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CHAVES

Olhares sobre o "Reino Maravilhoso"

29
Nov17

Nós, os homens

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X

 

As melhoras da morte, traiçoeira, já todos ouvimos falar!

Era uma no cravo e outra na ferradura! A menina continuou no mesmo registo e eu continuei a aguentar aquilo até ao dia em que me passei completamente da cabeça! Era previsível, aquilo era uma bomba-relógio desde o início, um aneurisma, podia rebentar a qualquer momento e quando rebentasse era fatal.

Um homem não é de pau! Fartei-me de ser o segundo plano, o brinquedo nas mãos da menina, o boneco, a marioneta, o palhaço de serviço.

Disse-lho, em bom português, para que não houvesse dúvidas! E a menina reagiu da pior maneira: não reagindo, dizendo que o silêncio era uma resposta!

 

Como?! Eu não tinha nada contra a senhora sua mãe, que ela nunca me tinha apresentado porque isso fazia parte da sua intimidade a que eu nunca tive direito a ter acesso, e por isso não a pude mandar para a dita que a pariu. Também não a pude mandar pecar, não fosse ela, geniosa como era, pôr-me logo nessa noite o par dos tais que fazem comichão na testa de qualquer homem!

A única palavra que me saiu a seco, pois que tinha engolido toda a minha saliva, foi: Não!

Pouco mais do que isso acrescentou. Dejá vue, a cena repetiu-se. Reagiu como se eu a tivesse ofendido, exactamente como da outra vez e o motivo era o mesmo. Eu pedia-lhe mais tempo para estar com ela e ela entendia aquilo como se eu a estivesse a insultar. Mas que cena era esta?

Burro como sou, ou não tão inteligente como ela, só percebi à segunda: arrogância, pura e simples!

 

A menina achava-se perfeita e não aceitava que ninguém fizesse o menor reparo ao seu comportamento pois que ela era intocável. Pior do que isso, eu tê-lo feito levantando ligeiramente a voz foi considerado pelo seu ego como uma afronta. Quem é que eu pensava que era? Não se atreveu a perguntar, mas lia-se perfeitamente nos seus olhos. A reacção foi tão desajustada, tão desproporcionada, que rondou os contornos do ridículo! Não fosse eu o visado e tinha-me rido à gargalhada!

Quando percebi, depois de várias tentativas falhadas, que o seu orgulho ferido nunca iria perceber o que eu lhe tentei dizer, decidi pedir-lhe desculpa. Fi-lo várias vezes e ela nunca me respondeu.

Como o silêncio para mim não é uma resposta, obriguei-a, ou implorei-lhe não sei muito bem, a dizer-me: acabou, para que eu finalmente percebesse como é que era o meu dia seguinte, porque nem esse respeito eu lhe mereci, de ela o dizer voluntariamente!

Se não fosse assim, parvo como sou, ainda hoje estava à espera que o telefone tocasse!

 

Nesta fase da vida em que me encontro, já posso afirmar que consigo perdoar tudo, umas coisas são mais fáceis do que outras. A crueldade, coloco-a na lista das mais difíceis.

Mas foi pena, eu gostava da garota que me fartava e tratava-a assim por graça porque embora ela fosse mais nova do que eu, tinha mais dezassete anos do que eu!

Mas isto, nós, os homens, nunca havemos de perceber, porque tem a ver com uma sensibilidade que só nós, as mulheres, é que temos! E daí, talvez não, porque nestas coisas da alma, nós, as mulheres, enganamo-nos tanto ou mais do que nós, os homens!

 

 Cristina Pizarro

28
Nov17

Chaves D'Aurora

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83.PRETENDIDO.

 

Eis que, então, a uma festa familiar, Nonô conheceu um dos melhores pretendentes ao altar em Chaves, o jovem António Sidónio Cordeiro Filho, rebento de uma das mais proeminentes famílias flavienses, pois seu pai, apesar de rústica postura e aparência de um pobre aldeão, era dono de uma instituição de ensino local. Era um atraente rapagão que, embora um pouco flácido, tinha um belo porte. Seu rosto era emoldurado por belas suíças, ornado por bem aparadas sobrancelhas, apurado com densos e bem cuidados bigodes e uma cativante mosca, abaixo dos lábios, queixo liso, sem pera.

 

Seu pai e dona Joaquina, sua mãe, eram compadres e amigos da tia Francisquinha que, nessa noite, abria os salões de sua casa à Rua da Pedisqueira, para festejar os 21 anos de seu filho morgado e, portanto, primo de Nonô. Tão logo a viu, o Cordeirinho retesou a sua flecha de lã, em seu arco de conquista, na direção da rapariga. Tão logo viu o rapaz, também o miocárdio de Aldenora acelerou-se com uma forte, aguda e repentina paixoneta.

