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CHAVES

Olhares sobre a cidade de Chaves

Cartas a Madame de Bovery

07.06.17 | Fer.Ribeiro

cartas-madame

 

Minha cara Madame de Bovery (5)

 

Sabe aquele ponto a partir do qual não sabemos se existimos?! O ponto onde a matéria se dilui, se liquefaz? Aquele estado das coisas próximo das não-coisas em que parece que tudo acaba ou começa e nós meio perdidos agarramos em qualquer coisa, a primeira que nos vem à mão?! O lençol da cama, a almofada do sofá, o fio do pescoço, o copo da água ali posto não sabemos por quem, o rabo da gata, o que seja, o que for, como se nos quiséssemos agarrar, amarrar, prender, colar a qualquer coisa para não ir, porque há alguém do outro lado a puxar-nos e nós por medo a contrariar, a gastar as últimas forças, sem nenhumas, e a resistir, já depois do último momento!

 

Aconteceu-me algumas vezes e numa delas não omiti e contei ao Comendador e ele respondeu-me com a sua habitual complacência: pronto, está bem! Como se aquilo que eu lhe tivesse dito não tivesse importância nenhuma, fosse um exagero de mulher, um devaneio, um histerismo e eu o que queria era perceber porquê!

 

E eu lamentava, profundamente lamentava, não me saber fazer entender, não saber identificar o que sentia, não encontrar as palavras certas para o transmitir, posto que era um sentimento, e deixava-me invadir pela impossibilidade de se ter uma vida sem compreender isto, como me parecia ser a do Comendador e dizia intimamente: como é vã! Mas não era a dele, era a minha e eu não percebia!

 

A senhora sabe do que falo? Já lhe aconteceu também? Com o Comendador? Tê-lo ali à nossa frente e ele a quilómetros de distância, imóvel, petrificado, sem sequer se dar ao trabalho de dizer: mas eu estou aqui! Efectivamente não estava! E era isso que magoava, era isso que doía, assim por dentro, como um sangramento interior, uma hemorragia interna que se sente e se não vê! Adiantava nesse ponto afirmar que era real? Sim, sim, é exactamente disso que falo!

 

Depois ressuscitava, voltava a mim e tudo aquilo entrava na minha memória sempre com uma réstia de dúvida, a de se tinha ou não acontecido ou sido real! Metia então numa caixa, selava e arrumava! Mas de vez em quando a coisa regressava, como um animal faminto, satisfeito, mas não saciado e insistia. Não era bem um repetir das coisas, era mais um voltar a senti-las, mas de outra forma. E nesses escassos segundos em que aquilo durava, como se fosse um ataque, fugaz, mas violento, eu fervilhava em emoções e a probabilidade do não retorno parecia-me tão real que me deixava ao mesmo tempo extasiada e perdida! Pensava: e se isto é o fim? E não me conseguia decidir se era bom ou mau e importava-me com isso, como se tivesse de o explicar depois a alguém! Mas não tinha, nem sequer a mim! E insistia nisto e o Comendador olhava de novo para mim, do outro lado da fronteira, como se não estivesse ali, ou estivesse e dissesse: está-lhe outra vez a dar! E era exactamente aqui que eu sentia um enorme desconforto, porque começava a pensar que aquilo podia ter sido uma alucinação, um contorno só aparente do real, uma sombra, uma experiência extra-sensorial, um flash, e o Comendador outra vez ausente, cheio de lógica e razão, a insistir na sua, muito sua, característica complacência, a impacientar-me ao limite: deixe lá isso! E eu deixava, numa submissão talvez censurável, eu deixava, mas era por cansaço, mais do que por estar a absorver a mesma complacência e dizia, por ele: pronto, está bem! Mas não estava, eu só queria evitar que ficasse pior!

 

E era aqui, minha cara Madame de Bovery, que me vinha aquele seu conceito do deslizamento do eu, em favor de um alter ego que, por definição, não era meu! O fio do novelo, como diz, que eu não sabia se havia de puxar ou não, porque queria ao mesmo tempo que o novelo se desfizesse e que ele permanecesse íntegro, com a única finalidade de parecer ignorá-lo. Esteve de facto presente essa intenção!

 

Podia sim, seria talvez até expectável, como diz, uma nota final, mas, não sei porquê, não me apeteceu falar dos Maias!

 

Não lhe posso, por isso, responder com sinceridade, como gostaria! Não sei se foi um final feliz, não sei sequer se o pretendido! Mas concordo consigo: improvável e magistral!

 

Desculpe ter escrito com esta dificuldade notória no uso e na concordância dos tempos dos verbos, nem me explico, a senhora sabe perfeitamente de onde isto vem!

 

Como habitualmente,

Maria Francisca