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CHAVES

Olhares sobre o "Reino Maravilhoso"

31
Out17

Chaves D'Aurora

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  1. CASÓRIO.

 

Não foi lá muito fácil cair nas boas graças do velho Joaquim Lourenço. A questão maior é que, tão logo os coscuvilheiros da cidade não aguentaram mais os seus comichões linguais, foram logo dar ciência ao Lourenção de que o senhor Bernardes já semeara um fruto em terras brasileiras. A criança, que se chamava Zerlindo, fora gerada com uma mulata graciosa, moça prendada e instruída, filha de uma senhora que prestava serviços ao flaviense como arrumadeira. João não o quisera reconhecer de papel firmado, mas contribuía com algumas pecúnias para uma boa instrução e educação do petiz.

 

Aos olhos da inseparável bengala do aveirense, em plena concordância com seu dono, não agradava nem um pouco aquele namoro, que só poderia ir de mal a pior, por causa da vida pregressa do jovem comerciante de Chaves. Nas reflexões do futuro sogro, a vida de mocetão que o flaviense ainda levava também lhe parecia um tanto quanto desregrada, ainda que tudo aquilo não passasse de meras patuscadas entre os rapazes da época, com as chamadas mulheres da vida.

 

Foi preciso que João Reis lhe jurasse, com as mãos na bengala e diante da bela imitação da Santa Ceia de Da Vinci, em destaque na sala de jantar dos Morais Dias – Ao me casar com a menina Flor, deixarei de pronto qualquer atitude que me possa tornar ou parecer um libertino! – e foram também necessárias muitas idas e vindas do Eulálio, nas funções de casamenteiro, em visitas anunciadas com cerimónia à casa do Lourenção, até que este, afinal, mandasse abrir para os noivos as portas de madeira ricamente trabalhadas da Igreja de Santo Alexandre.

 

A um belo entardecer em Belém, com brisas que vinham da baía e ajoelhados diante de outra obra-prima, o altar-mor do referido templo, Florinda e João uniram para sempre suas mãos, seus corpos, suas almas.

 

Seus anseios.

 

  1. FEIRA DOS SANTOS.

 

Era em todo esse amor romântico de Flor e João Reis, que Aurora, agora, punha-se a pensar, enquanto o pai falava sobre o Álvares e a necessidade viril de este senhor ter uma companheira oficial, para lhe preencher as carências da viuvez. Reportando-se à migração do casal para Trás-os-Montes, ao tempo em que ela, Afonso e Aldenora ainda eram pirralhos, Aurita lembrou certas palavras que o Papá dissera a Mamã e esta sempre costumava contar às filhas. Foi certa vez quando, um pouco depois de chegarem a Chaves, Papá levou sua Flor com os outros brasileirinhos até à Feira dos Santos, junto ao Forte de São Neutel, onde iriam conhecer uma grande novidade: o Cinematógrapho.

 

Na Feira dos Santos, o carrossel de cavalinhos era a alegria dos miúdos, juntamente com os ursos, a mulher gorda com barba, os fantoches e outras diversões anunciadas pelos berrantes cornetins. Vendia-se de tudo nas barracas, onde muitos idílios começavam e eram os pontos de encontro dos namorados. Também o eram para os muitos transeuntes que, por ali, apenas vadiavam. Por entre cidadãos de Chaves e os que vinham das aldeias, desfilavam cegos, coxos, aleijados, chaguentos, a maior parte vinda de outros concelhos, todos em sua condição de inoportunos e importunos mendicantes. Nos sítios periféricos da feira, proliferavam, aos termos de um cronista da época, “as tendas de pano verde, batotas por toda parte, com as roletas pataqueiras de diferentes feitios a girar sem parança, todas mais ou menos ajustadas para a ladroagem dos jogos de azar”.

 

A maior atração da feira era o Cinematógrapho ao ar livre, em um vasto recinto do Grupo Desportivo Flaviense, convenientemente preparado para tal. Já em um jornal da própria Vila de Chaves, o anúncio da empresa dizia: “Hoje, às 20 horas, os mais interessantes e atraentes films. Aos intervalos de cada parte, irão apresentar-se o distinto concertista e de bandurra espanhola Señor Don Manuel Lopez e a troupe de Os Característicos, com a actriz Evangelina Correia e o actor Manuel Correia, em apreciáveis números de cançonetas, monólogos, cenas cómicas, pequenas comédias, operetas e trechos de revistas, do repertório dos dois artistas.”

