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CHAVES

Olhares sobre a cidade de Chaves

Nós, os homens

14.03.18 | Fer.Ribeiro

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XXV

 

E o que parecia estar resolvido para o meu amigo, estava agora por resolver para mim!

Como é que a partir desse dia, eu ia encarar a injustiça da vida ou o que ela faz connosco ou o que nós fazemos com ela!

Porque é que as coisas acontecem desta maneira?!

Como é que permitimos que alguém que não tem nada a ver connosco nos lixe completamente a vida ou o que nos resta dela, se por acaso já alguém se atravessou nela primeiro e no-la lixou também?!

 

E começo a pensar naquelas teorias esotéricas, no carma, de que as pessoas atraem para si um padrão que se repete, para nos ensinar qualquer coisa que morremos sem aprender.

Vêm-me então à cabeça uma série de merdas em que nunca acreditei, a que no limite dava o benefício da dúvida quando mas contavam, porque era adepto da frase nem sempre nem nunca.

Mapas astrais e o caralho, perdoem-me a expressão, mas estou fodido como um peru na véspera de Natal, os signos do zodíaco, horóscopos e ascendentes de signos, ler as cartas do Tarot, o oráculo e a puta que o pariu! Será que essas merdas tinham algum sentido?!

 

Comecei a deambular pelas ruas e a ficar com medo de encontrar alguém que me fodesse a vida como tinha acontecido ao meu amigo. Mantinha os olhos fixos no chão e só me lembrava que tudo o que me pudesse acontecer podia ser excessivamente perigoso. Comecei a temer as coisas mais rotineiras e insignificantes e a fazer associações impensáveis. Por exemplo, só de pensar que o meu amigo tinha encontrado a gaja quando ia a sair da garagem onde tinha deixado o carro a fazer a revisão, fazia-me ter pânico das garagens de automóveis e andava a adiar a mudança de óleo mais do que a entrega do IRS nas finanças, pois que neste último caso todo o mal do mundo era uma multa que me imputavam e tudo o que se podia pagar com dinheiro tinha um grau de importância relativo. Agora a sério, foi sem querer, não estava a fazer nenhuma alusão à menina do bar, nesta segunda parte do meu raciocínio!

 

Comecei a ficar o que acho que se chama paranóico. Não saía praticamente de casa, consumia livros como havia gente que consumia droga e saía apenas para comer ou ir ao supermercado abastecer a despensa.

Recusava todos os convites em que entrava alguém que eu não conhecesse e uma vez, quando questionado por um amigo, chegou mesmo a sair-me a frase “não gosto de pessoas”.

É claro que eu estava com uma fobia qualquer, trauma ou sei lá o quê, e tinha de resolver o assunto antes que endoidecesse de forma irreversível! Também tinha fobia a esta palavra e a muitas, muitas outras, como todas as mentiras de que o meu amigo tinha sido alvo.

 

Eu era um gajo de mentalidade aberta e o que mais me tinha chocado na história do meu amigo não era o facto de ele ter descoberto que ela era uma prostituta, o que me revoltava era o facto de ele nunca ter dado conta que ela era uma puta! Esta era a grande diferença, é que as primeiras têm uma morada e as segundas não!

 

Cristina Pizarro