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CHAVES

Olhares sobre a cidade de Chaves

Chaves de hoje e de ontem

06.02.18 | Fer.Ribeiro

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Vamos fazer uma breve passagem pela fotografia de hoje, de há um século ou mesmo dois:

 

“ A fotografia originária da cooperação da ciência e de novas necessidades de expressões artísticas, tornou-se logo à nascença objecto de violentos litígios. Saber se a máquina fotográfica era apenas um instrumento técnico, capaz de reproduzir de modo puramente mecânico as aparências ou se era preciso considera-la como um verdadeiro meio de exprimir uma sensação artística individual, infamava os espíritos dos artistas, críticos e fotógrafos. Esta querela, que engendrava artigos e disputas pessoais, tanto se abateu sobre os estúdios quanto veio a inundar os tribunais. De igual modo, a Igreja tomou posição; muito hostil no início, ela inspirava a um jornal alemão de 1839 a seguinte passagem: “Querer fixar reflexos fugidios não só constitui uma impossibilidade, como o demonstraram as seriíssimas experiências feitas na Alemanha, mas o simples facto de querer tal coisa confina com o sacrilégio. Deus criou o homem à Sua imagem e nenhuma máquina humana pode fixar a imagem de Deus; ser-lhe-ia preciso trair de repente os seus próprios princípios eternos para permitir que um francês, em Paris, lançasse para o mundo uma invenção tão diabólica (Cf. Leipziger Anzeiger, 1839.)

 In “Fotografia e Sociedade” de Gisèle Freud, 1989.

 

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Embora a questão da fotografia ainda não esteja bem resolvida, ainda bem que vingou e evolui. Independentemente de ser usada como arte, ou como mero congelamento de um momento, a verdade é que também se tornou num precioso instrumento documental para vários fins, entre os quais o da memória futura, se assim não fosse, hoje não poderíamos estar a comparar os dois momentos congelados nas imagens que vos deixo aqui,  colhidos  a uma distância quase de um século,  e que nos dá também para ficarmos a saber que a noia de destruir jardins em Chaves,  já não é de hoje, é hereditária…

 

Mas como a fotografia também se transformou num negócio e há para aí gentinha que se dedica a sacá-las da NET para reproduzir e vender, a foto antiga que vos deixo leva uma leve marca de água e é publicada com pouca definição, que embora não a torne impeditiva de ser reproduzida, mas pelos ficará sem qualidade e dará algum trabalho a retirar a marca de água. Não é por mim, mas por quem mas cede com boas intenções para publicação e não para negócio.

 

Chaves D'Aurora

06.02.18 | Fer.Ribeiro

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  1. CHEGAS DE BOIS.

 

Alfredo adorava, sobretudo, passear pelas freguesias a cavalo e assistir às festas, jogos e costumes de cada aldeia, como as “chegas de bois”, a que o adolescente costumava assistir, algumas vezes, em companhia de José, um rapaz da mesma idade, irmão de Manuel, o cocheiro. As “chegas” são, até hoje, com seus atletas bovinos, um verdadeiro desporto para os jovens das aldeias trasmontanas. Eles são capazes de percorrer longas distâncias a pé, só para verem uma chega. Consiste na luta entre dois taurinos de terras diferentes, raramente da mesma região. Em geral, são do tipo “boi do povo”, sem dono particular, adquirido pela aldeia ou doado por algum fazendeiro para o usufruto da comunidade. É escolhido aquele que melhor ofereça qualidades especiais para ser treinado e se tornar um bom lutador. À época de Alfredo, alguns treinadores chegavam a praticar pequenos furtos de milho ou de centeio nas vizinhanças, ou até mesmo tirar, de seu próprio sustento ou de sua família, o necessário para bem alimentar o seu gladiador taurino, que precisava, afinal de contas, estar bem nutrido e forte para a próxima chega.

 

Muitas vezes a contenda é marcada por mera rivalidade entre pessoas ou aldeias, no desafio de que “o meu (ou o nosso) boi é mais isso, mais aquilo”. Em geral, todavia, aqueles que têm um touro no qual se veem grandes possibilidades de vitória, contratam com outra aldeia uma data e local apropriado e se encarregam de pedir ao regedor de cada freguesia a ordem de liberação oficial. Com esta, sem esta, ou antes desta, faz-se a chega em um povoado neutro, ou seja, mais ou menos equidistante das aldeias em beligerância. Ocorre em geral a um domingo ou dia santo e todos os aldeães acompanham o boi que representa sua aldeia. Partem com paus feitos de galhos descascados, como se fossem bastões, a fazerem promessas ao Altíssimo e a todos os santos para que o seu boi seja vitorioso.

