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CHAVES

Olhares sobre a cidade de Chaves

Discursos Sobre a Cidade

02.03.18 | Fer.Ribeiro

SOUZA

 

ENTRE O RUÍDO E O SILÊNCIO, A PALAVRA

 

 

"Sobre aquilo de que não se pode falar

 devemos ficar em silêncio"

 

Ludwig Wittgenstein

Tractus Logico-Philosophicus

 

 

Temos tratado nesta rubrica temas essencialmente relacionados com o desenvolvimento local, concelhio e (sub)regional, vistos, fundamentalmente, na vertente ética e política.

 

A nossa conduta tem sido crítica, mas urbana e civilizada, numa sociedade aberta e democrática. E assim continuará a ser.

 

No passado mês de outubro, no que concerne ao concelho de Chaves, em termos de eleições autárquicas, particularmente a nível do Município, houve mudanças de cadeiras. Mudanças essas que, aliás, desde há muito as desejávamos e pelas quais, publicamente, e dentro das nossas possibilidades, demos a cara.

 

Somos militante do partido que atualmente "governa" os destinos do nosso concelho nestes próximos quatro anos. Contudo, antes de sermos militante, somos cidadão e flaviense. E, como cidadão e flaviense, vivendo numa socieade democrática, somos livre para, sempre e sem condicionalismos de qualquer espécie, dizermos o que bem entendermos quanto às decisões e ao rumo que os atuais detentores do poder tomarem para o nosso concelho.

 

Lemos atentamente a entrevista que o Presidente Nuno Vaz Ribeiro deu por ocasião dos 100 dias de governação autárquica, inserta no Boletim Municipal nº 58, do pasado mês de fevereiro. Das suas palavras, apenas aqui desejamos reter as finais que, para nós, são as mais impressivas e que poderão definir a filosofia e a postura deste mandato. Transcrevemo-las, pois:

"A relação de proximidade entre os autarcas e as populações só será possível se houver diálogo. A consolidação de projetos mais relevantes para o concelho só fará sentido se for construída lado a lado com a população, de forma a que a proposta de construção e solução possa ser também sustentada pelos contributos dos próprios. Os flavienses têm que ganhar autoestima. Mais importante do que grandes obras e avultados investimentos é a forma como as pessoas se relacionam com a sua terra.

Chaves é uma cidade histórica, um concelho muito importante, com um grande passado. Temos que valorizar aquilo que somos, o que já fomos e perspetivar o que queremos ser. Para isso, é primordial que os cidadãos percebam que têm uma importancia decisiva. Não apenas no momento da eleição dos autarcas, de quatro em quatro anos, mas no processo de decisão do dia a dia da sua aldeia, vila ou cidade.

Queremos fazer esta gestão próxima dos cidadãos e entendemos que têm todo o direito de se pronunciar sobre estas questões, sobre anteprojetos que dizem respeito a todos, porque é da vida da cidade e do concelho que estamos a falar e todos nós temos a nossa quota-parte de responsabilidade".

 

100 dias, mesmo 120 ou 150 que sejam, é muito pouco para se fazer um balanço ou a avaliação de um mandato. Ainda paira no ar muito ruído de campanha e muito júbilo de vitória, legítimo embora!

 

Por isso, estamos com Erling Kagge quando, na sua obra «Silêncio na era do ruído», faz a apologia do silêncio. Silêncio para mais e melhor ouvir.

 

Mas o silêncio de que falamos não é aquele que, tudo e em toda a ocasião, cala e consente.  O silêncio de que falamos é aquele que agora se preocupa mais em ouvir. Em observar. Em refletir. Um silêncio que traz consigo a obrigação ética do dever de falar.

 

É, assim, e neste sentido, que agora o nosso tempo é o do silêncio. Mesmo que ainda embuído de muito ruído e de promessas pouco consistentes em termos de efetivo cumprimento.

 

É este silêncio que nós, agora, estamos tendo, cultivando, criando. Um silêncio, diríamos, até mais interior. De profunda observação e reflexão de todos os atores e protagonistas da ação política.

 

Olhando mais não tanto para aquilo que dizem ser, mas, fundamentalmente, para aquilo que fazem com o que nos acontece.

 

Valorizando o silêncio, assim entendido, saberemos melhor distinguir a verdadeira ação em contraposição ao ruído.

 

Ou seja, a circunstância da nossa postura de silêncio não consiste em virar as costas ao que nos rodeia; pelo contrário, é procurarmos ver mais claramente, descortinando a que rumo nos levam.

 

Nesta hora e neste tempo, estamos, pois, com Wittgentein quando afirma que "sobre aquilo de que [ainda ]não se pode falar devemos ficar em silêncio".

 

Contudo, tudo faremos, como cidadão e flaviense, para, mesmo em silêncio, estarmos atentos. E, numa atitude de cidadão ativo e crítico em relação à nossa polis, pugnarmos para, aquando da renovação do poder, que ciclicamente acontece, depois não possamos citar as palavras que, há mais de dois mil anos, Séneca, o estoico, proferiu por altura do seu vigéssimo aniversário: "A vida é muito curta e cheia de ansiedades para aqueles que se esquecem do passado, não fazem nada no presente e temem o futuro. Quando se aproximam do fim, estes pobres coitados apercebem-se demasiado tarde de que durante todo esse tempo só estiveram preocupados em não fazer nada".

 

Não basta apenas existir, ser poder: é necessário viver, construir. Todos. Com todos. Sem ruídos.

 

Neste pressuposto, haverá um tempo em que o nosso silêncio falará.

 

Mesmo que seja para, com lisura e urbanidade, proferirmos palavras que "doam".

 

Assim fomos até aqui. Assim sempre seremos!...

António de Souza e Silva