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CHAVES

Olhares sobre a cidade de Chaves

O Entroido da Eurocidade Chaves-Verín

13.02.18 | Fer.Ribeiro

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Como hoje é dia de Carnaval, ninguém leva a mal – diz o povo – e se o povo o diz, então é porque é mesmo assim. É  uma espécie de dia 1 de abril, dia das mentiras, só que aqui, no carnaval,  é a verdade que se disfarça com a mentira, quer com máscaras, quer vestindo-se a verdade de careto, de matrafona, de peliqueiro ou cigarón, estes últimos os mais próximos de nós, pois são da nossa Eurocidade Chaves-Verín. Assim sendo, as imagens de hoje são dos nossos cigarróns de Verín, e entendam esta última frase também como uma frase carnavalesca, ou seja, uma verdade também ela vestida com uma mentira.

 

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Em tempos achei piada a uma frase que tentava explicar o que era a Eurocidade Chaves-Verín em que dizia “aqui somos todos galegos que vivem na mesma cidade mas em dois bairros, uns vivem no bairro do Norte e outros no bairro do Sul.”. Eu próprio acho que adotei algumas vezes, isso aconteceu quando achei também piada à ideia de Verín e Chaves serem uma só cidade, com um mesmo povo que culturalmente somos, e que cheguei a acreditar que essa cidade seria possível, tanto mais que até os senhores da Europa, que são assim uma espécie de senhores de Lisboa mas à escala europeia, numa das suas páginas oficiais da WEB diziam o seguinte: “O projeto Eurocidades procurou encontrar formas de promover os serviços e as políticas comuns em áreas como a cultura, turismo, comércio, educação, investigação e política social. Este projeto pretendeu fomentar uma colaboração territorial mais profunda e edificar uma coesão social entre as duas comunidades, ao mesmo tempo que procurou melhorar a qualidade de vida em geral das pessoas.” (in: http://ec.europa.eu/regional_policy/pt/projects/spain/eurocity-bringing-cultures-together-to-forge-lasting-bonds )

Palavras encantadoras “ políticas comuns em áreas como a cultura, turismo, comércio, educação…” . Fiquei convencido, mas tudo isto foi antes de cair em mim.

 

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Com o tempo essa dos “galegos do Norte e dos galegos do Sul” fez-me lembrar aquela anedota que pretendia demonstrar a xenofobia e racismo do apartheid  na África do Sul,  quando a professora branca que entrou pela primeira vez numa turma mista, disse: aqui não há brancos nem pretos, somos todos azuis. Uma vez que assim é, o azuis-claros sentam-se à frente e os azuis-escuros sentam-se atrás.

Pois por aqui também é tudo galego, mas cada um no seu cantinho e cada um brinca com os seus brinquedos, festas, culturas, educações, etc.  incluindo no Carnaval.

Vejamos por exemplo uma sondagem que está na página da Eurocidade Chaves-Verín:

 

sondagem.JPG

 

 

Não seria mais correto o texto dizer assim:

 

Concorda com um único hospital na Eurocidade Chaves-Verín com todas as valências médicas e especialidades?

Com apenas duas respostas: sim ou não

 

Mas para evitar guerrilhices até deveria ser assim:

Concorda com um único hospital na Eurocidade Chaves-Verín a construir na antiga fronteira, com todas as valências médicas e especialidades?

 

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Os mais atentos dirão que não, que as coisas não são assim, que até já existe um cartão de eurocidadão para mostrar aos amigos, e uma agenda cultural comum onde cada um (galegos do Norte e galegos do Sul) deixam as suas atividades individuais (que não são comuns porque não existem).

 

Tudo isto porque, ao contrário de Verín,  Chaves não tem tradição de festejar o Carnaval, e quando apareceu essa coisa da Eurocidade Chaves-Verín, cheguei a sonhar que seria possível fazer qualquer coisa em conjunto, onde Chaves também passasse a ter alguma da festa do Entroido de Verín.

 

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Eurocidade Chaves- Verín que agora também já se autointitula “Eurocidade da Água”. Para esta e para quem conhece o nosso Rio Tâmega entre Chaves e Verín,  deixo aqui um texto que há dias se cruzou comigo na internet, num grupo do Facebook “Tâmega Internacional – Natureza e Mundo Rural”  de autoria de Marco António Fachada:

 

"Durante anos sonhamos: com uma área protegida, com bosques ribeirinhos onde pudéssemos ensinar como se sabe, pelas árvores e líquenes, onde está o Norte, com moinhos reconstruídos e transformados em centro de interpretação da natureza, com o silêncio do canto das aves e o ruído das águas a bater nas pedras.


