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CHAVES

Olhares sobre a cidade de Chaves

Chaves D'Aurora

13.06.17 | Fer.Ribeiro

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  1. ARMISTÍCIO.

 

Ao frio novembro de 1918, uma nova alegria veio a todos aquecer. Embora com alguns dias de atraso, chegou a Sant’Aninha de Monforte uma auspiciosa notícia: a Guerra acabou! Os alemães reconheceram-se derrotados e assinaram o armistício no dia 11 daquele mês, pondo termo, assim, à chamada Grande Guerra.

 

Alfredo, que andava lá pela pracinha, correu a dar a notíciaaos seus. Logo Aldenora, estripando alguns xailes, improvisou fitas verdes e encarnadas. Foram todos ao centro da aldeia, com as cores da bandeira pátria, a gritarem vivas e loas ao querido Portugal. Todos os aldeães estavam a correr alegremente ao Largo da Igreja, a levar farnéis de pães, queijos e vinho, muito vinho. Acendiam-se fogueiras para assar castanhas. O rancho de danças e cantorias da aldeia já estava a se formar, com suas roupas típicas de domingo e os músicos a preparar suas gaitas, harmónios, guitarras e violas braguesas, para a gentinha dançar.

 

Festejava-se o fim da grande asneira político-económica das grandes potências da época, na qual, só na Batalha de La Lys, em abril desse mesmo ano, foi-se quase a metade dos cerca de 9.000 soldados portugueses que, em África e na França, perderam suas vidas, nas mais indignas condições. A própria Sant’Aninha enviara à morte, na África, dois de seus mais robustos rapazes.

 

A verdade da História é que vários países e milhares de vidas se envolveram, durante quatro anos, em uma lastimável carnificina, sem justificativa alguma que a validasse, realmente. Seus mais dolorosos registos eram as cartas em que os soldados contavam, aos seus entes queridos, os horrores e a tortura mental que era viver ou morrer em uma trincheira. Mais morrer do que viver, a julgar pelas estatísticas dos milhares de civis e militares que perderam a vida em vão, por uma guerra vã, como em tantas outras contendas vãs e inúteis que soem ser, afinal, todas as guerras.

 

Em suma: tudo vão.

 

A Alemanha, diante da Tríplice Entente, rendera-se afinal à França, à Inglaterra e aos Estados Unidos (a Rússia, após a Revolução Bolchevique de 1917, já havia saído de cena do trágico teatro bélico) e também, certamente, a outros aliados de menor participação, mas de grande mérito e valor. Antes do conflito, Portugal já estivera a lutar contra os alemães, em uma guerra não declarada, na defesa de suas colónias. Acabara por aderir, formalmente, a essa luta. O povo português sentia-se, agora, também um vencedor.

 

Enfim, terminara. Era tempo de festejar a paz e glorificar, tanto os valorosos mortos, quanto os heroicos sobreviventes. De ambos os tipos de bravos, havia soldados de Chaves e de várias aldeias trasmontanas, a serem glorificados no panteão dos heróis. Não fossem por seus dois eméritos rapazes, as agruras bélicas nunca teriam chegado inteiramente a Sant’Aninha de Monforte, uma aldeia esquecida por trás dos montes, mas todos agora celebravam o fim daquela insensata peleja mundial que, ingenuamente, declarava-se “uma guerra para acabar com todas as guerras”.

 

Não apenas falhou em ser a última de todas, como veio a se tornar o tubo de ensaio para outra, mais global e tão ou mais terrível e genocida, a segunda grande guerra do século XX. Esta seria fruto dos delírios de um anticristo, de estranhos bigodinhos à la Charlot (Charles Chaplin, até então, era a mais proeminente estrela de cinema, em Hollywood). Essa besta-fera germânica já estava a entronizar, na derrotada e combalida Alemanha pós “Grande Guerra”, suas garras de Leviatã. Com o seu famoso livro “Mein Kampf” (1924) e o carisma de excelente orador, iria influenciar e obter o apoio crescente da maioria de cidadãos da Alemanha, cegos, surdos e emudecidos pelo fascismo, putrefaciente mancha moral e desumana, que começava a se estender sobre uma considerável fração do mapa da Europa.

 

Seu fanatismo exacerbado iria aprofundar as bases da ideologia Nazi. Eivada de intolerância e fobias, como a eugenia, o racismo, a supremacia ariana e o antissemitismo, culminaria com a perseguição e condução em massa a campos de concentração, onde iriam consumar-se a tortura e morte de cerca de onze milhões de pessoas, no chamado Holocausto, dentre judeus (as vítimas mais numerosas), ciganos, comunistas, Testemunhas de Jeová, homossexuais e deficientes físicos e mentais. Além desses massacres, iriam fazer-se experiências científicas dolorosas e fatais com seres vivos, que tinham prisioneiros como cobaias humanas.

 

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