 

fim-de-post

 

 

 

 

 

30
Out17

De regresso à cidade

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Hoje fazemos o regresso à cidade com nevoeiro sobre o Rio Tâmega, mas são apenas algumas saudades de um dia assim, pois o nevoeiro da foto já há muito que levantou. Por cá continua o verão, embora o calendário diga que não, pelo menos de dia, pois as noites já estão fresquinhas, mas ainda não são de frio. Já agora, que se aguente assim até depois da Feira dos Santos.

 

 

 

30
Out17

Quem conta um ponto...

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365 - Pérolas e diamantes: A estupidez (parte 2)

 

Porventura, a forma mais vulgar de estupidez é o preconceito racial.  E é uma estupidez mundial.

 

Em Social Psychology of Internacional Condut (1929), G.M. Stratton defende que “o preconceito constitui uma das características da natureza humana”. E chega a duas conclusões interessantes: “Embora seja universal, o preconceito racista nunca, ou raramente, é inato. Não nasce connosco. As crianças de raça branca, por exemplo, não manifestam qualquer preconceito quanto às crianças ou amas de cor até à altura em que as famílias lho incutem.”

 

Nos célebres versos de South Pacific, Oscar Hammerstein repete no estribilho: “Para odiar tem de se ser ensinado.”

 

  1. M. Sratton conclui que “o preconceito rácico adquirido nada tem de racial. Entre ele e as características raciais não existe qualquer relação, nem tão pouco com o sentimento de estranheza: ele é apenas, e por toda a parte, uma reação ante a ideia de uma ameaça coletiva… O que habitualmente se designa por preconceito “racial” não passa, de facto, de mera resposta coletiva a ameaças de perdas ou perdas reais; resposta que não é inata, mas, sim, alimentada pela tradição e por impressões recentes de prejuízos sofridos há pouco”.

 

De facto, toda a estupidez é medo. O ser humano sensato ou inteligente tem possibilidade de sublimar e vencer os seus preconceitos. O estúpido tornar-se-á inevitavelmente seu escravo.

 

No entanto, o preconceito é apenas uma causa de um mal maior: a intolerância, que é a força impulsionadora. O preconceito é passivo, enquanto a intolerância é ativa.

 

Não foi o preconceito que fez com que as Igrejas Cristãs, alegando heresia, tivessem queimado os fiéis umas às outras. Foi a intolerância.

 

No entanto, estas duas formas de estupidez caminham, quase sempre, a par. E chegam mesmo a confundir-se.

 

O individuo preconceituoso é até capaz de não permitir que o seu filho frequente uma escola aberta a crianças de todas as raças e religiões, mas apenas o intolerante fará tudo para suprimir esses estabelecimentos de ensino.

 

Mas nada disto teria muita importância se o homem estúpido só a si próprio se prejudicasse. Por muito que nos custe, a estupidez é a arma mais mortífera do Homem, é a epidemia mais assoladora e o seu luxo mais oneroso. O preço da estupidez é incalculável.

 

As várias formas de estupidez já custaram à humanidade mais do que qualquer guerra, epidemia ou revolução.

 

Uma das formas mais dispendiosas da estupidez é, muito provavelmente, a burocracia. Se poupássemos uma décima parte da quantidade de papel utilizado em formulários, relatórios, regulamentos e atas, e com essas economias adquiríssemos livros e compêndios escolares, a esta altura já não existiriam analfabetos no mundo.

 

Paul Tabori, no seu livro História Natural da Estupidez, conta que entre as duas últimas guerras mundiais estava na moda um insulto em forma de interrogação. Costumava perguntar-se: “Olha lá, a estupidez incomoda-te?”

 

Parece que, infelizmente, não incomoda lá grande coisa. Mas se se tratasse de uma dor de dentes, há muito que se teria tentado remediá-la.

 

Mesmo parecendo que não, a estupidez, de facto, dói muito. Mas é raro que incomode o estúpido.

