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CHAVES

Olhares sobre a cidade de Chaves

As poldras de Chaves e um Kentucky

07.03.18 | Fer.Ribeiro

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Todos os dias vou ao meu arquivo fotográfico à procura de uma ou mais imagens para publicar. Aquilo que aparentemente deveria ser uma tarefa fácil, isto tendo em conta a quantidade de fotografias que tenho em arquivo, torna-se complicado à hora de fazer a seleção. Esta não que já publiquei uma idêntica, esta não por isto, esta não por aquilo, até que chegamos a uma imagem que nos faz parar nela. Porquê!? Pois, inicialmente não sabemos, mas logo estórias do nosso arquivo de memória dizem-nos qual a razão.

 

Hoje parei nas poldras do rio Tâmega numa imagem, ou melhor, numa série de imagens que registei há dias quando uns putos atravessavam as poldras correr. Parei nessas imagens quando o clique despertou na memória o tempo em que era assim que também eu as atravessava. Acreditem que estive mais de meia hora a relembrar a primeira vez que as atravessei, com 7 ou 8 anos de idade (a distância já não me permite ser exato), mas recordo que foi numa ida para a escola do Stº Amaro.

 

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Embora a minha escola fosse a do Caneiro, esteve em obras durante uma temporada. Durante uns meses transferiram as aulas para a escola do Stº Amaro. Tal como no meu primeiro dia de escola no Caneiro, o meu pai percorreu o caminho a pé comigo desde casa até à escola para me mostrar o melhor trajeto. Quando me deixou lá recomendou-me que que fizesse o regresso pelo mesmo caminho. Pois no primeiro dia de aulas na escola do Stº Amaro, aconteceu o mesmo, lá foi o meu pai comigo, a pé, para mostra-me o novo caminho, ou melhor, o acréscimo, pois até à escola do Caneiro era o mesmo e a partir de aí foi ir até à rotunda do Raio X, depois a Ponte Nova, Rotunda do Brasil e logo a seguir a Escola. A mesma recomendação de no regresso tomar o mesmo caminho. E assim foi, geralmente em grupos de dois ou três outros colegas de escola e também vizinhos. E assim foi sendo até que um belo dia me toucou por companhia, na caminhada de casa até à escola, os gémeos “Caios” que me ensinaram um atalho. Então, ainda antes de chegarmos à escola do Caneiro, virámos para o Bairro do Caneiro, logo após uma taberna que ali existia (do Sr. Bernardino, se a memória não me atraiçoa). Chegados ao largo, virámos em direção ao rigueiro do Caneiro onde na sua margem existia um carreiro que nos levava direitinhos às poldras. Aí atravessámo-las para a margem direita do Tâmega, desaguámos no Tabolado que já era jardim recém inaugurado. Aí os gémeos fizeram uma pausa na caminhada, um deles tirou um maço de Kentucky do bolso, gesto ao qual eu respondi com espanto e medo, e recordo que disse uma coisa do género:  — “ai se a tua mãe sabe!” — Mas a resposta foi ainda mais surpreendente: “ Foi ela que nos os comprou. Compra dos grandes para o meu pai e destes pequeninos para nós”. Na minha inocência acreditei, e já que era com a permissão da mãe deles, a minha também não haveria de se importar muito se eu fumasse também um. E fumei. Foi o meu primeiro cigarro. Recordo que nesse dia cheguei todo “inchado de importância” à escola.  No intervalo apercebi-me de que as cosias não eram bem como eles tinham contado, que afinal eu tinha cometido um “crime” que guardei em segredo até hoje… prontos, sinto-me aliviado! E hoje já não levo umas lostras porque o crime já prescreveu.

 

 

Pois a aventura dos putos a atravessar as poldras levou-me até à minha primeira travessia de muitas, e é mesmo verdade que o atravessar se deve fazer com passo ligeiro sem hesitações.

 

Quanto à estória de irmos sozinhos para a escola, é assim que era naquele tempo, e diga-se que tirando uma ou outra peripécia, as caminhadas para e desde a escola, eram feitas com toda a responsabilidade que nos foi dando algum traquejo e autonomia, hoje raramente possível com o cerco cerrado que os pais fazem aos filhos.

