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CHAVES

Olhares sobre a cidade de Chaves

De regresso à cidade com um regresso às origens.

12.03.18 | Fer.Ribeiro

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É, foi por aqui que fiz os regressos à cidade durante 14 anos. Primeiro pelo passeio da esquerda, deitando um olhar ao jardim das freiras instaladas do palacete, depois, no Jardim Público, passeava os olhos pelo parque infantil, mais à frente os ferreiros sempre a martelar o vermelho vivo do ferro acabado de sair do carvão, bebia um gole de  água no chafariz, espreitava para o andar da rifa na taberna para ver se já tinha saído a bola, atravessava a estrada e finalmente entrava na tortura da escola primária fazendo figas para que não fosse um dos eleitos a levar com a palmatória redonda dos 5 buraquinhos, como se fossem as 5 quinas do ensino primário daqueles tempos. Ainda hoje recordo as 48 reguadas seguidas que levei por não saber quanto era 6x8…  

 

Depois mais espigadote, comecei a fazer os regressos pelo passeio do lado direito, deixava para trás o Antunes das motas e bicicletas, as costureiras do lado, a bicicletada do pessoal de Faiões e Stº Estêvão,  apreciava o movimento na garagem do Sr. Emílio e os VW carochas, fascinava-me com brilho dos cobres do latoeiro, deitava um olhar às BMW da PVT, às vezes com o Sr. Ribeiro, o Sr. Andrade ou o gordinho ao lado, passava pela Guarda Fiscal de queixo levantado e quase em sentido, inspirava o cheiro da gasolina nas bombas Mobil, entrava pela porta da esquina do café piolho e saía e sem parar no interio saía pela porta lateral, depois era o longo balcão do Chaves, as bicicletas do Rui, a sapataria do Casas, a farmácia do Sr. Batista e finalmente a travessia da Ponte Romana, após a qual virei durante dois anos para a direita em direção à Escola Industrial e Comercial de Chaves e depois, mais tarde, passei a seguir sempre em frente em direção ao Liceu, tendo o cuidado de não passar ao pé do gravateiro que diziam ser bufo, às vezes parava na Casa S.João para comprar uma esferográfica, uma folhas, um lápis ou o que fosse, sempre para assentar na folha 49-A, e finalmente o mundo do Jardim das Freiras, quando atrasado com entrada pela porta principal, se o "redes" não estivesse à porta (pois o Sr. Nogueira não se importava) quando com tempo, lá tinha que subir a rampa…

 

Hoje também faço o regresso pelo mesmo caminho, mas já não vou pelos passeios, vou pelo centro, de popó, mas também de pouco me adiantaria faze-lo a pé, pois já não há freiras nem jardim no palacete,  a garagem da VW fechou, já não há motas BMW, nem PVT, nem Guarda Fiscal, nem cobres brilhantes, nem latoeiro, nem bombas Mobil, nem café piolho, nem balcão comprido, nem o velho Chaves, nem bicicletas, nem…à exceção da velha Ponte Romana, não há nada que me faça regressar aos regressos a pedantes…

Quem conta um ponto...

12.03.18 | Fer.Ribeiro

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383 - Pérolas e diamantes: Custa perceber... lá isso custa

 

Portugal é cada vez mais um país de pasmados à beira da televisão plantados. Um estudo recente concluiu que mais de 40% dos portugueses passam o seu tempo livre a ver televisão. Esse é, como todos sabemos, o primeiro passo para o desenvolvimento de várias doenças, tais como a hipertensão, a obesidade, o sedentarismo... e a imbecilidade.

 

Pouco interessa que os mecanismos da democracia representativa estejam em crise, que os extremismos tenham aumentado, que a paz no mundo seja conseguida à base de armas e mais armas, que se continuem a negligenciar as alterações climáticas e que as guerras religiosas sejam o pão nosso de cada dia.

 

Custa perceber que os benefícios da globalização e do crescimento sejam cada vez mais desigualmente distribuídos e que o fosso que separa os ricos dos pobres aumente de forma obscena.

 

Continuamos dependentes de uma economia que necessita de se transformar, passando de uma economia de comércio interno a retalho para uma economia de exportações.

 

Nem sequer possuímos uma estratégia nacional de desenvolvimento. Perdemos até os anéis que possuíamos, como a REN, os aeroportos, a TAP, os CTT e, obviamente, a banca.

 

Apesar das novas gerações serem as mais escolarizadas da nossa história, os jovens não conseguem encontrar emprego e os mais talentosos abandonam mesmo o país. Alguns para sempre.

 

A democracia representativa enfrenta uma crise muito séria de credibilidade, daí o afastamento dos cidadãos da política.

 

Os partidos políticos também se ressentem disso, até porque foram os seus principais criadores e, para nossa desilusão, podem transformar-se nos seus algozes. Por essa razão é que os militantes partidários pouco passam dos 200 mil.

 

Parece não haver maneira de melhorar a relação dos partidos com os cidadãos. O ritmo de vida parlamentar continua tão tradicional como o da Idade Média.

 

E, como se isso fosse pouco, o litoral esmaga por completo o interior. De facto, o melhor continua em Lisboa.

 

Necessitamos urgentemente de uma descentralização política que combata as cacicagens e que incentive a perspetiva da responsabilidade quando se trata de gastar o dinheiro que é de todos nós e que, por artes mágicas, vai direitinho para a conta bancária de uns poucos.

 

Está demonstrado que as estradas e as autoestradas, por si só, não chegam para atrair pessoas para o interior. É incompreensível como um país tão estreito e pequeno seja tão pouco solidário.

 

Não é possível continuarmos com esta percentagem de população a viver no limiar da pobreza e dizer que somos um país inclusivo, solidário e europeu.

 

Isto, apesar de possuirmos centenas de comentaristas/especialistas em saúde, incêndios, proteção civil, economia, finanças, justiça.

 

Precisamos de um Estado forte e de uma política enérgica, tão consensual quanto possível.

 

Portugal necessita de uma profundíssima reforma da floresta, o que pressupõe uma reforma do povoamento, da agricultura e da indústria.

 

Não basta às vítimas da tragédia dos incêndios os sorrisos e os abraços do Presidente da República e do Primeiro-Ministro.

 

A ação política necessita de pragmatismo.

 

Urge também gerir as instituições de forma equilibrada. É necessário, mas ninguém vai por aí.

 

 Todas as reivindicações são sempre de mais efetivos, sejam enfermeiros, pessoal auxiliar, professores, médicos ou polícias. Ora isso, todos o sabemos, não é possível.

 

Até as fronteiras políticas, nos últimos anos, ficaram mais diluídas. A esquerda marxista-leninista orientou-se para o centro e ficou conservadora e a direita entrou em pânico, perdendo o norte e o bom senso.

 

Só numa coisa parecem concordar: a de que o mundo já foi bom.

 

É mais fácil achar que tudo vai correr mal do que pensar que o futuro até pode ser muito interessante.

 

A política, mais do que nunca, deve ser orientada para os resultados e não para a vacuidade das ideologias. 

 

Todos esperamos que os políticos nos consigam libertar desta crise permanente e que não vão destruir mais emprego e roubar-nos o futuro.

 

João Madureira