 

Aurora, ao perceber os arroubos da irmã, sorriu – Ai-jesus, pobre Nonô! Estás a ser flechada pelo anjinho do Amor! – ao que esta contestou, indicando seu alvo com o olhar – Mas não está a parecer-te, também, que alguém mais já está envenenado pelo curare de Cupido?

 

Sidónio, a participar de um desses grupos só de homens que, até há algumas décadas, sempre ficavam à parte, em ocasiões festivas, também ficara, com indisfarçável frequência, a mover seus olhos pelas trilhas do enlevo até aos de Aldenora. A rapariga decidiu, então, aproveitar-se de algum instante oportuno para acercar-se dele. Tal hora chegou, por sorte, quando ela viu Afonso juntar-se ao grupo, atraído que este fora por alguns motejos que, na ocasião, os circunstantes trocavam entre si.

 

Falava-se, no momento, que a Câmara deveria proibir o tráfego das carroças que carregavam estrume pelas ruas da cidade. Eis que, na véspera, certo jovem flaviense, (na verdade, um dos circunstantes, indicado com explícita malícia pelos outros moços, por meio de olhares marotos e de viés) havia-se perfumado todo para ir à casa de sua noiva, com a qual já tinha alguma intimidade, ainda que, certamente, apenas verbal.

 

Ao chegar lá o moço, todo pimpão, a rapariga murmurou, de chofre – Que cheiro! – e ele – Gostas? – A noiva respondeu, cheirando-lhe o pescoço – Do cheiro de cima, sim, mas o de baixo... Por onde andaste? O que fizeste, para estar assim, desse jeito? – E, diante do olhar surpreso do rapaz – Porque estás, afinal, a feder tanto?! – o que deixara o dito cujo bastante constrangido, encarnado como um pimento, até compreender que ela – Mas o que deu em ti? Estou a me referir aos teus sapatos, ora pois! Não vês que hão de estar assim, tão borradinhos, sujinhos de bosta de vaca?!

 

Os circunstantes riram com bastante gosto, inclusive o protagonista, a tentar negar, de todo modo, que o facto ocorrera com ele próprio.

 

 

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24
Nov17

Discursos Sobre a Cidade - Por Gil Santos

GIL

 

Pior a emenda que o soneto

 

No Planalto do Brunheiro, monte sobranceiro à veiga de Chaves, nada medra que não seja centeio e batata. Terra verdadeiramente fria, é varrida pelos ventos gelados que se entalam entre o Larouco e a Padrela. Mesmo o pinheiro bravo tem dificuldade em crescer naquelas terras onde Deus parece nunca ter passado. De arvoredo, só o carvalho negral e o castanheiro encontram guarida, emprestando um verde triste à paisagem.

 

Pelos Santos semeava-se o centeio que havia de se ceifar no estio. Por março, a batata que se arrancava em setembro. A atividade agrícola resumia-se quase exclusivamente a isto, não sei se por falta absoluta de condições para outras riquezas se por inflexibilidade cultural para outras oportunidades. Sei é que quase toda a vida se organizava em função do ritmo destes parcos haveres. Um tempo confrangedor mais próximo da Idade Média do que do Porto!

 

À volta do Carregal, na pujança da primavera, a paisagem desenhava-se no verde viçoso das searas centeias e na cor térrea do solo lavrado, onde irrompiam as primeiras folhitas das canibeques. Mesmo a passarada, por estas paragens, adiava quanto podia o impulso da procriação, aguardando que os carvalhos se vestissem da folhagem necessária para rebuçar os ninhos, o que só acontecia por finais de abril. Andar aos ninhos, por esse tempo, ou aos níscaros por outubro, eram os passatempos preferidos da rapaziada.

 

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A ganapada, que frequentava a escola de Adães, a cerca de três quilómetros que se venciam a pé, no regresso das lições do Mestre Matos, não perdia a oportunidade de procurar uns ninhos de gaio, de melro ou de rola. O Nano, o Gripino, o Taleta, o Marcelino, o Adérito, o Tone Fisgas e eu próprio, competíamos na busca daquelas preciosidades, guardando o segredo o mais que podíamos.

 

Em Adães morava o Ti Temporão, padrinho do Tone. Este visitava-o uma única vez no ano, nas vésperas do seu aniversário. Fazia-o porque sabia que, invariavelmente, lhe cairia uma moedita de cinco paus. Não falhava! Neste ano, vá-se lá saber porquê, em vez dos cinco marréis da praxe, choveram sete e quinhentos. Uma fortuna para o tempo. Porém, o Zé Paranhos, pai do Tone, sabendo da franqueza do compadre, extorquia o metal ao miúdo para torrar em vinho na taberna do Antero.