 

Esta é a tragédia do mundo em que vivemos.

 

O livro, que recomendo vivamente, trata da estupidez, da baboseira, da vacuidade, da presunção, da idiotice, da cobardia, da estultícia, da imbecilidade e da estolidez. Ocupa-se também dos otários, dos alarves, dos asnos, dos mentecaptos, dos ressabiados, dos insensatos e dos calinos. Apresenta ainda uma galeria de broncos, brutos, simplórios e monos. Analisa e observa atos de irracionais, insensatos, enxebres e apoucados.

 

A estupidez, pela virtude da sua especial natureza, sempre foi alvo de sátira e denúncia. Mas foi por causa dessa sua peculiar caraterística que “sobreviveu a milhões de ataques, mesmo aos mais rudes, sem nada sofrer; e, no fim, continua a resistir, triunfante e gloriosa”.

 

João Madureira

 

 

29
Out17

MACNA - EXPOSIÇÃO DE JOÃO MACHADO

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Depois da Exposição “Corpo, Abstração e Linguagem na Arte Portuguesa”, com um conjunto de obras provenientes da Secretaria de Estado da Cultura (SEC) em depósito no Museu de Arte Contemporânea de Serralves, onde estavam representados mais de duas dezenas de artistas portugueses, ter estado patente ao público no MACNA desde abril até 15 de outubro passado, é a vez de o Museu flaviense da arte contemporânea receber mais um grande artista português, o Escultor e Designer João Machado.

 

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Nascido em Coimbra, João Machado  é formado em Escultura pela Escola Superior de Belas‑Artes do Porto, mas é no Design Gráfico que se revê e posteriormente é reconhecido e se internacionaliza.

 

Foi docente na ESBAP (1976-1981), tendo decidido dedicar-se em  exclusivo ao design gráfico e abrir atelier próprio em 1981.

 

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João Machado participa desde 1983 em inúmeras exposições coletivas e individuais que lhe trouxeram vários prémios nacionais e internacionais, destacando-se o Prémio de Excelência Icograda em 1999 bem como a sua nomeação de Graphis Design Master.

 

Autor de uma obra vastíssima, a sua paixão pelo cartaz é notória, sua peça de eleição. Revela-se e igualmente no design editorial, nas áreas da ilustração e da filatelia, sempre marcados por uma identidade que tem vindo a ser persistentemente construída.

 

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Exposições Individuais


1982 - Museu Nacional de Soares dos Reis, Porto/Portugal - Sociedade Nacional de Belas Artes, Lisbon/Portugal
1985 - Richmond Art Gallery, Montreal, Canadá
1986 - Art Poster Gallery, Lambsheim/Alemanha - Museu Nacional de Soares dos Reis, Porto/Portugal
1987 - Annecy/Bonlieu - Centre d’Action Culturelle, Annecy/França
1989 - Lincoln Center, Colorado/EUA
1991 - Dias da Cultura Portuguesa, Frankfurt/Alemanha
1996 - Galeria Casa del Poeta, Cidade do México/México
1997 - DDD Gallery, Osaka/Japão - Museu Nacional de Belas Artes, Rio de Janeiro/Brasil - Memorial da Cidade, Curitiba/Brasil - Museu Brasileiro da Escultura, S. Paulo/Brasil

 

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1998 - Casa Garden, Macau/China
2001 - ESADE, Escuela Superior de Administración e Dirección de Empresas, Barcelona/Espanha - Casa da Cerca, Almada/Portugal - Pécsi Galéria, Pécs/Hungria
2002 - Dansk Plakatmuseum, Aarhus/Dinamarca
2006 - Ginza Graphic Gallery, 20th Anniversary GGG / DDD Project, Japão
2007 - International Triennial of Stage Poster, Bulgária.
2012 - Espaço Quadra, Matosinhos/Portugal
2014 - Galeria Artis, Cidade do México/México

2017 – MACNA – Museu de Arte Contemporânea Nadir Afonso

 