Um espaço onde pudéssemos mostrar que uma árvore morta é ainda uma fonte para a vida.


Vieram estudantes e turistas, nacionais e estrangeiros. Fomos à televisão e a congressos, cá dentro e lá fora.

Acreditámos.


Houve uma petição, assinada por (quase) todos nós. O tempo foi passando, desacreditando.


Hoje os caminhos onde víamos o sardão ou a cobra-de-escada a aquecer no cascalho, são estradas movimentadas em alcatrão.


Vieram outros, puseram novos observatórios e sinalética, mas a vegetação continua a ser destruída, a extração de areias voltou, à luz do dia, encoberta pela neblina, à luz do sol depois do nevoeiro levantar...


Parece que resta um sofá...largado, à beira da tal estrada de alcatrão, de frente para uma lagoa, sem árvores, sem aves...


Chamam-lhe desenvolvimento, eu acho que é apenas desilusão. 


Eu assumo a minha."

 

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E eu a minha!

 

 

Claro que tudo isto vem porque hoje é Carnaval e ninguém leva a mal… E com esta me bou!

 

Desculpem lá, mas gosto mais da versão barrosã de “me bou” do que da flaviense “bou-me”. Continua a ser Carnaval…. ou Entroido na Eurocidade.

 

 

 

Chaves D'Aurora

13.02.18 | Fer.Ribeiro

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  1. NAMORO POSTAL.

 

Maior prova de amor entre Sidónio e Aldenora seriam as cartas que se enviaram um ao outro, pela primeira vez e foram recebidas, quase ao mesmo tempo, pelos respetivos destinatários. Ela, a pedir perdão pelas grosserias, em si deselegantes, tão indignas de uma rapariga de bom-tom e, a se valer do ensejo, repetir o quanto amava o nobre rapaz. Ele, a dizer-lhe que a amava demais e, a se valer do ensejo, reiterar que não queria perdê-la, por nada neste mundo, nem em qualquer outro que, porventura, existisse além da vida, além do tempo, além do Universo.

 

Veio a se estabelecer, então, uma “via romana” postal entre Aquae Flaviae e Bracara Augusta, pela qual iam e vinham versinhos, citações e juras de amor eterno, em longas e esmeradas missivas, com as mais bem desenhadas caligrafias. As cartas preferidas eram aquelas em que ele, próximo aos feriados, anunciava que viria a Chaves para rever os familiares e a noiva, esta com quem tanto ansiava constituir, o mais breve possível, a sua nova família.

 

A primeira vez em que Sidónio apareceu de volta ao Raio X, com sua capa e batina, foi um “ai-jesus” geral. De Arminda a Zefa, todos queriam ver o académico de Braga. Até mais do que Nonô, quem se encantava com o uniforme do noivo era o mano Afonso, ávido de ver chegar também o dia de se revestir com uma batina igual. O rapaz não cansava de perguntar ao futuro cunhado sobre a vida universitária bracarense, pois, ao seu modo de ver, esta não deveria ser muito diferente, ou até mesmo aquém, das aventuras juvenis que ele sonhava experimentar em Coimbra.

 

A pedido de Aldenora, os noivos foram ao Estúdio Flavínia para tirar um retrato especial. Ela, com o seu melhor vestido domingueiro. O noivo, ora, pois, de capa e batina.

 

 

  1. ÉCRAN.

 

A um dia invernal de janeiro, mas infernal para as ânsias de Aurora, Hernando reapareceu. Por um feliz acaso, a rapariga estava à janela e ele, chegando a cavalo, estendeu-lhe a mão, envolta na luva cor de morcela e perguntou se, àquela altura, ela estava sozinha. Trocaram então breves palavras, suficientes para que ele dissesse que, à fina força, desejava revê-la. Aurora, contudo, não via onde, nem como, isso haveria de acontecer.

 

Aproveitou-se, porém, de um repentino “cair dos céus”. Alguns dias depois, a adorável Hortênsia, que raramente adoecia, estava agora acometida de uma artrose que lhe causava grandes sofrimentos. Aurélia, sua afilhada e a quem a tia tratara durante a Pneumónica, logo suplicou para se desobrigar da boa ação, por se dizer tomada de pânico, ante a possibilidade de esse mal ser contagioso.