 

Naquela ocasião, no regresso da escola e na confusão da brincadeira, o Tone nunca mais se lembrou do tesouro que transportava na algibeira. Pelo caminho, passando no Belão, havia uma enorme leira de centeio do Ti Moreiras. Numa borda da seara, um enorme castanheiro dava guarida, todos os anos, a um casal de gaios que aí plantava um repimpado ninho. Quase sempre os gaios desaninhavam sem que a rapaziada lhes chegasse. Isso andava a fazer uma confusão danada ao brio passareiro dos mais afoitos.

 

Ora, nessa manhã, o Nano afirmou a pés juntos que vira o gaio com o cibo no bico a ir para o castanheiro. Por isso determinou que tinham de topar o ninho!

 

O castanheiro era frondoso, imenso, e para encontrar o dito cujo, foi preciso pisar todo o centeio à sua volta. Foi até necessário que alguns se rebolassem pelo chão para verem melhor por entre a folhagem densa. Deu-se com o ninho, mas o pior foi o que aconteceu depois

 

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O centeio, à volta do castanheiro, ficou assobalhado de forma irrecuperável e os sete e quinhentos sumiram do bolso do Tone. Procurámos, voltámos a procurar, e das moedas de caravela nem o rasto!

 

A solução foi cortar o centeio para ver se apareciam. Ceifou-se, mas nada!

 

Em frente da leira morava a Tia Maria Simoa que, fazendo jus ao seu estatuto de cusca, apreciou toda a obra.

 

Quando o Ti Moreiras deu com o estrago e se pôs em campo, logo a Tia Maria lhe segredou o nome dos autores. O Ti Moreiras foi ter com o pai do Tone Fisgas e, confrontando-o com a realidade exigiu o pagamento dos estragos. Foi acordada a importância de quinze escudos e com desconto, uma vez que o neto do Ti Moreiras também estava envolvido!

 

Coitado do Zé Paranhos! Nesse ano não só perdeu o direito ao presente de aniversário do rebento, como ainda teve de desembolsar o que não tinha para pagar as traquinices do pimpolho!

 

Em vez de matar a sede na tasca do Antero afagou-a num estadulho da acarreta que estendeu pelo lombo do Tone.

 

Claro que não lhe daria o mesmo gozo do tintol da tasca do Antero! ao Tone muito menos, pois passou uma semana de molho!

 

Coisas da vida!

Gil Santos

 

 

23
Nov17

Flavienses por outras terras

Banner Flavienses por outras terras

 

Sofia Trino

 

Nesta crónica do espaço “Flavienses por outras terras” vamos até à Suíça, mais concretamente até ao Cantão de Turgóvia, onde a língua oficial é o Alemão. Na capital deste cantão – Frauenfeld – vamos encontrar a Sofia Trino.

 

Cabe+ºalho Sofia Trino.png

 

Onde nasceu, concretamente?

Nasci em Chaves, na Rua dos Passadouros, no Bairro de Santa Cruz.

 

Nos tempos de estudante, em Chaves, que escolas frequentou?

Frequentei a Escola Primária de Santa Cruz, a Escola Nadir Afonso, a Escola Técnica e a Escola Secundária Fernão de Magalhães.

 

Em que ano e por que motivo saiu de Chaves?

Saí em 1994, à procura de novas oportunidades e visto que os meus pais nessa altura já se encontravam a viver no estrangeiro.

 

Em que locais já viveu ou trabalhou?

Vivi sempre em Chaves, mais propriamente em Santa Cruz, até à minha partida para a Suíça.

 

Diga-nos duas recordações dos tempos passados em Chaves:

Os melhores anos passados foram na minha idade escolar e ainda hoje mantenho amigos desse tempo, amizades que ficaram para uma vida. Recordo as idas às Caldas de Chaves, a Feira dos Santos, da qual ainda hoje sinto saudades visto que me é impossível nessa data ter férias para ir a Chaves.

 

Proponha duas sugestões para um turista de visita a Chaves:

Visitar as Termas de Chaves, as paisagens lindas das nossas terras transmontanas, a zona histórica de Chaves, Vidago, e claro, apreciar a boa comida transmontana.

 

Estando longe de Chaves, do que é que sente mais saudades?