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Prémios


1983 - 1.º Prémio Nacional Gulbenkian para a melhor Ilustração de Livros para a Infância, Lisboa, Portugal - 1.º Prémio Grafiporto (Ilustração)
1985 - 1.º Prémio Nacional de Design, Lisboa, Portugal
1989 - Prémio Especial da “Die Erste Internationale Litfass Kunst Biennale”, Munique, Alemanha Medalha de Bronze da Bienal do Livro de Leipzig, Alemanha
1997 - 1.º Prémio Mikulás Galanda, Bienal do livro de Martin, Bratislava, Eslováquia - 1º Prémio “First International Fair Poster Competition”, Plovdid, Bulgária
1998 - 1.º Prémio para Logo Film Commission, Association of film Commissioners International, Denver, EUA

 

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1999 - 1º Prémio Best of Show, European Design Annual, Grã-Bretanha Prémio Zgraf 8 Icograda Excellence, Zagreb, Croácia
2004 - 2.º Prémio, “4th International Triennial of Stage Poster”, Sofia, Bulgária
2005 - 1.º Prémio Internacional de Arte Filatélica de Asiago (Itália) 2005, categoria – “Turismo” – Asiago, Itália
2007 - 1.º Prémio Internacional de Arte Filatélica de Asiago (Itália) 2007, categoria – “Protecção do Ambiente” – Asiago, Itália
2008 - Menção honrosa EKOPLAGÁT’08 para a colecção de cartazes Ano Internacional Planeta Terra 2007 e Dia Nacional da Água 2007, Zilina, Eslováquia

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2010 - 1.º Prémio Internacional de Arte Filatélica de Asiago (Itália) 2010, para “Prémio, Especial Turismo”, edição “Os Selos e os Sentidos” – Asiago, Itália
2012 - Prémio Seiva 2012, categoria Artes, Porto, Portugal
2013 - 12ª Bienal Internacional do Cartaz, México. Prémio Especial para o cartaz Pasta Medicinal Couto.
2014 - 1.º Prémio Internacional de Arte Filatélica de Asiago (Itália) 2007, categoria – “Turismo” – Asiago, Itália

 

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Esta exposição de João Machado que se inaugurou ontem no MACNA, denominada “Arte da Cor”,  conta com algumas esculturas do artista, bem como com mais de uma centena de cartazes representativos da sua arte como designer gráfico, entre os quais alguns dos quais têm feito a imagem gráfica do Cinanima, dos quais é autor desde o ano de 1977 até a presente ano.

 

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Ainda em exposição, está o próprio cartaz da exposição e um cartaz dedicado ao nosso MACNA – Museu de Arte Contemporânea Nadir Afonso, ambos à venda no MACNA.  Para além das esculturas e cartazes, estão também em exposição diversos desenhos do autor, dos anos 70 e 80 do século passado, originalmente executados a tinta da china.

 

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Esta exposição,  a não perder, é comissariada por um flaviense, António Augusto Joel, e irá estar patente ao público até 8 de abril de 2018.

 

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Em http://www.joaomachado.com/ há mais informações sobre o artista João Machado, sítio onde também fomos recolher alguma informação para este post.

 

 

 

 

28
Out17

Dorna - Chaves - Portugal

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Dita a ordem alfabética das nossas aldeias flavienses que a seguir a Dadim seja a Dorna. Ora como no último sábado fomos até Dadim, hoje fica aqui a Dorna. Curiosamente duas aldeias de montanha nas ordem dos 900m de altitude,  embora Dadim fique ligeiramente abaixo dessa altitude a  Dorna acima.

 

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Também ambas as aldeias ficam no limite do concelho de Chaves, Dadim a cerca de 4 km da fronteira com a Galiza e a Dorna bem mais perto do limite, a apenas 500m do concelho de Valpaços. No entanto, e embora estas duas aldeias comunguem destas identidades, também têm as suas singularidades e na prática, em comum, apenas têm ser ambas do concelho de Chaves.

 

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E uma vez que a prosa de hoje deu para iniciar por falar em Dadim, das terras da Castanheira, os castanheiros são mais da Dorna. Aliás de fizermos o exercício de ver a fotografia aérea da região da Dorna, facilmente verificamos uma enorme macha de arvoredo metodicamente plantado e planeado que por conhecimento sei serem castanheiros, uns valente hectares, na ordem dos 1200 ha, embora a maioria pertença ao concelho de Valpaços.