 

 

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Nós, os homens

07.03.18 | Fer.Ribeiro

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XXIV

 

No dia seguinte quando acordei, passava do meio-dia e a cabeça pesava-me como chumbo sobre os ombros. Sabia a razão, tinha uma decisão séria a tomar, posto que o médico a tinha, como uma batata quente, colocado nas minhas mãos.

Mal pensei nela, em décimos de segundo os meus neurónios sensitivos conduziram o estímulo, articularam-se nas sinapses e a informação chegou ao cérebro.

Decisão tomada.

Comi qualquer coisa ligeira e fui ao hospital. O dia estava muito agradável, o Sol brilhava lembrando que, apesar de tudo, continuava a ser a estrela que nos aquecia e nos iluminava!

 

- Francas melhoras!

Pedi ao médico para conversarmos um pouco, num local mais privado e disse-lhe:

- Não diga nada à família sobre o estado de saúde ou falta dela, como quiser, do meu amigo. Eu próprio me encarrego de lho comunicar. Sou um amigo de longa data, íntimo de toda a família e sei exactamente como lhe transmitir o que o senhor doutor me disse ontem.

 

Até hoje, não disse nada. Conheço alguma coisa da natureza humana e não suportaria a ideia de o meu amigo ser tratado como o coitadinho.

Era inevitável que nos convívios sociais, jantares e outras coisas, quando alguém contasse uma anedota e ele não percebesse à primeira, iam pensar: pois, as lesões cerebrais.

Também não disse nada ao próprio, pois que quando nos dão uma coisa como aceite ou verdade absoluta, não há depois forma de a combater. Acabamos por ficar reféns dela e desistir de a contrariar ou de a vencer.

A última coisa que eu queria era que o meu amigo se sentisse uma vítima.

E depois a medicina não era como a matemática, dois mais dois nunca eram quatro.

O que é que o médico sabia do que me tinha dito?

 

“Neste momento não podemos avaliar a extensão das lesões”.

Nem naquele momento nem nunca! Ele não o conhecia antes, não passou a conhecê-lo depois. O seu grau de conhecimento não passava de um episódio. Tinha-o conhecido no serviço de urgência, provavelmente há mais de 24h sem dormir, por causa das prestações da casa, da mota e do barco, das férias no estrangeiro…

Trabalhava como um doido, para dar resposta aos sonhos que tinha projectado, muito acima do seu limite de sobrevivência. Naquela noite tinha, provavelmente, atendido já centenas de pacientes e agora, exausto, em vez de pedir a um colega que o viesse substituir, levava para além do limite humano a capacidade de trabalho, que achava que tinha.

 

“Sequelas irreversíveis”! De irreversível havia a morte e o meu amigo tinha escapado a ela, fosse por milagre ou pelo que raio fosse, nem me parecia nada que tivesse sido por isso. Foi porque era quem era, com uma força interior inabalável, com uma determinação vincada, com uma assertividade invejável e uma personalidade voluntariosa, solícita.

Apostaria que, naqueles 15 minutos de anoxia, a morte lhe tinha aparecido à frente e ele a tinha, literalmente, mandado à merda! E ela foi, como íamos todos, sempre que ele fazia isso connosco. Nem melhor nem pior, tal e qual.

 

É claro que não pude deixar de ser assaltado pela dúvida de se estaria a ser egoísta, por ser o único a ter conhecimento do que tinha acontecido. Mas o que é que, exactamente, tinha acontecido? Alguém sabia?

Dúvida tirada.

 

Nos meses que se seguiram, e porque eu estava atento, apercebi-me de algumas situações pontuais em que poderia identificar uma falha, se assim posso falar, nas atitudes ou no comportamento do meu amigo. Imediatamente as ultrapassava, fazendo-o perceber de que acontecia a toda a gente. E não lhe estava a mentir, acontecia a muitos e com muita frequência, a única diferença é que os outros não tinham um diagnóstico médico. Haveria ele, por ter esse privilégio, de se sentir menos capaz?

Quantas anoxias cerebrais teria o médico tido ao longo da sua vida, enquanto dormia? Ninguém estava lá para ver, para testemunhar e devia ser adepto da frase “eu só vejo quando acreditar”. Ora aí está, tal como eu, quando olhava para o meu amigo não acreditava em nada do que o médico me tinha dito. Ver o quê?

Cristina Pizarro