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CHAVES

Olhares sobre a cidade de Chaves

Pergaminho dobrado em dois

05.04.18 | Fer.Ribeiro

pergaminho.jpg

 

Ninguém: duas vezes.

Se duas pessoas se amam uma à outra, não pode haver final feliz.

E.Hemingway

 

     Faltava muito pouco para os ponteiros do relógio baterem as onze e meia, e eu lá estava muito bem sentado numa das mesas de um bar, perto do Largo das Flores que faz perpendicular com a Rua do Espinho e fica a três quarteirões da lojinha da Alice, que era uma vigarista de primeira e uma oferecida fugaz.

     Fazia-me acompanhar de duas pedras de gelo e uma bebida doce num copo de balão e um livro do Hemingway e dum silêncio narcótico. O bar era calmo e poético. As luzes eram de baixo brilho. O ambiente era propício para o acasalamento de machos e fêmeas. Toda a alma oca por lá andava, aos saltos ou a dançar ou a beber, tentando-se distrair da vida monótona que tinham. Um anoitecer longo fazia-me esquecer a vida.

     Dava conta que me encontrava perdido nos miolos do mundo. Um território movediço da podridão humana.

     Pois bem, reparei que, pondo de lado o meu pessimismo, tinha acabado de entrar uma morena de corpo bem tonificado e de cara simples, vestida como se fosse uma terça-feira, com uma franja rebelde e uns olhos de felina. Chamou-me a atenção, portanto ignorei-a. Tinha acabado de se sentar no balcão em frente, onde os seus joelhos apontavam para mim como duas lanças prontas a serem arremessadas. Tinha umas pernas tão limpas que me faziam olhar de soslaio, mas nunca perdendo o foco das linhas do Ernest ou do copo meio cheio da bebida doce. Não queria acreditar que os olhos dela estivessem a focar-me. De repente, senti-me um quadro do Picasso ou uma exposição de Velasquez a ser observada. Dirigiu-se a mim e disse:

     - Como é que isso vai? – perguntou-me, sem qualquer denúncia de timidez.

     - Bem. Estou lendo. – disse-lhe, apontando para o livro.

     - O que estás a ler?

    E de repente já estávamos a tratar por tu. Ela já se tinha sentado e pedido uma bebida mais forte do que aquela que tinha bebido na noite anterior. Parece que ela e o barman se conheciam. Mas continuei:

     - “Paris é uma festa”, do Hemingway. Conheces?

     - Conheço, mas nunca o li! – disse-me – o último livro que li dele foi o conto do “Velho e o Mar”!

     - Esse, na minha opinião, é a porta de entrada na obra do Hemingway.

     - Eu gosto muito de ler – disse-me ao mesmo tempo que esticava o seu braço apresentando-se – chamo-me Zelda!

     - Scott, prazer! – continuei – O que fazes por cá?

     - Nada de mais. O bar é de um primo meu. Costumo vir aqui muitas vezes.

     Foi então aí que percebi a cumplicidade dela e do barman. Eram primos.

    E, de repente, já tínhamos ocupado quase metade da distância de segurança um do outro. O contacto visual era demorado.      Os engasgos nos intervalos das palavras eram frequentes. O nervosismo normal dobrou para uma ansiedade tenebrosa. O meu maior problema era o desgosto que tinha em não conseguir aguentar uma pessoa por mais de dez minutos. Não estava para aturar uma conversa banal, sem sentido, sem coerência. Não gosto de pessoas, mas consigo encontrar um fascínio diabólico num rabo de saias. Perdoo quase tudo. É a minha perdição.

     Posto isto, a conversa já durava mais que vinte minutos.

     - És de cá? – perguntou-me.

     - Não! Estou de passagem.

     - Curioso! Mas o que é que fazes?

     - Sou escritor.

     - Escritor? E ganhas alguma coisa com isso?

     - Quase tudo. A liberdade.

