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CHAVES

Olhares sobre a cidade de Chaves

Um olhar sobre a cidade, com algumas memórias

01.08.17 | Fer.Ribeiro

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Os velhos edifícios e lugares da cidade carregam com eles muitas das nossas memórias, principalmente estes que estavam no coração da cidade, desde as Freiras no tempo em que era jardim, ponto de encontro e sala de estar. Era aí que todos nos encontrávamos sem ser necessário marcar encontro, pois era ponto obrigatório de estar, de esperas ou nem que fosse, e só, de passagem ou dizer presente. Com os velhos edifícios era o mesmo. A esquina do Lopes era um ponto estratégico, o problema era ter lá lugar, ao lado a loja de peças de automóvel e depois era o Aurora, o antigo Aurora, primeiro sala de professores do liceu e de gente queque, para passar, depois de democratizado, a ser de toda a gente, ou quase, pois houve sempre quem continuasse fiel ao seu sport, comercial ou ibéria, mas era o Aurora, de toalha nas mesas e sala de estar para longas conversas, sempre com mesas ocupadas mas onde se iam revezando os seus ocupantes sem nunca a deixar vaga. Memórias de vivências que hoje são impossíveis de serem repetidas.

 

 

 

Chaves D'Aurora

01.08.17 | Fer.Ribeiro

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  1. RESSURRETO.

Sempre que sabia algo de novo, Zefa corria a contar à menina os boatos que chegavam sobre o cigano. O rapaz já não se amancebava mais com a zíngara de Valpaços. Anda­va agora a oferecer rosas de pano a todas as raparigas de sua gente. Cada dia um lenço diferente, que ele em rosa transfor­mava. Cada dia uma nova ciganinha que, se agora dançava de alegria pelos amores do cínico aldrabão, logo acabaria por lhe prantear o desamor.

 

A isso tudo, porém, Aurora fingia dar de ombros, em um gracioso nem te ligo – amores poucos, ouvidos moucos! – e pedia que não lhe falassem mais sobre aquele tipo, já bem pra lá de esquecido. Se o visse passar pelo Raio X, quando ela fosse à janela, havia de se portar como se o gajo tivesse abraçado a Maldita e estivesse agora a usar o fato de domin­gueira, aquele com que são enterrados os que foram ungi­dos in extremis. Ainda que o encontrasse pertinho de si, era como se Hernando fosse uma caveira assombrada, algum fruto de alucinação nos cochilos após o almoço, que a ela sobreviesse por ter sabido bem (bem além da conta) uma caçarola de feijoada trasmontana ou uma generosa chanfana de porco.

 

Era como se ele fosse, enfim, alguém a quem pudessem resistir, de Aurita, as vozes da mente e os olhos do coração.

 

 

  1. PAZ EM FESTA.

Em novembro de 1919, Chaves estava em festa. Aquilo que a Pneumónica não deixara os flavienses comemorar ao seu devido tempo, agora estava a se cumprir. Festejava-se o primeiro aniversário do término da chamada Grande Guerra.

 

Como por ocasião do bendito armistício, todos estavam a correr às ruas. No Forte de São Francisco, os soldados abri­ram as portas ao povoléu e já lá estavam os vendedores de vinho com suas pipas, enquanto outros acendiam fogueiras para assar castanhas. Estavam também a chegar uns ranchos de aldeias do Barrosão, com suas gaitas, harmónios e guitar­ras. Lojas anunciavam a venda de balões do tipo veneziano ou à moda do Minho, laços de fitas com as cores da bandeira portuguesa, bandeirolas e que tais.

 

A uma das paredes da Torre de Menagem, permanece até hoje uma lápide com os nomes dos flavienses mortos em combate n’ África ou em solo francês. Àquele dia festivo, no espaço em volta da Torre, entre os canhões e as mura­lhas que a cercam e onde, hoje, há belos e bem cuidados jardins, alguns integrantes da Infantaria 19, juntamente com familiares e amigos dos mortos, punham-se a homenagear os heróis.

 

 

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Torre de Menagem. Chaves (PT). Foto de Raimundo Alberto (2010).

 

Seus nomes, caprichosamente desenhados sobre uma fo­lha de pergaminho, com tinta dourada e caligrafia cursiva, eram lidos em alta e comovida voz. A cada nome pronuncia­do, os presentes oravam: – Primeiro Cabo José Gomes – Os anjos levem sua alma até à glória nos céus! Na santa paz do Senhor! Amém! – Segundo Cabo José Pereira – Os anjos levem sua alma até à glória nos céus… – Soldados José e António Exposto – Os Anjos levem sua alma…

 

No Jardim Público, na Madalena, no Arrabalde, no Tabo­lado, para já se viam as vendedeiras a improvisar barracas, onde ofereciam rissóis, milho cozido, bolos de bacalhau e do que mais houvesse para o bem comer. Outras vendiam sumos de laranja, feitos de pronto. Outras mais, ofereciam bebidas novas, industrializadas.

 

Anunciava-se no jornal que a Banda da Infantaria 19 iria tocar no Jardim Público, ao entardecer, um repertório espe­cial: “Marcha Portuguesa”, de Soller; “Os Murmúrios do Mondego”, de A. Souvinet; “Un jour de fête”, Ouverture, de Scweinsberg; “Un ballo in maschera”, de Verdi; “La Divina Comedia – Il Inferno”, de S.Fiorenzo; “Las Bribo­nas”, zarzuela de R. Callega; “Danse des Bachantes”, de Gounod; “Peer Gynt – Suite 1”, de Grieg; e mais algumas marchas e valsas.

 

Na Praça Camões, parentes e aderentes, amigos e conhe­cidos, davam-se abraços e se punham a comentar a terrível crise económica que se abatera sobre Portugal e quase toda a Europa, após findar a terrível guerra.

 

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