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CHAVES

Olhares sobre a cidade de Chaves

Um dia de Entrudo fora de casa...

14.02.18 | Fer.Ribeiro

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Já há muito que tínhamos decidido que este ano trocávamos o Intróido galego pelo Entrudo português, mais propriamente tínhamo-nos decidido pelo do Nordeste transmontano, com preferências a cair no de Podence. No entanto tínhamos também decidido que com frio ainda lá íamos, mas com chuva ficávamos em casa. A previsão era de chuva e frio e a decisão foi de ficar em casa.

 

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Dia de entrudo, de frio e chuva em casa, é quase o mesmo que dizer mais um dia de sofá. Claro que a gastronomia do dia faz um pouco a diferença, mas após a almoçarada, então é que de certeza estamos condenados ao sofá, e depois, para ser sincero, a ementa do domingo gordo e a do entrudo, foi acontecendo um pouco ao longo das últimas semanas e o do último domingo ainda não estava bem digerido, além do mais, à família apetecia-lhe ir laurear a pevide, e  andar de cuzinho tremido todos gostam, e sem medo a frio ou chuvas, pois o popó também é um pequeno lar com as suas comodidades. Vai dai — Vamos! Pra onde!? — Logo se vê…

 

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A ideia era sair das autoestradas e privilegiar as estradas nacionais e secundárias, de preferência por terras menos conhecidas, não muito longe, nem muito perto, que desse para não levantar muito cedo e regressar a casa ainda de dia. Comer, logo se via, onde desse mais jeito. Ficou decidido ir para terras de Vinhais, entrar um pouco no distrito de Bragança, pois este nunca nos calha nos nosso itinerários obrigatórios além em muitas das suas localidades se festejar o Entrudo com caretos. Partir um pouco à descoberta do interior mais interior, e lá fomos nós com o primeiro destino em Vinhais e aí logo se veria.

 

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Chegados a Vinhais, resolvemos deixar a EN 103 e virar para o interior. Destino Macedo de Cavaleiros e aí logo se veria. E assim foi. Curva e mais curva, sem muita velocidade, pois queríamos apreciar aquilo que ainda não conhecíamos. Céu escuro bem carregado de nuvens a ameaçar chuvada, mas não passava da ameaça, já a temperatura ia variando entre os 4 e 1º, frio de rachar, mas isso era fora do popó, dentro ia-se bem. Mesmo assim não resisti ao que ia vendo e próximo de uma aldeia que dava pelo nome de Edrosso, parei o popó e fiz duas fotos cuja composição tinha aberto o apetite à objetiva.

 

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Mais uns quilómetros e a surpresa do dia – Podence e a Barragem do Azibo aparecia nas placas, ambos lugares desconhecidos para nós, além de Podence ter feito parte dos nosso planos. Já quase na hora do almoço, seriam bons locais para comer qualquer coisa. Decidimo-nos pela barragem do Azibo, passando ao lado de Podence, ao qual deitaríamos uma olhadela após o almoço. Mas na barragem só deu mesmo para umas fotos, bem fias por sinal. Onde comer, não havia. “Bota” pra Podence.

 

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Chegados a Podence, mesmo ao lado da barragem do Azibo, demos com as ruas quase desertas, sem caretos, sem entrudo, mas pelo menos não faltava onde comer, quase porta sim porta não. Perguntámos à GNR de serviço que estava na entrada da aldeia o que era feito dos caretos e do entrudo!? – E  resposta foi pronta, que a noite anterior tinha sido de festa grande, com os “casamentos” e ainda deviam estar a descasar.

 

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Quem já não descasava nessa altura eram as nossas barriguinhas a pedir alimento. Demos uma volta pela aldeia, fomos tirando umas fotos e vendo as ementas nos restaurantes improvisados. Ementa repetida em quase todos eles, e a preços acessíveis. As queixas do frio agravado por algum vento que se fazia sentir convidou-nos a entrar num desses restaurantes improvisados, ainda quase vazio, mas que aos poucos se foi compondo e enchendo. Comemos bem, obrigado! E aquecemos um pouco.

 

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Findo o comer, de novo as ruas de Podence, ainda sem grande movimento, mas notava-se que havia gente a chegar. Caretos, nem vê-los. Perguntámos de novo por eles e disseram-nos que ainda era cedo que deveriam estar a comer…  o frio continuava mas algumas fogueiras estrategicamente colocadas nos largos iam aquecendo um pouco, embora o vento fizesse com que o fumo não nos largasse. Por vontade das mulheres podíamos pensar em partir. Que não, teimei eu, sem fotografais dos caretos não abalava. E depois de mais umas voltas pelas ruas, um café e uma ginjinha, uma visita à Casa/Museu do Careto, de ouvir um pouco de música pelo grupo de serviço, de apreciar as curiosas placas que em quase todas para além da rua ou largo tinha um cometário por baixo, sempre do género “aqui existiu, ou teria existido…”  começa-se a ouvir o chocalho de um careto, depois mais outro e depois mais dois ou três.

