas passam a existir, já não há como travá-las, nem que o quiséssemos e nós nem sequer queremos.

 

Foi exactamente assim que se revelou hoje em mim o que eu procurava com tanta ansia de encontrar e com absoluta urgência, não no sentido de ter, mas no seu contrário, no de não ter!

 

E não tive de facto! Surpreendeu-me isto, como tantas vezes que estive empenhado em ter se revelou hoje que a dificuldade em o atingir estava tão simplesmente no deixar de ter ou precisar.

 

E as mesmas coisas pareceram-me de facto umas outras, algumas delas novas como se nunca em toda a minha vida eu as tivesse visto ou passado por elas. E a diferença estava aqui, é que as coisas começaram, ao invés, a passar por mim. E consegui isto tão facilmente que no princípio até cheguei a duvidar se isto não seria mais um daqueles sonhos enganadores que parecem realidade até ao momento de acordar! Desconfiei, sabe como eu sou, bom demais..., fácil de mais..., hum..., alguma coisa aqui não deve estar bem! Mas estava, tudo bem! Finalmente, com a paz que me vinha de dentro eu podia conviver no mundo com tudo o que me era adverso, com tudo o que era insano, com tudo o que me era insuportável, com tudo o que crescia à minha volta no intuito de me impedir o sol, de competir comigo, de comer o alimento que me sustentava, de consumir a água que me hidratava, de apagar a chama que me animava, de levar ainda mais para longe o que já me era inatingível!

 

Ridículo meu caro amigo, não há nada de mais ridículo do que a pretensa intenção de alguém acreditar que pode ser por nós! É fácil ser mais e é fácil ser menos, mas nada mais é possível, porque o que nos torna verdadeiramente superiores e únicos é a sabedoria do que escolhemos para compensação do que temos a mais e do que temos a menos. É esta substituição das partes no todo, que faz de nós quem somos e só não lho digo a si, porque o senhor sabe melhor do que eu como é que isso se faz. A diferença entre nós é que eu tentei dizer-lho e o senhor tentou esconder-mo e isso é o que distingue as boas das más pessoas, embora no seu caso não tenha sido este o caso e é por se tratar dessa excepção que eu nunca dei importância nenhuma a esse facto. A amizade também é isto, conhecer as regras e as excepções a elas!

 

Do seu

José Francisco