 

Antes de marrar, cada animal é encerrado oito dias em seu curral para, no dia da chega, mostrar-se o mais bravio possível. Àqueles tempos, para ficarem bem contundentes, os chifres eram afiados com navalhas e cacos de vidro não limados. No dia aprazado, chicoteavam o animal ou lhe davam cerveja e vinho, para ficar mais enraivecido. Alguns tratadores chegavam a colocar pontas de aço nas extremidades dos cornos. Como, àquela altura, o importante era tentar de tudo que estivesse ao alcance, a fim de que um dos turrões pusesse em fuga o adversário, que é o princípio básico da chega, outros chegavam a colocar a pele de uma vitela ensanguentada no lombo do boi, para que o cheiro causasse temor ao inimigo.

 

Toca o sino na igreja da aldeia marcada para a chega e todos levam seus bois para o local já pré-escolhido entre as partes. As pessoas fazem um círculo natural, a fim de deixar bem livre a área descampada onde, ao centro, as turras vão começar. Soltam-se, portanto, os turrões nesse coliseu, já devidamente postos em fúria para marrar o adversário. Os gladiadores bovídeos pegam-se de frente, com violência, cada um procurando rasgar e ferir o outro, enquanto os circunstantes incitam o seu favorito ao ataque. Os torcedores de cada lado insultam-se mutuamente e fazem apostas.

 

Não mais do que alguns minutos depois, após se medirem bem as forças, um dos bois vai recuando até ao lugar por onde entrou no círculo e foge. Os partidários do boi vitorioso atiram paus, chapéus, lenços e xailes ao alto, dão vivas ao vencedor e enfeitam o campeão com fitas, ramos e flores. Assim adornado, ele vai desfilar em sua aldeia, onde haverá bailes com muito vinho, queijo e presunto para todos. Quer dizer, menos para o ruminante, um vegetariano convicto, que fará jus apenas a uma generosa ração especial.

 

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94 . CHEGA DE HUMANOS.

 

Alfredo sempre fora muito amigo de animais. Jamais gostara de usar as fisgas para caçar passarinhos e vivia sempre a brincar com a Patusca e com o Mocho, o gatinho de Arminda. Por isso, na primeira vez em que foi a uma chega, ficou o tempo todo a pensar no quanto os taurinos podiam se magoar. Só suspirou aliviado quando, afinal, viu os atacantes saírem da luta apenas com alguns ferimentos, mais ou menos leves. Consolou-se mais ainda quando o irmão de Manuel lhe asseverou que, realmente, nas chegas, é raridade a morte de um boi.

 

Por ocasião de uma feira em Montalegre, quem estava a se divertir com uma “chega de bois” era o rapaz da casa em frente à Quinta Grão Pará. Alfredinho já o vira de longe, certa vez, a jogar o Malhão, na festa da padroeira de Sant’Aninha de Monforte. Dessa vez, Hernando acercou-se do puto com um ar simpático, a jeito de estabelecer com ele um princípio de camaradagem. Perguntou-lhe se estava a gostar do que via e qual era sua opinião sobre a chega. Alfredo falou rápido e de modo cortês das suas reais considerações, pediu licença e se afastou com o Zé.

 

O Camachito não se conformou com essa atitude e o seguiu. – Ô pá, porque me odeias tanto assim, se não te fiz nenhum mal? – e como o outro ficasse calado, arriscou – Sabes muito bem que tua irmã é uma bela e boa menina. Pois saibas, também, que estou a gostar muito dela. Cá me vai algum mal, nesse gosto? Se for pelo facto de eu ser cigano... – Alfredo encarou-o com firmeza e respondeu – Pois saibas, também, que eu tenho alguns amigos como tu na Galiza e os prezo muito. Estou a julgar, outrossim, que não há mal nenhum em gostares da minha irmã.

 

Essas palavras fizeram o gitano sorrir, mas isso logo se desfez quando o rapazola concluiu – O que havia de ser um mal, e de muito mau gosto, é se ela gostasse de ti! – ao que, então, pôs-se a galope de volta a Chaves no Azeviche, em parelha com o cavalo do Zé. Não sem antes ouvir os vaticínios de Hernando – Não adianta lutar contra o Destino! Ela ainda há de ser minha! Está escrito nas linhas de nossas mãos, nas cartas do baralho, nas estrelas desse enorme céu. Alfredo preferiu jamais falar sobre isso à irmã. E a nenhuns.

 

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