 

Aurora já fizera 21 anos e, portanto, já era emancipada. Lei essa apenas na teoria, porquanto, nas práticas da Grão Pará, isso não era levado a sério por seu pai. A rapariga, no entanto, valeu-se dessa prerrogativa para se oferecer, junto com a Zefa, a representar Lilinha e Mamã numa visita à tia Hortência e, até mesmo, prestar alguns cuidados à boa senhora.

 

Após muito cavaquear e mimar um pouco a tia, esta dormiu e a rapariga, deixando Zefa a tagarelar com a criada da casa, pediu à de Pitões que lhe desse a cobertura estratégica para se encontrar no cinema com uma amiga, menina que conhecera ainda nos tempos da Primeira Comunhão. Zefa custou a concordar – Credo em cruz, Santo Nome de Jesus! Gostava, boamente, de estar sempre a fazer o que a menina me pede, mas isso agora… nem me rogues, Aurita! Cuida que o senhor teu pai… ai, menina, em vez de miolos, parece que tens “aranhas no toitiço”! – mas a criada acabou por dizer sim. Sempre atendia, sorrindo, a tudo que, a choramingar, a rapariga lhe pedisse.

 

“Nas garras do dragão” era o filme de aventuras e mistério, em 12 séries e 24 partes, que estavam a levar no Teatro Salão Maria e que muito agradou a Hernando e Aurita. Em algumas cenas, porém, menos atraentes, Camacho aproveitava para roubar da menina alguns beijos, cada vez mais ousados, ao que a rapariga pedia – Para, Hernandito! Não vamos colocar “a carroça adiante dos bois”! – e era salva, então, pelos sustos que ambos tomavam, quando o sexteto que estava a acompanhar as ações na tela tocava alguns acordes mais agudos e bombásticos.

 

Quando apresentaram o filme “Foot-ball Portugal-Hespanha”, deu isso origem a que os namorados tivessem a primeira briguinha, embora nada grave. É que Aurora sentiu-se um tantinho desconsiderada, durante toda a projeção, uma vez que o amado só tinha olhos para ver o que se passava no écran. Pazes feitas, marcaram outro encontro, dessa vez no Cineteatro Flávia, onde estavam a projetar a película de grande sucesso “Aos Corações do Mundo”, baseada em eventos da Grande Guerra. Prometeu-se mutuamente que, dessa vez, ficariam apenas a assistir o filme. Hernando, porém, acrescentou – Sempre se pode palear baixinho, nas partes menos atraentes... – ao que ela, por uma prudente lembrança de que, a cada mudança de rolo das fitas, acendiam-se as luzes, respondeu com firmeza – Melhor esperar os intervalos.

 

De meados do outono ao começo do inverno daquele mesmo ano, em um cinema ou no outro, enquanto perdurassem as dores de tia Hortênsia ou a rapariga as fizesse perdurar ante os ouvidos de Mamã, Aurita e Hernando viram no écran “Amor de Mãe”, em 7 partes; “Extravagância de milionário”, 5 partes; “Pencudo – Porteiro e Patriota”, cómico, 2 partes; “Matias Sandorf”, adaptação do romance de Jules Verne, em 9 capítulos e 4 partes; “A Herdeira do Rajá”, em 4 episódios e 8 partes e “com a insigne actriz Ruth Roland”; “a esplêndida fita em 6 actos ‘Ferragus, o chefe dos 13’, versão em film do romance de Honoré de Balzac”; e outros mais.

 

Aurora ficava bem triste ao perder a sequência dos filmes longos, que eram exibidos de forma seriada, em dois, três ou até mais dias, como “a grande fita histórica ‘A filha da Condenada’, 16 séries, 32 actos, com 32.000 pessoas em cena”; “O Imperador dos Pobres”, “cine-drama em 18 séries e 36 partes, que reproduz os mais notáveis acontecimentos da vida de Napoleão Bonaparte”; ou “A Bela Desconhecida”, “em 4 jornadas e 16 partes”.

 

Em todas as sessões, a fazer o acompanhamento musical das cenas, ou durante os intervalos, para a mudança de rolo das fitas, estava sempre a animar, com belas peças musicais, o apreciado Sexteto de Chaves. Exibiam-se ao vivo alguns artistas eventuais, em danças ou intermezzos cómicos, como no dia da apresentação de “Os Mistérios de Paris”, extraído do romance de Eugéne Sue, em que “os intervalos foram abrilhantados pela famosa cantora e coupletista espanhola Nita Ibañez”.

 

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