 

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Embora poucos, já dava para umas fotos, as ruas começaram a encher, o frio continuava a apertar, e a festa iniciava-se espontaneamente onde houvesse caretos e música. Uns dançavam, outros apreciavam, outros não largavam as fogueiras, alguns ainda iam entrando nos restaurantes improvisados enquanto outros iam saindo, fotógrafos por todo o lado, televisões e a festa tinha começado.

 

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Começou para os que ficaram, nós já tínhamos a nossa dose de frio, de fumo, de caretos, de entrudo e de fotos.  Regressámos a casa, desta vez deixámos o romantismo de parte e decidimo-nos pela autoestrada em direção a Mirandela. Autoestrada  que curiosamente separa a aldeia de Podence da Barragem do Azibo.

 

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E num instante estávamos em Chaves de regresso ao lar, doce lar e que depois de um dia que até se tornou gostoso, pelo menos para mim que fiz o gosto ao dedo dos cliques. Isto das autoestradas e vias rápidas têm a desvantagem de passarmos literalmente ao lado das coisas, localidades e paisagens, sem tempo para reparar em pormenores, mas têm a vantagem de serem muito mais rápidas que as estradas nacionais e municipais.  Quanto a Podence, aguçou-nos o apetite para lá voltarmos no próximo ano, mas aí, com tempo para ficar à festa.

 

E estamos de novo de regresso à cidade!

 

 

 

Nós, os homens

14.02.18 | Fer.Ribeiro

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XXI

 

Não seria justo continuar este conto sem agradecer, aqui, ao meu grande e sincero amigo, a quem surripiei a história. Ele sabe que as minhas intenções foram as melhores e por isso não me levou a mal.

Enquanto não fundarmos o MEEH, qualquer um de nós está exposto a coisas destas e isto funciona como um alerta.

Quando ele me contou esta história, a primeira coisa que me veio à cabeça foi que, afinal, aquela sua ideia de fundar o Movimento Europeu de Emancipação do Homem, se calhar, não era assim tão tola!

 

Não posso deixar também de pedir desculpa por, de alguma forma, iludir os leitores, fazendo-os pensar, desde o início, que era comigo que a história se passava.

Se fosse comigo outro galo cantava e não era o de Barcelos! Mas dizemos todos o mesmo, por isso eu até nem estranharia nada se, apesar de há muito tempo ter lido os estatutos, um dia me acontecer o mesmo! Estando vivo, calha a todos!

 

Quando ele me contou aquele jantar com o nosso amigo, em que lhe tinha feito a proposta de fundar o MEEH e ele só não lhe chamou parvo por pouco, o meu grande e sincero amigo ficou sem coragem para contar o resto: que praticamente a parte documental já estava feita. Mas continuou com a mesma ideia, porque é teimoso como um burro, e achava que isto não era propriamente uma coisa que se pudesse mandar por e-mail aos cinco melhores amigos com a garantia de ganharmos o Céu!

 

Mas eu sempre o apoiei naquela sua ideia e se há característica que eu tenha, é a de fazer o que não deve ser feito! Tolo como sou e em desespero de causa, porque sinto a dor dos outros como se fosse minha, mandei mesmo o e-mail aos cinco melhores amigos, sem garantia nenhuma de ganhar o Céu, até porque não fazia disso um projecto de vida.

 

Chamar a isto azar, é pouco. No tempo em que eles os dois se davam bem, eu tinha colocado o endereço electrónico da menina na lista dos cinco mais, a este ponto eu sentia que ela fazia parte dele!, e eis que ela recebe também o texto.

Uma merda os computadores, internet e o diabo a sete! No tempo em que eu andava na caça, nunca me enganei a disparar um tiro. Era o que se chamava cada tiro, cada melro, sempre no alvo certo. Eu estava, a olhos vistos, a perder qualidades.

O que mais me aborreceu foi a minha falta de rigor nos actos, quando eu tinha tanto com as palavras!

 

Claro que tive de lhe pedir desculpa, não a ela que me estava perfeitamente a borrifar para o que pensasse, mas ao meu grande e sincero amigo, pelo que lhe tinha feito a ele. Afinal, toda a confiança que ele tinha depositado em mim, ao contar-me toda esta história, tinha ficado abalada, pois que eu tinha posto a nu o que me tinha sido dito em confissão, e ainda por cima, ao diabo!

Mas, quando eu contei o que tinha acontecido, o meu grande e sincero amigo riu-se tanto e de forma tão efusiva que eu fiquei seriamente na dúvida se ele tinha achado graça ou se lhe estava a dar um ataque! Outro!

Quando parou de se rir, bateu-me com determinação no ombro esquerdo e disse: obrigado pá, acabaste de me fazer um grande favor!

Nós, os homens, temos destas coisas!

 

Cristina Pizarro