 

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Castanha que é o principal rendimento da população daquela pequena região de castanheiros que, pelo que por aí se vai ouvindo, este ano é para esquecer, com baixa produção e castanha de menores dimensões. Esperemos ao menos que sejam saborosas, pois o S. Martinho está à porta e nesse dia, manda a tradição que se faça um magusto. Esperemos então que haja castanhas que cheguem para tanto magusto e que, repito, sejam saborosas para a jeropiga correr melhor.

 

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E é com esta de castanhas e jeropiga que vos deixo, contudo antes do S.Martinho ainda temos a grande festa de Chaves – a Feira dos Santos – já com barracas espalhadas pela cidade.

 

27
Out17

Feira dos Santos - Um regresso ao passado

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Há dias quando disse que os regressos às feiras dos santos tinham terminado, no final deixava em aberto mais um regresso, que acontece hoje.

 

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Este é mesmo um regresso a tempos bem mais remotos, pois levam-nos até meados do século passado, inícios dos anos 50, ou mais, pois a foto do Largo do Arrabalde não consegui saber a data.

 

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Duas das fotos ficam com marca de água, é o mínimo que posso fazer, pois como fotos cedidas de uma coleção particular para publicação no blog.  Isto é só para não caírem ou dificultarem por aí o comércio destas coisas,  por gente que se entretém a roubá-las aqui na net.

 

 

27
Out17

Discursos Sobre a Cidade - Por Gil Santos

GIL

 

NA TASCA DO RAMADA

 

Almerindo Preguiceiro era um vagabundo!

 

Nem sabia nem queria fazer nada. Passava os dias a derringar polaina de tasca em tasca, amanhando conversas de ocasião com os parceiros copofónicos ou a tainar com outros da sua igualha.

 

O bandalho nasceu com o rabo virado para a lua, como soi dizer-se. Foi plantado nas poulas do Toucedo pelo sotaina da aldeia e apesar de não o ter perfilhado, nunca lhe negou sustento para o fazer homem. Contudo, saiu-lhe a porca mal capada. O rapaz cresceu bem estrumado e bem regado, medrou, mas descambou e deu vadio. Sua mãe, uma cabaneira pobre, pasto de muitos por necessidade, não tinha dúvidas quanto à paternidade do rebento e, com propriedade, lá sabia porquê!

 

De calças de peitilho e alças, rachadas no rabo, aprendeu temperano os prazeres do non far niente e passava os dias na gandulice. Da escola retirou pouco proveito uma vez que eram mais os dias em que se baldava, roubando castanhas ou indo aos ninhos, do que aqueles em que sentava o traseiro nas velhas carteiras do mestre Matos. Ainda assim, aprendeu a juntar algumas letras, a assinar o nome e a fazer meia dúzia de contas, sobretudo de somar e de multiplicar.

 

Gargalhote, assentou praça no dezanove e aí refinou as manhas de viver à pala dos outros. Incólume a castigos mais duros, passou à peluda quase virgem. Regressou ao ninho materno ainda mais salafrário do que o havia abandonado.

 

Prestes cogitou botar casa. Carecia, para isso, de parceira que lhe aprouvesse. Havia de ser asadinha, trabalhadeira, boa parideira e com mão para a cozinha. Contudo, sendo bem conhecido pelas moças das redondezas, as mais ajeitadinhas e com dois dedos de testa fugiam-lhe como o diabo da cruz. Apesar de bem-parecido, aquela veneta de detestar o trabalho fazia com que chaldrasse somente a quem não queria. Por isso teve de topar parceira em aldeia longínqua onde ninguém lhe conhecesse o sestro.

 

Após fuçar alguns meses pelos mais recônditos lugarejos, acabou por catrapiscar a Tchica Sarilheira, também ela originária de cabaneira pobre. Todavia, a moça era dotada de algumas das qualidades que lhe convinham. Era trabalhadeira e uma aturada dona de casa, no entanto tinha um defeito de fabrico que a privara de melhor partido, nasceu com uma gâmbia mais curta e manquitava um cibo. Nada com que o sacripanta não pudesse bem.

