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CHAVES

Olhares sobre a cidade de Chaves

Com um pé na terra e outro em Júpiter

14.03.17 | Fer.Ribeiro

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Nem de propósito, ou melhor, a imagem de hoje,  aparentemente escolhida ao acaso , não é mais que uma escolha fruto da inspiração numa pequena estória que um amigo me fez chegar às mãos e que acabei de ler. É assim a vida, as coisas parecem acontecer por acaso,  mas não acontecem, no entanto não quero levar isto para a Lei da causa e efeito do espiritismo  ou para o “cosmos ininterrupto de retribuição ética”  do qual Max Weber nos fala em Economia e Sociedade. Nada disso, são apenas coisas do acaso que não acontecem por acaso, apenas isso. Senão vejamos, tendo em conta a imagem de hoje, como por acaso nada acontece por acaso. Estamos no Largo do Arrabalde em Chaves, ao qual, por acaso, também chama “Largo dos Pasmados”. Até aqui tudo bem, e se há um que pasma na esquina da farmácia, do outro lado da rua há outro a pasmar, mas disfarça a fazer de conta que está a olhar para a rua. Coisas normais de quem pasma. No entanto, logo em primeiro plano há um pasmado que não pasma por acaso. Como disse estamos no “Largo dos Pasmados”, que mais não são que aluados, no sentido de andarem na lua, estarem ali por estar, andarem em órbita. Ora era aqui que eu queria chegar, pois este “pasmado”,  não está  “aluado” , ele está muito mais além, embora ainda com um pé na terra, ele já está além da Lua e além de Marte. Ele já está com um pé na órbita de Júpiter e ninguém dá por isso porque estão todos pasmados na sua pasmaceira, ou quase, pois se virem aquém deste quase (por acaso) astronauta que está em primeiro plano com um pé na terra e outro em Júpiter, há um outro pasmado do qual só se vê a sombra e que reparou que,  mais um pouco e esse pasmado  do primeiro plano estacionava em Júpiter. Agora reparando melhor na sombra, e pelo ângulo em que a imagem foi tomada,  e agora já estamos no campo da geometria descritiva e das projeções das sombras, o pasmado da sombra parece ser o autor da foto, que por acaso sou eu. Assim sendo, ficamos por aqui pois em não quero entrar nesta história.

 

Até amanhã, mas antes, um recado a outros pasmados, o tal pasmado com um pé na terra e outro em Júpiter, está mesmo quase na órbita desse planeta, pois aquela placa de inox no chão não é mais que a representação de Júpiter do Sistema Solar que está representado ao longo da cidade e que a grande maioria dos flaviense desconhece. E com esta me vou.

 

 

Chaves D'Aurora

14.03.17 | Fer.Ribeiro

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  1. DEFESA DA FÉ.

 

Florinda a tudo escutou, com o sangue a lhe subir à fronte, em uma crescente indignação. Quando Aurita interpelou o primo, timidamente – Mas os pastorinhos viram Nosso Senhor no Calvário, viram Nossa Senhora das Dores, Nossa Senhora do Carmo e Nossa Senhora de...– o rapaz riu e exclamou – Pois me dizei, afinal: quantas mães tem o Filho de Deus? Pai, a gente pode ter vários, mas mãe, de facto, só nos há de ter uma, não achais todos vós?

 

Foi então que uma ardorosa defensora da Fé, a deixar assombrado o próprio marido, ergueu-se da cadeira e disse ao sobrinho, em tom normal, porém firme – Senhor Rodrigo, isso não são coisas que se digam na casa de pessoas que têm suas crenças e devoções! Aqueles devotos que lá estavam e que eram, de facto, gente de fé, por certo que seus olhos VIRAM tudo aquilo, porque tais coisas, rapaz, estão acima de nós, pobres seres humanos. Aquelas coisas, ainda que fossem só para aquela gente ver, eram milagres. Milagres da Virgem Santíssima!

 

A seguir, ameaçou-o – Se é para vires até cá com essas ideias de jerico e ficares a blasfemar e zombar de nossa religião, melhor será que penses bem antes de ultrapassar aquela porta! – chamou, até si, as meninas da casa – Aurita, Nonô, Lilinha, Mindinha, venham comigo! – recolheu-se com as filhas ao quarto do casal e todas ajoelharam-se diante do oratório, a rezar à Virgem de Fátima, em voz tão alta quanto pudessem ser ouvidas na sala de estar, pela reconversão do primo à fé católica e pelo perdão “aos pecados de todos nós.”

 

Discreta e educadamente, Rodrigo logo se dispôs à retirada de campo, antes que essa mini batalha doméstica viesse a crescer e se espalhar pelo mundo, como tantas guerras por Religião que se travaram ao longo da História. João Reis, todavia, apesar de devoto por tradição, instou ao sobrinho que ficasse e, com bastante e vivaz interesse, continuou a provocar as argumentações do jovem iconoclasta.

 

Como chegassem até ao quarto algumas risadas dos rapazes e até de João Reis (isto, por si só, um facto inusitado), já entretidos então com outros assuntos, mais amenos, Mamã e as quatro filhas puseram-se a cantar, em alto e bom som, de modo a que os da sala lhes percebessem a indignação, algumas preces musicadas em louvor à Santa Senhora, tais como essa que, até hoje, ainda é conhecida – “A treze de maio, na Cova da Iria / no céu aparece a Virgem Maria / Ave, Ave, Ave Maria...”

 

 

Alguns dias depois, sob o pretexto de devolver um livro à estante de João Reis, o primo Rodrigo tocou a sineta da entrada e pediu a Zefa que transmitisse à senhora sua tia e aos mais as suas maiores recomendações. Já se dispunha a partir, quando se viu chamado pela própria Florinda, como se, há tão pouco tempo, nada de inconveniente houvesse acontecido. – Ora me entres cá, Rodriguito, vem nos dar de novo o prazer de uma boa palestra! Só não me fales de certas coisas, bem sabes! – e, desse dia em diante, por muitos outros mais, entre broas, bolinhos e bolachas, lá estava o rapaz, de novo, a encantar a todos da casa, com os seus ditos espirituosos e as histórias engraçadas, embora algumas, por vezes, terrificantes.

 

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