     Já estava a querer saber de mais e eu não gosto muito de me alongar em conversas intimas. Era bonita, parecia boa por dentro, e possuía uns peitos do tamanho de dois cocos frescos. Sentia-me mais perdido que Hemingway quando divagava nas ruas de França nos anos vinte, ou quando escrevia nos cafés e ninguém queria saber dos seus contos. Tal como acontece comigo. Ao menos ele tinha a Getrude Stein para avaliar as suas linhas. Eu tenho os percevejos da minha almofada e o lixo do mundo.

     - Lês muito? – perguntou-me.

     - O suficiente para chegar à conclusão que nada faz sentido – respondi-lhe – como aqueles dois cinzeiros que estão numa mesa proibida para fumadores, repara!

     - Engraçado! – continuou - eu tenho sempre esperança que a vida não seja só isso!

     - Acreditas em Deus?

     - Sim, claro! Tu não?

     - Todos aqueles que têm amigos imaginários conseguem suportar melhor a vida. – disse-lhe – não é fácil aceitar que tudo se resume a nada ou que a morte seja apenas isso: morte. Sem qualquer esperança de um grande julgamento ou dum papel num auto de Gil Vicente.

     - É-me insuportável viver dessa maneira. Eu preciso de acreditar em algo. Seja o que for, mas é uma necessidade minha.

     - Acredito! – disse-lhe – Mas eu tenho a plena consciência que quando morrer, serei mais do que sou agora.   

     - Porque dizes isso?

     - As pessoas não suportam o artista vivo. É preciso morrer para ser lido, para ser escutado, para virar clássico.

     - Eu gostava que tudo fosse mais agradável na vida, Scott. Sou muito sonhadora!

     - É bom ser sonhador – disse-lhe.

            Estava a gostar da conversa. Achava-a interessante. Para além de ser boa e ingénua, sabia falar, o que era estranho. Naquele momento a conversa seguia um rumo imprevisto e eu não hesitei no que sentia:

     - Acho que devemos conhecer-nos melhor, o que achas? – disse-lhe.

     - Concordo – disse ela – Mas não temos que ter pressa, a noite é uma criança!

     - Mas também não podemos perder tempo, tenha a idade que tiver.

            Queria tanto convidá-la para minha casa. Só que tinha perdido tudo. A minha mãe morreu pouco tempo depois do meu pai nos abandonar. Vivo sozinho, num carro velho e sujo. Tenho páginas escritas espalhadas pelo carro. As baratas e os percevejos são a minha companhia noturna. Faço poemas só para eles. Passo a maior parte do tempo a escrever, ou a ler, quando as bibliotecas me deixam entrar. Não tenho assim uma presença agradável. Foi curioso alguém ter reparado em mim.

     - Já está a ficar tarde! – disse ela

     - É verdade! Já vais para casa? – disse-lhe.

     - Sim, vou! Queres boleia?

     - Não, tenho o carro estacionado mesmo ao virar da esquina.

            Enquanto o silêncio constrangedor tomou conta de nós, abracei-a e não demorou mais que trinta segundos e estava a beijá-la. Ela retribuiu e demoramos mais que dois minutos a soltar as nossas línguas. Convidou-me para acompanhá-la a casa. Sorte a minha. Fomos a pé. Morava em frente ao banco, a dois quarteirões do sítio onde estávamos. A noite estava trépida. As estrelas pareciam querer dizer algo. O medo tornava-se ausente. O meu corpo falava em movimentos sérios de alguém com um sistema nervoso descontrolado.

     - O ser humano é tão valente depois de uns copos – disse-lhe – sinto-me corajoso. Vou matar aquele velho!

     - Estás maluco??

     - Esquece, hoje não. Fica para uma próxima. – disse-lhe.

            Chegamos rápido a casa, num passo ligeiramente acelerado porque estava frio. Fui de imediato à casa de banho, enquanto ela fazia alguma coisa para mastigarmos.

     - Queres uma sandes? – gritou-me da cozinha.

     - Pode ser! Tens alguma coisa para beber? – disse-lhe.

     - Tenho para aqui um uísque. Vou procurar.

     - Se não tiveres, traz-me uma cerveja.