 

A boda, suportada pelo padrinho, abade da freguesia, foi de arromba. Uma vitela no espeto, meia pipa de vinho do de Cova do Ladrão e uma fornada de pão, para que todos enchessem as bentas à conta do casório do Almerindo. Mal eles sabiam que afinal quem pagava a boda era a côngrua a que por serem católicos apostólicos romanos estavam sujeitos!...

 

A vida a dois corria bem, tanto assim que passado nove meses a terra festejava já o primeiro rebento do casal.

 

Todavia, aquele vício da calaçaria estava a encher de sofrimento a Sarilheira. Era por demais! O Preguiceiro, à ajuda, em chaldrando-lhe o patrão, ainda ia bolindo nem que fosse somente meio-dia. De tarde descansava na massadoura do prado. De resto para si não fazia nada, esperando que a mesa se compusesse com o que a desgraçada da mulher ganhava nas magras e raras jeiras que pudesse alcançar. Fome, a bem dizer, não passaria pois a mulher era diligente e paciente ao ponto de conseguir que não lhe faltasse o caldo. Agora mimos, só mesmo os das tainadas com os amigos, o mais das vezes na tasca do Ramada. Queimava, nestas andanças, os míseros tostões que pudesse juntar. E não lhe perdoava, pelo menos uma vez por mês tinha tainada e bebedeira certa.

 

Quando o peixeiro passava pelo lugar com sardinha, quase sempre recessa, a Tchica lá fazia um esforço por botar meia dúzia para o marido, no entanto tinha de lhas estripar muito bem que o biqueiro não as comia com tripas e muito menos fritas. Tinham de ser assadas na brasa e bem regadas com azeite e vinho dos mortos.

 

Ora um dia, ali pelo São João, quando o povo diz que a sardinha pinga no pão, o Ramada encomendou uma canastra delas para uma sardinhada servida ao final da tarde de um sábado, para meia dúzia de comensais dos da igualha do Preguiceiro.

 

Enquanto comiam e bebiam à tripa-forra a Tchica Sarilheira calhou de passar no caminho, de regresso da sacha de uma leira de batatas que o Sr. Prior lhe havia encomendado. Quando se apercebeu do festim, parou debaixo de um caramanchão fronteiro que a rebuçava e pôs-se à escuta dos dezeres do marido.

 

― Ó Niceto, bota aí mais uma sardinhita, que elas estão bem boas!

 

― Tu és um lambão Almerindo, comes mais do que nós todos. Pudera, não lhe comes as tripas, mamas só os lombinhos, por isso, enquanto nós comemos uma, tu lerpas três… Fosca-se, só comes mais alguma se for com as tripas!

 

Para não ficar mal,

 

Bota cá mas é a sardinha que essa vai com tripas e tudo.

 

A Tchica acabara de ouvir o que faltava para lhe tirar a biqueirice.

 

Que esperasse!

 

Passado oito dias o sardinheiro voltou e a Sarilheira comprou meia dúzia delas. Preparou-as para assar mas de uma forma especial. Num almofariz esmigalhou muito bem algumas malaguetas bravas que faziam bufar o mais pintado! Misturou-lhe um pouco de azeite e encafuou a mistela na tripa das sardinhas que tocavam ao parceiro. Salgou-as e estavam prontas para a brasa.

 

Almerindo chegou para a janta, alapou-se no escano e reparou que as sardinhas assavam no braseiro com as tripas, tal como ele não gostava.

 

Reclamou.

 

― Olha lá ó estojo, num te disse já que não gosto de sardinhas com tripa! Parece que és burra!...

 

― Ó meu querido maridinho, aqui é como na tasca do Bento Ramada, comes e calas!...

 

Ele ligou os fios e percebeu a deixa!

 

Calou moreta e esperou que as sardinhas lhe caíssem no prato.

 

A muito custo lá as foi roendo.

 

Quando chegava à parte da barriga torcia-se todo.

 

Ele suava, ele bebia, ele botava a língua de fora, bufava, contudo, para não dar parte de fraco, calava-se como um rato!

 

Dali por diante deixou de ser biqueiro e fosse o que fosse que lhe caísse no prato morria! Todavia, das sardinhas nunca mais quis ouvir sequer falar!