Sinto saudades de alguns amigos e familiares que foram partindo, das conversas que se tinham no antigo Jardim das Freiras, que infelizmente já não existe… eram momentos bem passados com as colegas de escola…

 

Com que frequência regressa a Chaves?

Sempre que posso, mas pelo menos uma vez no ano.

 

O que gostaria de encontrar de diferente na cidade?

De diferente nada, mas que mantivessem os belos jardins que nós tínhamos, como o Jardim das Freiras.

 

Gostaria de voltar para Chaves para viver?

Neste momento, não. Sinto-me feliz no meu país de acolhimento, pois aqui formei a minha família e me tornei na pessoa que hoje sou. Embora goste muito da cidade que me viu nascer, como eu costumo dizer não troco a minha Suíça pelo meu Portugal, isso sem sombra de dúvidas….

 

 

O espaço “Flavienses por outras terras” é feito por todos aqueles que um dia deixaram a sua cidade para prosseguir vida noutras terras, mas que não esqueceram as suas raízes.

 

Se está interessado em apresentar o seu testemunho ou contar a sua história envie um e-mail para flavienses@outlook.pt e será contactado.

 

 

Rostos at├® Sofia Trino.png

 

 

 

22
Nov17

Nós, os homens

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IX

 

E a história é, mais ou menos, esta; embora a história não seja, realmente, esta! Isto para dizer que deliciosamente me enganei e que afinal as coisas, estatisticamente com probabilidade reduzida de acontecerem, acontecem. Isto das ciências exactas sempre fez para mim todo o sentido. Embora sempre tivesse vivido rodeado de pessoas de letras que afirmavam convictas que a matemática que aprendemos na escola não servia para nada, eu sempre achei que ela era o princípio de tudo e questionava-me, nos dias de chuva, como é que havia cursos superiores e se tiravam inclusivamente licenciaturas sem que a disciplina básica e fundamental constasse dos respectivos currículos académicos! Mas nessa altura eu já tinha percebido que o mundo não era perfeito e que se Deus tinha feito as coisas à sua imagem e semelhança, o exemplo escolhido não tinha sido dos melhores, o que só reforçava, mais uma vez, a minha ideia de que nada era perfeito. A não ser ela! Pois está visto que quando se ama, as coisas são perfeitas e a prova disto era, inexoravelmente, a matemática. Pois não é evidente, os números pares, divisíveis com resto zero, o mínimo múltiplo comum, a prova dos nove, o simples menos por menos dá mais! Até a linguagem que eu usava a tinha ido beber não à disciplina de Língua Portuguesa, mas à da ciência exacta, pois que utilizava com um sabor peculiar palavras como: integral, exponencial, radical, infinito, equacionar, solução, resultado, eixo de simetria, conjunto, incógnita, potência, e não me chocaria mesmo nada se alguém me descrevesse a paixão entre duas pessoas como correspondência biunívoca!

 

Surpresa das surpresas! Então não é que ela gostava mesmo de mim! Vi-o finalmente escrito nos seus olhos, quando me olhou em silêncio e me percorreu o corpo com a ponta dos dedos e se ria como uma criança com cócegas, só porque eu lhe tocava de leve, como o vento sopra nas manhãs de primavera e foi então que eu me senti, não ridículo, mas parvo por não ter percebido aquilo desde o inicio! Enquanto eu debitava parágrafos inteiros, ladainhas a dar com um pau, contava a história dos reis e das rainhas, enumerava os sinónimos todos do dicionário, acrescentava letras a palavras e palavras a frases, resumia o último livro de prosa que tinha lido, lhe declamava de cor os poemas de amor que tinha memorizado sem querer, absorto pelo sentido das palavras, lhe descrevia ao pormenor o filme que tinha visto na véspera e a peça de teatro que tinha escrito para ela, ela sorria para mim e dava-me um beijo! E eu feito palhaço ainda perguntava estás-te a rir de mim? e ela continuava a sorrir e dizia estou-me a rir para ti!

 

E foi só depois de algum tempo que eu comecei a perceber que embora eu tivesse sido feito à imagem e semelhança de Deus, com todos os defeitos que Ele tinha, no caso dela o modelo em que Ele se tinha inspirado era outro, ou então aquilo tinha-lhe saído completamente ao lado ou, na melhor das hipóteses, ela era filha do padeiro, do vizinho ou do carteiro!