            Sentei-me num dos três sofás que havia na sala e pus-me à vontade. Ela demorava e eu entretinha-me a ver a coleção de discos de vinil que ela tinha. Cada vez ficava mais encantado com os gostos dela. Colecionava Sinatra, Armstrong, B.B.King, Chet Baker, Cole Porter.

     - Encontrei! Já deve ter uns aninhos – disse-me.

     - Ótimo! Com duas pedras de gelo, não te esqueças.

            Sabia que o precipício estaria perto. Cada vez me consumia mais e não tinham sido as suas pernas, ou peitos, ou cu. Talvez tivessem influência, claro. Era todo o conjunto de fatores intelectuais que me despertava cada vez maior atenção e não posso esconder o quanto isso estimulava as minhas sensações.     

     - Moras sozinha? – perguntei-lhe.

     - Sim, já faz um tempo que divido esta casa com o silêncio.

     - Casa comigo! – disse-lhe, num tom de brincadeira, já um pouco bêbado, denunciando-me.

            Ela alinhou na brincadeira e respondeu-me que casaria, enquanto cruzava as pernas.

     - Conta-me lá… Sobre o que escreves? – perguntou-me.

     - Contos, romances, poemas.

     - E já publicaste algum livro?

     - Escrevo para me poder salvar. É um ato puramente egoísta. Talvez, quando morrer, alguém os publique. Para entreter as pessoas, sabes?

     - És louco! – disse-me.

     - Ser louco é um ato de coragem. – disse-lhe – mas não recomendo.

     - Tens que divulgar o teu trabalho – disse-me entusiasmada – ainda podes ficar rico.

     - Não tenho assim grande vontade de fazê-lo. Aliás, maior parte das coisas que escrevo deito fora, ou rasgo ou deixo no carro perdidas. – disse-lhe – E quanto ao ser rico, prometi a mim mesmo que nunca seria.

     - Estranho! Toda a gente gostava de ser rica!

     - Isso é porque nunca o foram – disse-lhe.

     Já passava das seis da manhã, o ar começava a ficar quente de mais ou a garrafa de uísque vazia. Abri a janela e o sol, ainda tímido, já se punha por trás do corpo da montanha. A frescura da manhã enchia a casa de uma primavera fresca. E como nunca trabalhava no dia seguinte, resolvi beijá-la e depois despi-la e depois..

     Passava das três da tarde e nós dormíamos como dois felinos.

     - Tenho que ir!

     - Já? Mas o que aconteceu? – perguntou-me ainda com os olhos meios abertos.

     - Tenho que ir escrever um poema, ou esqueço-o para sempre.

     - Mas voltas? – perguntou-me.

     - A única certeza que agora tenho é não querer esquecer o poema! – disse-lhe.

            Dirigi-me ao café mais próximo e pedi um copo de Logan’s. Pus-me a fumar a minha ultima cigarrilha que um velho me tinha dado. Agarrei numa folha de guardanapo e desabafei. Percebi que a vontade de a ter transcendia as teorias dos gregos.

            Apareci ao meio da tarde, já tinha bebido uns quantos copos.

     - Não fiques chateada comigo – disse-lhe – mas tinha que fazê-lo!

     - O que se passou? Sempre conseguiste escrever o tal poema?

     - Sim! Foi um alívio! A minha cabeça não anda bem.

     - Não tem mal, eu compreendo. Deita-te aqui, Scott!

            Infelizmente, começava a ficar otimista em relação ao futuro e soube logo de imediato, quando repousava a minha caixa de pandora no colo dela, que estava a enlouquecer.

            Ao fim da tarde, pedi-lhe para que me fosse comprar um caderno novo e umas quantas recargas para a minha caneta. Prometi-lhe que não sairia dali. Liguei o gira-discos que ela tinha em frente a um móvel de madeira antiga. Pus a tocar o “Let’s Do It”, de Cole Porter. Fazia vinte e um anos que não dormia numa cama. Muito menos com uma mulher. Quanto à promessa, depois via-se.

 

Herman JC