 

Abençoada Thica!

 

E isto é o que se sabe!

 

Quantas outras biqueirices não lhe teria curado aquele pobre anjo, na intimidade das paredes de pedra solta do casebre em que viviam?

 

Uma coisa perecia certa, à medida que os anos passavam, Almerindo arrepiava caminho e se pudesse viver cem anos, haveria de ser um homem exemplar tal como seu pai que só cobrava batismos e funerais a quem se olvidasse de lhe untar as barbas pelos sarrabulhos!

 

Gil Santos

 

 

26
Out17

Flavienses por outras terras

Banner Flavienses por outras terras

 

Justino Maia

 

Nesta crónica do espaço “Flavienses por outras terras” vamos até à vila de Pardilhó, no concelho de Estarreja, que, segundo o Justino Maia, é a capital das enguias e do barco moliceiro.

 

Cabecalho Justino Maia.png

 

Onde nasceu, concretamente?

Nasci no hospital velho (onde agora é a Santa Casa da Misericórdia).

 

Nos tempos de estudante, em Chaves, que escolas frequentou?

Frequentei a Escola da Estação, a Nadir Afonso, o Liceu Fernão de Magalhães e a Dr. Júlio Martins.

 

Em que ano e por que motivo saiu de Chaves?

Saí de Chaves em 1994 para ir estudar.

 

Em que locais já viveu ou trabalhou?

Já vivi em várias localidades. Agora vivo em Pardilhó e trabalho no concelho de Oliveira de Azeméis, no Agrupamento de Escolas de Fajões.

 

Diga-nos duas recordações dos tempos passados em Chaves:

Tenho muitas recordações: os amigos, tomar banho no Rio Tâmega, o futebol na rua e mais tarde no Desportivo…

 

Proponha duas sugestões para um turista de visita a Chaves:

Visitar a parte histórica, o Castelo, a Igreja Matriz, a Rua de Santo António, a Rua Direita, as Caldas e os novos museus (Nadir Afonso e o das águas).

Desfrutar a parte gastronómica (os Pastéis de Chaves, o fumeiro e os milhos).

 

Estando longe de Chaves, do que é que sente mais saudades?

Do nevoeiro e dos dias de Inverno.

 

Com que frequência regressa a Chaves?

Regresso 3 a 4 vezes por ano. Gostaria de ir mais vezes, mas a escola e o futsal preenchem a maior parte do tempo.

 

O que gostaria de encontrar de diferente na cidade?

Nada. Acho que Chaves se está a tornar numa grande cidade.

 

Gostaria de voltar para Chaves para viver?

Quem sabe um dia! É difícil, mas espero vir a passar mais tempo em Chaves, pois a minha esposa e a minha filha adoram a cidade.

 

Ria de Aveiro.jpg

 

O espaço “Flavienses por outras terras” é feito por todos aqueles que um dia deixaram a sua cidade para prosseguir vida noutras terras, mas que não esqueceram as suas raízes.

 

Se está interessado em apresentar o seu testemunho ou contar a sua história envie um e-mail para flavienses@outlook.pt e será contactado.

 

Rostos  Justino Maia.png

 

 

 

25
Out17

Feira dos Santos – Um pequeno regresso no tempo – XII

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Com as fotos de hoje terminamos estes pequenos regressos no tempo às edições das Feiras dos Santos de Chaves, pois como as imagens de hoje são do ano passado, a seguir será a feira que acontecerá a partir do próximo fim-de-semana.

 

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Hoje ficam apenas três momentos, um com um momento da “praça das farturas” que fora da feira passa a rotunda do monumento, outro momento com o velhinho carro dos Bombeiros “de baixo” num regresso à praça onde viveu tantos anos, e um terceiro momento de arte de rua, mais precisamente momentos de mimos músicos com alguns momentos de humor, não visível na foto, mas que ia acontecendo.

 

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E no próximo fim-de-semana e seguintes dias também daremos as nossas habituais voltinhas pela feira, das quais, pela certa, sairão alguns registos de outros tantos momentos da Feira dos Santos de 2017. Até lá, ou quem sabe se ainda teremos um post extra.

 

 

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