 

E foi bonito, no dia em que ela me lançou como um projéctil para fora do sistema solar e eu percebi que a trajectória da Terra era a mais patética de todas as dos planetas que viajavam em satelitismo solar. E foi no momento em que perdi a consciência, ao atravessar a atmosfera e me senti quase um lunático e posso dizer por hipérbole matemática e não como recurso expressivo de português que os dois hemisférios do meu cérebro colidiram ou mudaram definitivamente de posição, como imagem num espelho plano, ou a similitude dos gémeos mais que a semelhança que só a mãe distingue, também eu sabia que depois daquele reboliço dentro do meu crânio provocado pela diferença da pressão atmosférica e da outra, as coisas nunca mais regressariam ao lugar onde antes tinham estado! E era como se os meus neurónios, ou o que restava deles, estivessem em maresia e eu queria manter aquele estado de coisas por teimosia, tentando evitar a agonia que o meu corpo em desequilíbrio sentia. Nessa altura o eixo de simetria também já se tinha dobrado, todo eu era um acrobata, um contorcionista. Os 206 ossos continuavam lá dentro, mas já não formavam aquilo a que se chama esqueleto!

E eu completamente à toa, não sabia se queria ficar ou partir, fugir ou esconder-me, desaparecer ou definitivamente ser! Fosse como fosse, no mesmo instante, as palavras tinham deixado de me fazer sentido, não me diziam nada, não me levavam a parte alguma e eu queria ir a algum lado, eu tinha uma necessidade premente de ir a qualquer lado e não era nem com palavras, nem por elas, nem para elas, nem através delas.

Foi nesse sublime momento que a olhei da forma mais profunda que me lembro de alguma vez a ter olhado, fixamente, olhos nos olhos e definitivamente lhe perguntei:

- 2+2?

E ela disse:

- 4!

E foi aqui que o milagre se repetiu, mas ao contrário, o vinho transformou-se em água. Pura, transparente, cristalina! Percebi então que mais importante do que a língua que falamos é falarmos a mesma. E não interessa se dizemos muito ou pouco, basta dizermos o bastante, é suficiente. E também não faz sentido andar a medir sentimentos que sentimos com escalas e unidades diferentes, comparando coisas incomparáveis porque é tanto o erro de comparação como o de medição.

A única coisa que faz sentido é ser, querer, estar, fazer, sentir, ver, amar, sorrir e outros verbos que naturalmente nos correm nas veias sem pensar muito.

 

Aprendi com ela que tudo é muito mais simples do que parece, que tudo parece muito mais irreal do que é e que tudo é antes de ser, porque antes de se ter consciência, as coisas já existem sem nós sabermos e é uma delícia depois abrir os braços para as receber, as acarinhar, as afagar e, finalmente, as partilhar.

Bem-haja.

 

 Cristina Pizarro

 

 

21
Nov17

Chaves D'Aurora

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  1. PRETENSÃO.

 

Sobre os tratos e contratos entre homens e mulheres, era bem diverso o pensar de Aldenora. A terceira dos filhos de Flor e João Reis tinha cabelos castanhos, sedosos, coxas e pernas bem torneadas e seu rosto, tal como o de Aurora, também lembrava as melhores expressões pictóricas da Virgem. Era não só muito formosa, quanto a mais inteligente das irmãs. Em contraste, era possuidora de um temperamento difícil no trato com as criadas e com os mais, inclusive os próprios familiares. Suas rusgas só não eram mais frequentes com os outros, porque ela mesma procurava controlar-se, graças às boas maneiras que havia adquirido e à sólida educação que os pais lhe proveram.

 

Tais predicados, igualmente, Aurora e os irmãos também já o tinham, desde a infância. Uma postura de nobreza e refinamento que, no exagerado dito popular, costumava dizer-se – São coisas que vêm do berço – assim, as meninas de Reis eram dignas de elogios pelas matronas de fina classe, as que integravam a restrita sociedade local, ainda que os Bernardes pouco a frequentassem.

 

O caráter forte, por vezes autoritário de Nonô (sua alcunha de infância), contradizia, no entanto, com outro aspeto de sua personalidade. Era romântica. Talvez isso adviesse de ter lido muitos folhetins, publicados em magazines que a Mamã mandava buscar ao Porto, da mesma forma que as coleções de contos e novelas direcionadas a raparigas de boa família.

 

 Também contribuíam para tal romantismo as obras de alguns autores, portugueses ou não, mas de melhor qualidade literária. Eram livros retirados com ardileza da biblioteca de Papá e lidos às esconsas. Depois Nonô os repassava para Aurita, ensejando a que esta desfrutasse, igualmente, da boa leitura de excelentes textos que se fizeram proibir pelos curas e, consequentemente, pelos pais de família. Dessas obras proscritas, as que mais interessavam às raparigas eram as que falavam de amores complicados, como “Ana Karennina”, de Tolstoi ou a “Madame Bovary”, de Flaubert.

 

 

 

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